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02 Jun 2013

A Sereia do Caribe

Escrito por 

Como advertiu o filósofo Olavo de Carvalho, “comunismo nao é uma doutrina, mas uma doença da alma”.

Do grego seirén, originou-se a mitológica figura da sereia. Ser fabuloso cujo corpo era de mulher formosa, da cintura para cima, e de peixe, daí para baixo, terminando em cauda. Diz a lenda que, com a harmonia do seu canto, atraía os navegantes para os recifes, onde naufragavam e morriam. Os relatos mais conhecidos vêm da antigüidade clássica, sendo o episódio mais famoso aquele na Odisséia, de Homero. Neste clássico da mitologia grega, Ulisses, filho e sucessor de Laerte, rei de Ítaca e marido de Penélope, exausto depois de tantos anos tentando retornar a sua casa, diante das dificuldades impostas por Posêidon, deus dos mares, tem que atravessar a região onde ficavam as sereias. Graças aos conselhos da feiticeira Circe, Ulisses instrui sua tripulação para que o amarrassem com força junto ao mastro de seu barco, enquanto seus marinheiros deveriam fechar os ouvidos com cera. Dessa maneira, Ulisses passou incólume e por fim voltou para casa. Dessa experiência, fica-lhe o sofrimento e o desespero vividos enquanto esteve preso ao mastro, escutando e sentindo o canto e os encantos daquelas mulheres. Outro episódio importante da mitologia é o de Orfeu, que embarca com a expedição dos Argonautas e, no encontro com as sereias, se põe a cantar de tal forma e com tal encanto, que consegue superar o fascínio do canto das mesmas. Nessa passagem apenas um dos tripulantes, Butes, não resiste e se lança ao mar para uma morte certa, sendo, no entanto salvo por Afrodite e alcançando assim um destino mais feliz.

Vê-se, pois que a figura da sereia, a despeito de sua exterior beleza e com um dom de, ao cantar, enebriar a todos os que a ela ouvissem, trazia em si algo de maléfico, de traiçoeiro, de mentira. O seu belo cantar, aliado ao seu esgalgado corpo induzia, seduzia e atraia para um fim capital: a morte. Assim é a nossa sereia do Caribe. Ainda hoje, no Brasil, existem incontáveis “marinheiros” que estão chapados pelas melodias da sereia do Caribe. Ainda que poucos sejam os narrativos fidedignos que tenham origem naquela sereia. Em nosso país, a idéia sobre a sereia do Caribe é vendida como exemplo de honestidade, justiça, respeito ao Homem, democracia.

A sereia do Caribe é a ilha-prisão chamada Cuba. E o seu canto, que a tantos encanta em terras brasileiras, se encontra nas letras escritas na pauta do comunismo. Assim é que Cuba é a sereia e seu sistema político, seu canto. Assim é que, como na mitologia grega, ainda hoje, muitos são os “marinheiros” atraídos pelo canto comunista que é exalado de Cuba. E o que impressiona é a facilidade que há no Brasil de se bem falar daquela prisão em alto mar, comandada pelo ditador Castro. Somente o fato de nossa mídia estar contaminada pelo vírus socialista explica esse fenômeno. Fala-se dos avanços na educação, na saúde e no desporto. Fala-se nas vacinas produzidas em Cuba e que, no Brasil, salvam vidas, assim como no resto do mundo. No quesito educação, por exemplo, pesquisa da http://www.unesco.cl/home.htm" target="_blank">OREALC/UNESCO apontou que Cuba tem excelentes escolas, melhores do que nos outros países latino-americanos. No quesito saúde, segundo a médica cubana Herminia Palenzuela, pediatra do cardiocentro do hospital "William Soler", de Havana, Cuba assiste à todos os que, no mundo, não tem acesso a sistemas de saúde como o existente na Ilha, gratuito e à disposição de toda a população. E complementando essa assertiva, sua colega, a enfermeira Maura Herrera, explicou como os médicos cubanos salvam crianças que, noutros países, estariam condenadas a morte, e destacou o caráter preventivo do sistema de saúde em Cuba. Ademais, em competições esportivas, e aqui estamos no quesito desporto, invariavelmente Cuba situa-se, ao final, entre as primeiras colocadas. Os Jogos Olímpicos são uma clara demonstração do poderio esportivo da ilha-prisão.

Nossa, parece que estou querendo ir pra Cuba, estudar, ficar doente e, depois de recuperado, ser um atleta cubano...Eis o canto da sereia do Caribe.

