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03 Jul 2004

A Política Como Farsa

Escrito por 

Nesse palco do absurdo que é o mundo a maior parte dos comportamentos não passam de encenações. Afinal, o que vale são as aparências e não as essências, o modo como se fala e não o que se fala, a simulação do que se sente e não o que se sente.

Nesse palco do absurdo que é o mundo a maior parte dos comportamentos não passam de encenações. Afinal, o que vale são as aparências e não as essências, o modo como se fala e não o que se fala, a simulação do que se sente e não o que se sente. Vale parecer religioso, patriota, bom pai de família, culto, sábio, vitorioso, ético. O que importa é ter e não ser. E nas contínuas tragédias e comédias da vida vence o melhor ator, sendo que nada garante mais sucesso do que ser politicamente correto, bajulador, sorridente, pois essas são as “qualidades” capazes de granjear aplausos, conquistar mentes, aquecer corações.

Existem pensadores que idealizam o ser humano como inerentemente bom. Outros propõem visões do homem que por serem realistas muitas vezes chocam. É o caso de Thomas Hobbes, o grande filósofo político inglês. Segundo ele, “para todo homem, outro homem é um concorrente, como ele ávido de poder sob todas as suas formas”. “Concorrência, desconfiança recíproca, avidez de gloria ou de fama, têm por resultado a guerra perpétua de ‘cada um contra cada um’, de todos contra todos. Guerra, isto é, não só ‘o fato atual de bater-se, mas a vontade averiguada de bater-se, enquanto existe tal vontade, há guerra e não paz, e o homem é um lobo para o homem: homo homini lupus.
Com base nessa visão do “estado de natureza”, onde a vida é solitária, grosseira, animalizada é breve, Hobbes justifica a criação do Estado, o poder comum de onde emanam as leis e cujo principal dever é dar segurança aos cidadãos. Entra-se, assim, na esfera política por excelência.

Mas não é possível falar em política sem mencionar Nicolau Maquiavel. Na sua obra-prima, “O Príncipe”, ele expôs as entranhas do poder e desnudou comportamentos políticos onde não podem deixar de existir as encenações que vão do burlesco às monumentais farsas. Dirá o criador da Ciência Política: “Não é necessário que um príncipe tenha todas as qualidades, mas é muito necessário que as aparente todas”. “Assim é bom ser misericordioso, leal, humanitário, sincero e religioso – como é bom parecê-lo”. Maquiavel se baseia no fato de que as pessoas vêem nossa aparência, “mas poucos sentem o que realmente somos”, e “sendo os homens tão pouco argutos, e se inclinando de tal modo às necessidades imediatas, quem quiser enganá-los encontrará sempre quem se deixe enganar”.

As visões realistas de Maquiavel e Hobbes os tornam sempre contemporâneos, pois se os sistemas políticos mudam, a essência humana ligada ao poder é sempre a mesma.  Suas análises são perfeitas para se entender a “arte de governar” posta em prática no Brasil atual, na medida em que a propaganda enganosa e intensiva faz a farsa política em que vivemos parecer a mais pura realidade para um número ainda considerável de pessoas. Exemplos relativos à política como farsa ou simulação também não faltam em todo o mundo, sendo o de Saddam Hussein, que reapareceu em 1 de julho diante das câmaras para ouvir as acusações da corte criada no Iraque para julgá-lo, uma ilustração perfeita de como enganar através das aparências e da encenação.

O ditador iraquiano chamado de carniceiro de Bagdá, afirmou de forma arrogante referindo-se ao seu julgamento: “isso tudo é um teatro”. Em seguida, capitalizou o sentimento nacionalista associado ao antiamericanismo, e referiu-se ao presidente Bush como criminoso. Possivelmente deve ter comovido tanto iraquianos quanto gente do mundo inteiro, inclusive brasileiros. Afinal, poucos sabem que o “coitadinho” do ex-ditador é acusado entre outros crimes contra a humanidade, dos seguintes: extermínio de dezenas de milhares de pessoas no Curdistão iraquiano durante uma campanha militar em 1988; uso de armas químicas em um ataque contra a cidade curda de Halabja (1988); morte de 5.000 membros do clã Barzani (curdo) (1963); invasão do Kuait (1990), crimes relacionados à guerra contra o Irã (1980-1988); crimes relacionados à repressão violenta do levante xiita no sul do país aos a Guerra do Golfo (1991).

Junto com o déspota serão julgados onze de seus mais graduados assessores, entre eles, Ali Hasan al-Majid, conhecido como Ali Químico por seu papel em ataques contra os curdos com armas químicas, e Taha Yassin Ramadan, acusado de tortura e morte de milhares de iraquianos. Mas ao que tudo indica, o monstruoso Saddam Hussein ainda faz sucesso, afinal, os homens são tão pouco argutos que é fácil enganá-los.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:22
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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