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02 Set 2007

Há 435 Anos, A Noite de São Bartolomeu

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Embora os historiadores não tenham chegado a nenhuma conclusão sobre a autoria intelectual do crime, o fato é que o atentado desfechou um dos episódios mais sangrentos da história das guerras de religiões.

Neste 24 de agosto passado, uma leitora me pediu um comentário sobre a noite de São Bartolomeu, episódio sangrento desfechado nesta data, em Paris, em 1572, durante o reinado de Charles IX, quando os protestantes franceses, chamados huguenotes, começaram a ser massacrados pela realeza católica. Le voilà!

Os ânimos estavam envenenados na Paris daqueles dias. Os três últimos anos haviam sido marcados por guerras civis entre católicos e protestantes, que tiveram fim com o tratado de Saint-Germain. Os católicos mais intransigentes, no entanto, não aceitavam esta paz. O almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote, foi admitido no Conselho Real. Os católicos ficaram chocados com o retorno dos protestantes à corte francesa. Para ratificar a paz entre as duas facções religiosas, Catherine de Médicis, a rainha-mãe, quer casar sua filha Marguerite de Vallois com o príncipe protestante Henri de Navarra, futuro Henri IV. O casamento foi marcado para o 18 de agosto e não foi aceito pelos católicos nem pelo papa Gregório XIII. O rei da Espanha, Felipe II, também condenava o casamento real.

Não tendo o acordo papal para o casamento, Catherine de Médicis teve de convencer o o cardeal de Bourbon para celebrar a união. Os parisienses, católicos ao extremo, não gostaram do grande afluxo de nobres protestantes que vieram para o casamento. A união de uma princesa francesa com um protestante lhes soava como blasfêmia. O Parlamento francês ignorou as bodas. A alta dos preços e o luxo das núpcias reais revoltaram os franceses.

Mas o estopim do massacre ocorreu no dia 22 de agosto, quando um atentado contra Coligny o deixou ferido no braço e na mão. Segundo o Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion (Arlette Jouanna et allia, Paris, Robert Laffont, 1998), o autor teria sido Charles de Louvier, sieur de Maurevert, que já tinha em sua folha corrida o assassinato, em 1569, de Artus de Mouy, um seguidor de Coligny. Até hoje não se sabe quem encomendou o crime. Alguns historiadores falam de Catherine de Médicis. Mas é pouco provável que ela tenha pretendido destruir a obra de reconciliação empreendida desde 1570 e selada pelo casamento de sua filha com o príncipe de Navarra. Há quem aponte o clã dos Guise, que suspeitavam ser Coligny o responsável pelo assassinato de François de Guise. Ou seja, seria uma questão de vendeta. Outros falam de uma pista espanhola. Felipe II e o duque de Alba jamais teriam escondido seu desejo de ver Coligny morto. Sua eliminação portaria um golpe fatal ao projeto de intervenção nos Países Baixos.

Embora os historiadores não tenham chegado a nenhuma conclusão sobre a autoria intelectual do crime, o fato é que o atentado desfechou um dos episódios mais sangrentos da história das guerras de religiões. O atentado contra Coligny lembra um outro atentado crucial, em 1936, quando o assassinato de Calvo Sotelo deu o sinal para o desfecho da Guerra Civil Espanhola, que deixou um saldo estimado em um milhão de cadáveres.

Charles IX tenta amenizar o clima de guerra civil, visitando Coligny em seu leito no dia seguinte ao atentado e lhe prometendo justiça. Diante do recuo do rei ante os protestantes, os Guise ameaçam abandonar a capital deixando o rei e a rainha-mãe ao desamparo. Durante o almoço da rainha, os protestantes vieram reclamar justiça. No mesmo dia, Catherine teria tido uma reunião nas Tuilleries com seus conselheiros, após o que foi ver o rei e comunicou-lhe a existência de um complô protestante.

Charles IX decidiu eliminar os chefes protestantes, sem que sua mãe lhe trouxesse maiores provas do complô. O rei teria sofrido pressões do papa Gregório XIII e se resignou “a comprar a paz com a Espanha e com Paris ao preço da vida de Coligny e de seus principais lugares-tenentes”. Poupou os príncipes de sangue, Henri de Navarra e o príncipe de Condé. Segundo alguns, teria explodido ante os conselhos de sua mãe: “Que assim seja. Que os matem. Mas que matem todos. Que não reste um só para que eu não seja acusado”.

Em verdade, o rei pretendia eliminar um número limitado de líderes huguenotes. O que não havia previsto, segundo os autores do Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion, é que a execução limitada dos chefes daria o sinal de um massacre em massa, que em Paris durou até o 29 de agosto, com um paroxismo de violência durante os primeiros três dias.

