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04 Jul 2004

Moro Num País Tropical Abençoado Por Deus e Bonito Por Natureza

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Mas o que ninguém pode negar - nem mesmo aqueles que têm faniquitos e estremeliques quando ouvem falar em PT (Perda Total no jargão das companhias de seguros) - é que, em suas viagens internacionais, Lulinha Paz e Amor está fazendo um marquetingue positivo do Brasil, e assim foi no refinado palco do Waldorf-Astoria em N.Y.

Após o historicamente inédito vexame de ter conseguido ser vaiado num velório e solicitado a se retirar do mesmo por um laivo de bom senso, Lulinha Paz e Amor entrou novamente no sucatão e mandou o piloto tocar de volta para o Palácio da Alvorada. Estava cabisbaixo e desanimado, mas logo recobrou o ânimo, pois o que passou, passou e o que ainda não passou, passará, mas não sem antes de preparar o discurso a ser proferido em Nova Iorque. Os dedicados assessores do Presidente já tinham tomado as providências de praxe para o meeting a ser realizado no Waldorf-Astoria  em que Lulinha Paz e Amor soltaria sua potente voz no espaço para uns 500 megainvestidores americanos. Os marqueteiros do Planalto já tinham até bolado o título, em inglês é claro, porque em português os tycoons de Tio Sam não entenderiam chongas: LATIN AMERICA’S LAST LEFTIST HERO? Claro que não! Esta foi a deslocada pergunta que apareceu na capa da The New York Times Magazine, logo abaixo de um desenho de uma face composta, pois tinha traços de Lula, de Stalin, de Gutierrez del Sendero Luminoso, de Agusto Sandino de los sandinistas y otros muchachos muy machos. O título do seminário era BRAZIL MEETS MARKETS.

Mas encontra que mercados? Só se forem os da cocaína, do turismo sexual, das bugigangas orientais vendidas por camelôs, de animais exóticos da rica fauna brasileira et caetera.  O leitor não faz idéia de quanto está valendo no mercado negro internacional um tamanduá-bandeira, um lobo-guará, uma ararinha azul ou uma sucuri. Alguns membros de espécies em via de extinção estão valendo mais do que a vaquinha Mimosa vendida em Barretos (SP) por mais de um milhão de reais. Não era preço exorbitante, pois aquela autêntica Melore só não tinha tetas mais fartas do que as da Viúva (também conhecida pelo nome de Erário Público).E  mamar nas tetas quem não quer? No comentário feito em Veja, ano 37, número 26, p.38) até que há algumas observações que me parecem sensatas e pertinentes. Referindo-se a um país como o Chile - tanto após o regime de Pinochet como durante o próprio – os autores observam que ninguém organizaria um seminário de encontro nem de reencontro com o mercado: “Não precisa. Eles marcham juntos e sem sobressaltos há muito tempo”. Mas o Brasil tem de estar constantemente tentando persuadir o mundo que Roberto Campos estava redondamente enganado quando vivia dizendo por aí que nosso sistema econômico era o mercantilismo, que o Estado não só era um megaempresário incompetente como padecia de uma fúria legiferante. Como observava recentemente Cândido Prunes no site do Instituto Liberal-RJ: (...) “Sim, sempre que às quartas-feiras e aos sábados um brasileiro se senta ao meio-dia para saborear sua feijoada, cada um dos seus ingredientes terá passado por uma maratona regulamentar que totaliza quinhentos e cinqüenta e cinco ordens emanadas pelo poderes Executivo e Legislativo. O arroz é o campeão da regulamentação: nada menos que 182 diplomas legais infernizam a vida de desde quem o cultiva até quem o coloca na mesa do consumidor.

O feijão também está muito bem posicionado nesse ranking, com 134 diplomas (um deles estabelece que o “feijão-anão preto, típico da feijoada, pode ter até 5% de grãos claros”). A carne de porco é outro item que as autoridades cuidaram de super-regulamentar, expedindo nada menos do que 48 dispositivos legais. A cachaça vem logo a seguir, com 38 “leis” que a ela se aplicam (em 1994, por exemplo, o governo decretou que a palavra “cachaça” é de uso exclusivamente brasileiro). Seguem-se os outros elementos que compõem uma feijoada, como o bacon, couve, limão, laranja, carne-seca, farinha e paio. Este último é o “lanterninha” da lista, com apenas dois dispositivos legais regulamentando-o. (um deles estabelece o limite de carne “mecanicamente separada” que pode ser utilizado na sua fabricação)”.

Fala sério! E um país com uma legislação deste naipe lá precisa de inimigos externos? Eu sempre digo mas ninguém me leva a sério:nossos maiores inimigos estão dentro das nossas fronteiras, sejam os que nos assaltam, sejam os que ameaçam nossas vidas ou os  que nos governam. O leitor pode até se sentir indignado de um país pobre como o Brasil, que não tem dinheiro para tapar buracos nas estradas,  fazer hospitais, escolas,  presídios de segurança máxima, etc. estar patrocinando  um seminário em tão luxuoso hotel. Ah! Mas neste ponto vejo-me compelido a defender a logística do hard core do Planalto. Se o objetivo é atrair as visitas de grandes big shots do mundo financeiro, não se pode fazer um encontro numa espelunca no Bronx e ser recebido por jovens negros entoando raps à porta do estabelecimento, só para contestar a globalização e o status quo. Não, não, assim não dá. Tem de investir um dinheirinho para depois receber bons retornos de capital, como foi no caso das Olimpíadas (ou Olim-piadas?).

Mas o que ninguém pode negar - nem mesmo aqueles que têm faniquitos e estremeliques quando ouvem falar em PT (Perda Total no jargão das companhias de seguros) - é que, em suas viagens internacionais, Lulinha Paz e Amor está fazendo um marquetingue positivo do Brasil, e assim foi no refinado  palco do Waldorf-Astoria em N.Y. Pondo de lado o discurso escrito por um ghost writer - mas não os providenciais serviços do intérprete oficial do Palácio – o grande líder latino-americano retomou aquela tradicional verve de seus discursos de improviso. Como os telejornais  da Globo têm o horroroso hábito de fazer cortes em falas, justamente quando as coisas estão ficando boas, não sei como foi o resto, mas o pouco que ouvi foi para mim o suficiente...

“O Brasil é um país maravilhoso em que não há vulcões, furacões, terremotos, maremotos...”. Não mentiu. Estamos mesmo livres de todas estas e outras calamidades naturais, mas em compensação... temos mais de 70 impostos com direito a efeito cascata, Estado mais inchado do que cabeça de flamenguista após a derrota para o Santo André,  total falta de consciência profissional (prostituta que goza, cafetão que se apaixona e traficante que se vicia);  Ali Babá e os Quarenta (Mil) Ladrões à solta, gente que foi eleita não pelo voto do eleitor (mas pela legenda), mosquito da dengue, entregador de pizza que é assaltante, chupa-cabras em Minas Gerais, Bonnie and Clyde no Rio de Janeiro, La Cumparsita em São Paulo, a Cambaxirra do Sertão no Planalto Central,  a feiúra e a voz de gralha no cio da tal da Vingança de Canudos e, last but not least: a tal da Ofélia que só abre boca pra dizer besteira.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:22
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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