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13 Set 2007

Bento XVI Se Pretende Senhor dos Domingos

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Esta arrogância do Cristo parece ter contaminado todos os papas. Quando falam, não se dirigem apenas a seus seguidores. Falam urbi et orbi, isto é, à cidade (Roma) e ao mundo.

Quem me acompanha já terá ouvido falar de Celso, o nobre romano autor de A Verdadeira Natureza, obra que foi queimada pela Igreja e cujos fragmentos só chegaram até nós graças à contestação de Orígenes, em Contra Celso. Era costume, na época, ao se contestar uma obra, retomar os argumentos do autor. Não fosse o zelo de Orígenes, nada nos teria restado do primeiro adversário pagão do cristianismo. Uma entre as muitas coisas que os romanos da época não conseguiram entender no cristianismo é que o novo deus não pertencia a nenhum Estado. Roma tinha seus deuses, Atenas também. Israel tinha Jeová. Mas a que Estado pertencia o Cristo? Aparentemente, a nenhum. Não bastasse isso, queria impor-se a todos os demais deuses.

Esta arrogância do Cristo parece ter contaminado todos os papas. Quando falam, não se dirigem apenas a seus seguidores. Falam urbi et orbi, isto é, à cidade (Roma) e ao mundo. Este é o tom da homilia proferida hoje em Viena por Bento XVI, na qual o papa condena a sociedade ocidental por ter transformado o domingo, o dia do Senhor, em fim de semana. Segundo o pontífice, embora o tempo livre seja necessário, "se não tiver um centro, que é o encontro com Deus, acaba sendo um tempo perdido".

Claro que Bento fala de seu deus, o velho Jeová, que faz um só com o Cristo e o Paráclito. Isolado na torre de marfim do Vaticano, cercado por seus áulicos, Ratzinger parece ignorar - ou finge ignorar, pois certamente não ignora - que na Áustria existem milhares de judeus, que têm o sábado como dia santo. Mais milhares de muçulmanos, que celebram seu deus na sexta-feira. Isso sem falar em milhões de pessoas, que podem até crer vagamente em um deus, mas que não abrem mão do ócio aos domigos. Ao assim pronunciar-se, Ratzinger desrespeita uma sociedade laica, que faz do domingo o que bem entender.

O domingo como dia de repouso foi instituído no ano 321 por Constantino. Imperador pagão, teria se convertido ao cristianismo - segundo Paul Veyne - porque a um grande imperador era necessário uma grande religião. “Ora, face aos deuses pagãos, o cristianismo, embora seita minoritária, era a religião de vanguarda que não se parecia a nada conhecido”. Ao instituir o domingo como dia de repouso, conseguiu agradar os cristãos sem irritar os pagãos. A doutrina astrológica da época ensinava que cada dia estava sob o signo de um planeta. Como havia sete planetas (entre estes, o sol) chegou-se a um ritmo de sete dias. Domingo era o dies solis, dia do sol.

Por outro lado, sempre segundo Veyne - estou citando Quand notre monde est devenu chrétien - uma antiga instituição romana era o justitium: se, em determinado ano, ocorria qualquer acontecimento (declaração de guerra, morte de um membro da família imperial, funerais públicos de um notável), os poderes públicos decretavam um justitium, uma jornada durante a qual toda atividade estatal ou judiciária era suspendida. Constantino decidiu então que dali para a frente haveria um justitium perpétuo no dies solis, cujo nome era conhecido de todos, pagãos e cristãos. Em função deste decreto imperial do século IV, até hoje há restrições ao trabalho nos domingos nos países de predominância católica. Em Viena, boa parte das lojas não têm permissão para funcionar no domingo. Os grupos de negócios que lutam por esse direito são combatidos pelos católicos.

Como Cristo havia ressuscitado no sétimo dia do calendário judaico e os cristãos faziam suas assembléias no último dia da semana para celebrar a Eucaristia, o dia do sol se tornou então, para os cristãos, o dia do Senhor. Com o tempo, os domingos se tornaram tediosos. Para que a multidão fosse escutar os sermões, as corridas de carro e os espetáculos teatrais foram proibidos nos domingos.

As sociedades ocidentais, segundo o papa, transformaram o domingo em dia de atividades de lazer e ofuscaram o significado católico tradicional do dia, devotar tempo a Deus. Bento esquece - ou melhor, omite - que o dia do Sol foi roubado aos pagãos e transformado em dia do Senhor. A Igreja sempre foi useira e vezeira em cobrir festas pagãs com seus rituais.

Será certamente decorrência de viver numa torre de marfim o que leva o papa a dizer isto logo em Viena, cidade em que os católicos estão abandonando as igrejas, e quando as freqüentam vão mais para assistir a seus magníficos corais do que para prestar culto a deus.

Bento se pretende o senhor dos domingos. Ora, vivemos em sociedades laicas, onde fazemos dos domingos o que bem entendemos. Se alguns os dedicam a louvar um deus, a maioria os consagra à bonaxira, ao ócio, ao teatro e cinema, ao vinho, cerveja ou futebol. Que o papa fale a seu rebanho, entende-se. O que é insuportável no vice-deus é sua mania de achar que a humanidade toda deve render homenagens ao deus católico.