No dia 24 começaram as matanças em Paris. As portas da cidade foram fechadas. O sinal para o início dos massacres foi dado por um sino da igreja Saint-Germain-l’Auxerrois, próxima ao Louvre. Os nobres protestantes foram expulsos do palácio do Louvre e depois assassinados nas ruas. Na madrugada, o duque de Guise vai com uma tropa à residência do almirante Coligny. Alguns de seus companheiros são mortos ali mesmo, outros escapam pelo teto. Coligny foi atacado por um cigano ao serviço do duque. Olhando seu assassino, teria suspirado: “Se ao menos algum homem e não este bruto me fizesse morrer”. Seu cadáver foi então jogado pela janela e caiu aos pés de Henri de Guise e de Henri d’Angoulème, que o identificaram. O povo se encarniçou sobre o cadáver, que foi mutilado, castrado, arrastado pela lama, jogado no Sena e depois repescado e finalmente pendurado na forca de Montfaucon, sob a qual foi acendida uma fogueira. O massacre durou vários dias. Estudantes estrangeiros, livreiros e operadores de câmbio foram massacrados pelo povo, encorajado pelos padres. Os cadáveres foram jogados no Sena.

Os assassinatos de huguenotes se espalharam pelo interior da França, por uma quinzena de cidades ardentemente católicas, entre elas Toulouse, Bordeaux, Angers, Saumur, Lyon, Meaux, Bourges, Rouen e Orléans. Mil a mil e quinhentos protestantes foram degolados e jogados na Loire. Segundo o Dictionnaire, estas matanças provinciais revelam nos que as praticaram a convicção de cumprir uma obra de Deus, purificando suas cidades da heresia que as maculava. Mas particularmente no Sul, elas revelavam também lutas intestinas pelo controle do poder urbano. No total, na França, os São Bartolomeus fizeram talvez dez mil vítimas. A violência desfechada contra os huguenotes levou muitos, nas cidades mais hostis, a abjurar. Em Rouen, três mil se converteram à Igreja Católica. Em Orléans, as abjurações coletivas foram feitas ante as ridicularizações da multidão católica reunida. Outros preferiram exilar-se. No Oeste e Sul da França, a indignação estimulou a vontade de lutar. De sua tomada de armas, surgirá a Quarta Guerra Civil (outubro 1572 - julho 1573).

Há quem fale de 70 mil a cem mil mortos. Segundo relatos, os cadáveres boiaram nos rios durante meses, de modo que ninguém comia peixe. Quem ficou muito feliz com o massacre foi o papa Gregório XIII, que cunhou uma medalha comemorativa da data e encarregou Giorgio Vasari de pintar um mural celebrando o massacre.

Neste 24 de agosto passado, uma leitora me pediu um comentário sobre a noite de São Bartolomeu, episódio sangrento desfechado nesta data, em Paris, em 1572, durante o reinado de Charles IX, quando os protestantes franceses, chamados huguenotes, começaram a ser massacrados pela realeza católica. Le voilà!

Os ânimos estavam envenenados na Paris daqueles dias. Os três últimos anos haviam sido marcados por guerras civis entre católicos e protestantes, que tiveram fim com o tratado de Saint-Germain. Os católicos mais intransigentes, no entanto, não aceitavam esta paz. O almirante Gaspard de Coligny, líder huguenote, foi admitido no Conselho Real. Os católicos ficaram chocados com o retorno dos protestantes à corte francesa. Para ratificar a paz entre as duas facções religiosas, Catherine de Médicis, a rainha-mãe, quer casar sua filha Marguerite de Vallois com o príncipe protestante Henri de Navarra, futuro Henri IV. O casamento foi marcado para o 18 de agosto e não foi aceito pelos católicos nem pelo papa Gregório XIII. O rei da Espanha, Felipe II, também condenava o casamento real.

Não tendo o acordo papal para o casamento, Catherine de Médicis teve de convencer o o cardeal de Bourbon para celebrar a união. Os parisienses, católicos ao extremo, não gostaram do grande afluxo de nobres protestantes que vieram para o casamento. A união de uma princesa francesa com um protestante lhes soava como blasfêmia. O Parlamento francês ignorou as bodas. A alta dos preços e o luxo das núpcias reais revoltaram os franceses.

Mas o estopim do massacre ocorreu no dia 22 de agosto, quando um atentado contra Coligny o deixou ferido no braço e na mão. Segundo o Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion (Arlette Jouanna et allia, Paris, Robert Laffont, 1998), o autor teria sido Charles de Louvier, sieur de Maurevert, que já tinha em sua folha corrida o assassinato, em 1569, de Artus de Mouy, um seguidor de Coligny. Até hoje não se sabe quem encomendou o crime. Alguns historiadores falam de Catherine de Médicis. Mas é pouco provável que ela tenha pretendido destruir a obra de reconciliação empreendida desde 1570 e selada pelo casamento de sua filha com o príncipe de Navarra. Há quem aponte o clã dos Guise, que suspeitavam ser Coligny o responsável pelo assassinato de François de Guise. Ou seja, seria uma questão de vendeta. Outros falam de uma pista espanhola. Felipe II e o duque de Alba jamais teriam escondido seu desejo de ver Coligny morto. Sua eliminação portaria um golpe fatal ao projeto de intervenção nos Países Baixos.