Para iniciar a segunda fase deste artigo, gostaria de lançar uma pergunta? Sendo Cuba, o “paraíso” na Terra, qual a razão de assistir, já não mais surpreso, dezenas de milhares de cubanos, buscarem refúgio nos EUA? E para isso, falsificam documentos, transformam Kombi em barco e, acredito que como última e desesperada forma de sair da ilha de Castro tentam alcançar o solo norte-americano nadando! E uma outra pergunta. Por que não se vê procedimento semelhante por parte dos americanos, em sentido contrário, ou mesmo de outros povos, migrando em massa para o seio da sereia do Caribe? Talvez haja algo de errado em Cuba. E qual seria o erro? Os mais de quarenta anos de uma ditadura sanguinária, comandada por Fidel Castro e seu grupo de saltimbanco. Cuba é a materialização do terror institucionalizado, na sua forma mais pura. Vamos centrar fogo (no bom sentido semântico da palavra) no que de fato interessa. O canto da sereia do Caribe.

"Que quede claro que no somos comunistas. Nuestra filosofia politica es la de la democracia representativa". Essas são palavras de Fidel Castro em Sierra Maestra, na entrevista a uma rede de televisão norte-americana, antes de tomar de assalto o poder em Cuba. Em setembro de 1958, entrevistado por Karl Meyer, afirmou Castro “que no tenía interés en participar personalmente en un gobierno revolucionario". E em primeiro de Janeiro de 1959, em Santiago de Cuba, em seu primeiro discurso, ratificou aquelas palavras, ao afirmar "que nadie piense que pretendo estar por encima del Presidente de La República". O Canto da sereia começava a soltar seus primeiros trinados. Afinando o canto, a 5 de Janeiro de 1959, Che Guevara, companheiro de Castro na revolução cubana, afirmou: "Somos demócratas, nuestro movimiento es democrático, liberal y esta interesado en la cooperación de toda América. Llamar comunistas a todos los que se niegan a someterse es un viejo truco de los dictadores. En el plazo de un año y medio se organizará una fuerza política con la ideología del Movimiento 26 de Julio. Entonces habrá elecciones y el nuevo partido competirá con los demás partidos democráticos". Fidel insistia em continuar enganando o povo cubano, ao afirmar em seus discursos que em um prazo de 8 a 10 meses seria possível organizar o sistema político de Cuba e que seu primeiro intento seria o de reconstruir a nação. No entanto a cada dia ficava mais clara a mentira de Castro, uma vez que, após ocupar a chefia do estado, jamais convocou eleições ou se quer organizou partidos políticos.

Até o surgimento de Castro, Cuba não tinha pena-de-morte. Após sua “vitoriosa” campanha iniciada na Sierra Maestra, a pena capital não apenas foi adotada, como em mais de quarenta anos de ditadura castrista, foram executados mais de 17.000 dissidentes, ou seja, uma média de 425 fuzilamentos por ano, praticamente um por dia. No entanto, talvez por ser uma potência esportiva, Fidel bateu um recorde na noite de 30 de Agosto de 1962, quando ordenou o fuzilamento, de uma só vez, de 497 opositores. Um outro recorde do governo de Castro é o desaparecimento oficial de mais de 10.000 dissidentes. Nesse quesito, Cuba é superada apenas pela URSS que implantou até mesmo o processo de escravidão, como forma de incrementar a sua economia. Os dados estão disponíveis em Gulag: Forced Labor Camps Online Exhibition.

A sereia do Caribe já está a quase plenos pulmões.

Para buscar um melhor aclaramento da realidade vivida na ilha-prisão, justo que se faça comparações. Afinal algo somente pode ser tido como bom ou ruim se tiver um objeto diverso para comparar. Assim, fazendo um paralelo entre o “governo” de Fidel Castro e de dois outros ditadores cubanos, tem-se interessantes respostas. Inicialmente temos o General Gerardo Machado Morales, que comandou a ilhota com mão-de-ferro de 1929 a 1933. Em sua passagem pelo comando do Estado cubano foram 5.000 os presos por conspiração política. Durante a ditadura de Fulgencio Batista (derrubado por Castro), de 1952 a 1958, o total de presos político foi de 500, aproximadamente. Em outro recorde, a ditadura Castro, em mais de 40 anos, já prendeu mais de 1 milhão de opositores, obrigando, como conseqüência, o surgimento de mais penitenciárias e campos de concentração. Para que fosse possível chegar a esse expressivo número, naturalmente que o judiciário precisaria estar a serviço do governo. Desse modo, após a Revolução Castrista foram implantados os tribunais populares que não são formados por advogados nem especialistas em lei, mas por membros do partido comunista cubano. Nestes “tribunais”, os acusados devem promover suas próprias defesas.