Quem me acompanha já terá ouvido falar de Celso, o nobre romano autor de A Verdadeira Natureza, obra que foi queimada pela Igreja e cujos fragmentos só chegaram até nós graças à contestação de Orígenes, em Contra Celso. Era costume, na época, ao se contestar uma obra, retomar os argumentos do autor. Não fosse o zelo de Orígenes, nada nos teria restado do primeiro adversário pagão do cristianismo. Uma entre as muitas coisas que os romanos da época não conseguiram entender no cristianismo é que o novo deus não pertencia a nenhum Estado. Roma tinha seus deuses, Atenas também. Israel tinha Jeová. Mas a que Estado pertencia o Cristo? Aparentemente, a nenhum. Não bastasse isso, queria impor-se a todos os demais deuses.

Esta arrogância do Cristo parece ter contaminado todos os papas. Quando falam, não se dirigem apenas a seus seguidores. Falam urbi et orbi, isto é, à cidade (Roma) e ao mundo. Este é o tom da homilia proferida hoje em Viena por Bento XVI, na qual o papa condena a sociedade ocidental por ter transformado o domingo, o dia do Senhor, em fim de semana. Segundo o pontífice, embora o tempo livre seja necessário, "se não tiver um centro, que é o encontro com Deus, acaba sendo um tempo perdido".

Claro que Bento fala de seu deus, o velho Jeová, que faz um só com o Cristo e o Paráclito. Isolado na torre de marfim do Vaticano, cercado por seus áulicos, Ratzinger parece ignorar - ou finge ignorar, pois certamente não ignora - que na Áustria existem milhares de judeus, que têm o sábado como dia santo. Mais milhares de muçulmanos, que celebram seu deus na sexta-feira. Isso sem falar em milhões de pessoas, que podem até crer vagamente em um deus, mas que não abrem mão do ócio aos domigos. Ao assim pronunciar-se, Ratzinger desrespeita uma sociedade laica, que faz do domingo o que bem entender.

O domingo como dia de repouso foi instituído no ano 321 por Constantino. Imperador pagão, teria se convertido ao cristianismo - segundo Paul Veyne - porque a um grande imperador era necessário uma grande religião. “Ora, face aos deuses pagãos, o cristianismo, embora seita minoritária, era a religião de vanguarda que não se parecia a nada conhecido”. Ao instituir o domingo como dia de repouso, conseguiu agradar os cristãos sem irritar os pagãos. A doutrina astrológica da época ensinava que cada dia estava sob o signo de um planeta. Como havia sete planetas (entre estes, o sol) chegou-se a um ritmo de sete dias. Domingo era o dies solis, dia do sol.

Por outro lado, sempre segundo Veyne - estou citando Quand notre monde est devenu chrétien - uma antiga instituição romana era o justitium: se, em determinado ano, ocorria qualquer acontecimento (declaração de guerra, morte de um membro da família imperial, funerais públicos de um notável), os poderes públicos decretavam um justitium, uma jornada durante a qual toda atividade estatal ou judiciária era suspendida. Constantino decidiu então que dali para a frente haveria um justitium perpétuo no dies solis, cujo nome era conhecido de todos, pagãos e cristãos. Em função deste decreto imperial do século IV, até hoje há restrições ao trabalho nos domingos nos países de predominância católica. Em Viena, boa parte das lojas não têm permissão para funcionar no domingo. Os grupos de negócios que lutam por esse direito são combatidos pelos católicos.

Como Cristo havia ressuscitado no sétimo dia do calendário judaico e os cristãos faziam suas assembléias no último dia da semana para celebrar a Eucaristia, o dia do sol se tornou então, para os cristãos, o dia do Senhor. Com o tempo, os domingos se tornaram tediosos. Para que a multidão fosse escutar os sermões, as corridas de carro e os espetáculos teatrais foram proibidos nos domingos.

As sociedades ocidentais, segundo o papa, transformaram o domingo em dia de atividades de lazer e ofuscaram o significado católico tradicional do dia, devotar tempo a Deus. Bento esquece - ou melhor, omite - que o dia do Sol foi roubado aos pagãos e transformado em dia do Senhor. A Igreja sempre foi useira e vezeira em cobrir festas pagãs com seus rituais.

Será certamente decorrência de viver numa torre de marfim o que leva o papa a dizer isto logo em Viena, cidade em que os católicos estão abandonando as igrejas, e quando as freqüentam vão mais para assistir a seus magníficos corais do que para prestar culto a deus.

Bento se pretende o senhor dos domingos. Ora, vivemos em sociedades laicas, onde fazemos dos domingos o que bem entendemos. Se alguns os dedicam a louvar um deus, a maioria os consagra à bonaxira, ao ócio, ao teatro e cinema, ao vinho, cerveja ou futebol. Que o papa fale a seu rebanho, entende-se. O que é insuportável no vice-deus é sua mania de achar que a humanidade toda deve render homenagens ao deus católico.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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