Embora os historiadores não tenham chegado a nenhuma conclusão sobre a autoria intelectual do crime, o fato é que o atentado desfechou um dos episódios mais sangrentos da história das guerras de religiões. O atentado contra Coligny lembra um outro atentado crucial, em 1936, quando o assassinato de Calvo Sotelo deu o sinal para o desfecho da Guerra Civil Espanhola, que deixou um saldo estimado em um milhão de cadáveres.

Charles IX tenta amenizar o clima de guerra civil, visitando Coligny em seu leito no dia seguinte ao atentado e lhe prometendo justiça. Diante do recuo do rei ante os protestantes, os Guise ameaçam abandonar a capital deixando o rei e a rainha-mãe ao desamparo. Durante o almoço da rainha, os protestantes vieram reclamar justiça. No mesmo dia, Catherine teria tido uma reunião nas Tuilleries com seus conselheiros, após o que foi ver o rei e comunicou-lhe a existência de um complô protestante.

Charles IX decidiu eliminar os chefes protestantes, sem que sua mãe lhe trouxesse maiores provas do complô. O rei teria sofrido pressões do papa Gregório XIII e se resignou “a comprar a paz com a Espanha e com Paris ao preço da vida de Coligny e de seus principais lugares-tenentes”. Poupou os príncipes de sangue, Henri de Navarra e o príncipe de Condé. Segundo alguns, teria explodido ante os conselhos de sua mãe: “Que assim seja. Que os matem. Mas que matem todos. Que não reste um só para que eu não seja acusado”.

Em verdade, o rei pretendia eliminar um número limitado de líderes huguenotes. O que não havia previsto, segundo os autores do Histoire et Dictionnaire des Guerres de Religion, é que a execução limitada dos chefes daria o sinal de um massacre em massa, que em Paris durou até o 29 de agosto, com um paroxismo de violência durante os primeiros três dias.

No dia 24 começaram as matanças em Paris. As portas da cidade foram fechadas. O sinal para o início dos massacres foi dado por um sino da igreja Saint-Germain-l’Auxerrois, próxima ao Louvre. Os nobres protestantes foram expulsos do palácio do Louvre e depois assassinados nas ruas. Na madrugada, o duque de Guise vai com uma tropa à residência do almirante Coligny. Alguns de seus companheiros são mortos ali mesmo, outros escapam pelo teto. Coligny foi atacado por um cigano ao serviço do duque. Olhando seu assassino, teria suspirado: “Se ao menos algum homem e não este bruto me fizesse morrer”. Seu cadáver foi então jogado pela janela e caiu aos pés de Henri de Guise e de Henri d’Angoulème, que o identificaram. O povo se encarniçou sobre o cadáver, que foi mutilado, castrado, arrastado pela lama, jogado no Sena e depois repescado e finalmente pendurado na forca de Montfaucon, sob a qual foi acendida uma fogueira. O massacre durou vários dias. Estudantes estrangeiros, livreiros e operadores de câmbio foram massacrados pelo povo, encorajado pelos padres. Os cadáveres foram jogados no Sena.

Os assassinatos de huguenotes se espalharam pelo interior da França, por uma quinzena de cidades ardentemente católicas, entre elas Toulouse, Bordeaux, Angers, Saumur, Lyon, Meaux, Bourges, Rouen e Orléans. Mil a mil e quinhentos protestantes foram degolados e jogados na Loire. Segundo o Dictionnaire, estas matanças provinciais revelam nos que as praticaram a convicção de cumprir uma obra de Deus, purificando suas cidades da heresia que as maculava. Mas particularmente no Sul, elas revelavam também lutas intestinas pelo controle do poder urbano. No total, na França, os São Bartolomeus fizeram talvez dez mil vítimas. A violência desfechada contra os huguenotes levou muitos, nas cidades mais hostis, a abjurar. Em Rouen, três mil se converteram à Igreja Católica. Em Orléans, as abjurações coletivas foram feitas ante as ridicularizações da multidão católica reunida. Outros preferiram exilar-se. No Oeste e Sul da França, a indignação estimulou a vontade de lutar. De sua tomada de armas, surgirá a Quarta Guerra Civil (outubro 1572 - julho 1573).

Há quem fale de 70 mil a cem mil mortos. Segundo relatos, os cadáveres boiaram nos rios durante meses, de modo que ninguém comia peixe. Quem ficou muito feliz com o massacre foi o papa Gregório XIII, que cunhou uma medalha comemorativa da data e encarregou Giorgio Vasari de pintar um mural celebrando o massacre.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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