De acordo com o Ginsburg´s Atlas of World Economy, publicado em 1954, Cuba gozava do melhor estado de vida da América Latina e, entre as 122 nações reconhecidas naquela época, ocupava a posição 22. Com o advento do estado comunista de Fidel, Cuba se transformou e, se transformou para pior. A miséria campeia de norte a sul a ilha caribenha, na qual a luta do povo é para conseguir míseros dólares, a fim de comprar, no mercado negro, é claro, produtos para sua sobrevivência, tais como comida e roupa.

Na esfera política ressalta o fato de que Castro jamais promoveu eleições democráticas, declarando continuamente que não permitirá oposição. Neste sentido, em 10 de Outubro de 1997, Fidel impôs uma nova lei, de caráter constitucional, proibindo a formação de partidos políticos, mantendo, naturalmente, apenas o partido comunista cubano. Este ato deu um caráter legal ao seu partido. É a sereia do Caribe cantando como nunca.

E quando o canto trata dos trabalhadores e seus salários? Como os trabalhadores não têm direito a greve, a fazer reivindicações, a solicitar qualquer forma de benefício, os valores pagos pelo estado cubano pouco divergem dos mesmos valores de 1959, ou seja, a miséria campeia em Cuba. Porém, como Fidel é ditador, mas não é burro, quando assumiu o poder tratou de fazer forçada economia de dólares entre a população e, com a ajuda da URSS, conseguiu gerar forte receita governamental, o que, de certa forma explica, por exemplo, o serviço médico gratuito ao povo.

Com relação a liberdade religiosa não há o que comentar, pois não há liberdade religiosa. Formalmente os cubanos podem celebrar o culto católico, mas sempre com a supervisão de membros do partido comunista. Neste ponto, o papel do Papa João Paulo II foi fundamental. A atuação do Sumo Sacerdote possibilitou uma diminuição da intervenção do estado nas questões da igreja. Ainda nessa linha, uma das conseqüências da religiosidade do povo cubano sempre foi seu apreço pela família. Assim, até a chegada do comunismo, havia, entre os cubanos, uma forte preocupação com a família e o casamento, sendo este o momento maior na vida dos jovens daquele país. Estes tinha a preocupação de, antes do casório, organizar a futura casa com, pelo menos, a compra dos móveis necessários para começar a vida conjugal. Porém, com o desembarque da trupe de Castro, Che e cia, foi seguido a risca um dos “mandamentos” do Decálogo de Lênin, de 1913. O “mandamento” primeiro dizia literalmente: “Corrompa a juventude e dê-lhe liberdade sexual”. Os efeitos foram devastadores. Como qualquer jovem de qualquer parte do mundo, o cubano também se sentiu instado a quebrar clássicas regras de família, desagregando-a e transformando a suposta liberdade juvenil em libertinagem. Uma das conseqüências nefastas foi a de que entre 1968 e 1992 foram realizados mais de 2 milhões e 900 mil abortos, ou seja, mais de 2 mil e 500 abortos por semana.

A sereia do Caribe canta, canta, canta e engana.

Seria perfeitamente possível continuar a elencar as “maravilhas” do comunismo. Assumo o compromisso com meu estimado leitor de, nas próximas semanas, escrever uma espécie de continuação desse drama melancólico e moribundo.

A título de encerramento, vale lembra que apenas Cuba, Vietnam e Coréia do Norte continuam sob os dogmas comunistas. Dogmas que mataram mais de 60 milhões de seres humanos nos países que tiveram a, infelicidade de conhecer as entranhas dessa podridão chamada comunismo. Como advertiu o filósofo Olavo de Carvalho, “comunismo não é uma doutrina, mas uma doença da alma”. Assim é que a sereia do Caribe continua fagueira e fogosa em sua cantoria. E é triste, lamentável, assistir brasileiros, em sua maioria jovens, assim como Butes na épica jornada dos Argonautas, serem enganados pela suave voz daquela famigerada sereia.

Não quero e nem tenho o direito de me comparar a Ulisses, mas procuro manter um comportamento semelhante ao daquele mito grego. Fechar olhos e ouvidos as canções da sereia do Caribe ou, de suas crias, que andam em nossa pátria há alguns anos, inclusive ocupando posições de destaque dentro do atual governo brasileiro.

Reitero o compromisso de escrever, em breve, um pouco mais sobre a sereia do Caribe. Até lá espero que surja um novo Ulisses ou Orfeu para feri-la de morte.

Última modificação em Sexta, 24 Abril 2015 13:37
Alexandre Seixas

O Prof. Alexandre M. Seixas é formado em Direito pela PUC de Campinas, tendo realizado o curso de Aperfeiçoamento em Ciências Sociais, e Mestrado em Ciência Política na Unicamp. Realizou ainda os cursos de inglês, na Surrey Heath Adult Education Center, em Camberley, Inglaterra. É professor universitário com vinculação em Teoria Geral do Estado e Ciência Política.

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