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03 Jul 2004

Duas Gestações

Escrito por 

A inevitável conclusão é que o PT em nada difere dos demais partidos políticos. A aura de partido magnânimo encontra-se atolado em um lamaçal sem precedentes.

Todo ser humano nasce de uma mulher, ainda que por inseminação artificial. O que importa é que um ser humano sempre é gerado em um ventre feminino. Se bem que, com o avanço da medicina é possível que em breve algum ser humano seja gerado via e-mail.

Enfim, o fato é que precisamos de nove meses para nascer. Sei que, por razões médicas, alguns seres humanos precisam nascer antes, mas essa é a exceção a regra, infelizmente. Aprioristicamente, toda gestação demanda nove meses. Ao término da qual o mundo ganha um novo ser humano que, por certo, irá trazer alegrias a uma família.

No entanto haveria a possibilidade de uma gestação durar mais de nove meses? Por certo que na medicina a resposta é não, mas na política a resposta é sim ou talvez. Em 1o. de Julho de 2004, a administração Luis Inácio completou duas gestações, quero dizer, 18 meses. E a pergunta que fica é: onde está o “produto” da dupla gestação? Vejamos o que o governo Luis Inácio produziu após duas gestações.

1. Dois milhões e 700 mil brasileiros estão  desempregados nas seis  maiores capitais do país, segundo o IBGE. O desemprego  atinge 20,6%  da força de trabalho - um recorde histórico.
2. Renda dos 10% mais pobres cai seis pontos  percentuais enquanto a renda dos 10% mais ricos aumenta 2,9%.
3. Governo compra avião de luxo para uso exclusivo do  Presidente da  República ao custo de R$ 176 milhões dos cofres públicos.  O dinheiro daria para construir 8.800 casas populares.
4. Brasil contabiliza maior aperto fiscal já registrado na história. O superávit no 1o trimestre deste ano fica em 20,5 bilhões ou 5,41% do  PIB. Enquanto isso, adota-se a política do descaso com  os  investimentos. Apenas 1,17% dos recursos previstos em infraestrutura foram gastos no 1o trimestre. Não há obras de saneamento. As estradas  federais agonizam.
5. No começo, foi o aumento da Cide, o imposto da gasolina. Depois, os tributos das empresas prestadoras de serviços. Em seguida, o  governo  impediu a correção da tabela do imposto de renda da pessoa física; aumentou a Cofins.
6. Em vez de mudar  política econômica, como prometeu, o governo do PT  aprofunda submissão ao FMI.  Só no primeiro ano de mandato, são pagos  R$ 145 bilhões em juros da dívida  externa, gerando superávit superior ao que era previsto no acordo com o  Fundo.
7. Governo  mergulha país em profunda crise moral ao tentar abafar a  CPI  do "Caso  Waldomiro" com o objetivo de empurrar o escândalo para debaixo do  tapete.
8. Programa Fome Zero  torna-se o maior fracasso do governo. Petistas  não conseguem sequer repassar  aos mais pobres os R$ 2 milhões doados ao programa por pessoas  físicas.
9. Governo petista pressiona  jornalistas para divulgar notícias que  lhe são favoráveis, mas, ao mesmo  tempo, usa dinheiro do cidadão para  fazer publicidades enganosas de suas  ações.

Eis a criação petista após duas gestações. Não seria o caso de “aborto”? E ainda existem dois pontos a destacar.

O primeiro ponto é que 18o. mês de governo Luiz Inácio coincidiu com a comemoração dos 10 anos do Plano Real que, entre mortos e feridos, conseguiu, efetivamente, reduzir a doença inflacionária do país.

O segundo ponto que merece destaque é o fim da dicotomia petista “Esperança x Medo”, ou melhor dizendo, da ilusão versus a realidade. E os números, que jamais mentiram, confirmam o fim do mencionado romance. O governo Luis Inácio está desmoronando, segundo recentes pesquisas de opinião pública.

A administração “neoliberal” do PT (quem diria) está produzindo um índice de popularidade inimaginável para alguém que sempre “arrotou” ser filho da pobreza. Afinal, os problemas do governo FHC continuam os mesmos, e, apesar de um cenário externo favorável, há uma clara falta de demanda interna, conseqüência do crescimento nos índices de desemprego. Em 2003, ainda existia a retórica da herança maldita, mas e agora?

O fato é que o PT sempre foi um “excepcional” partido político no nível parlamentar, ou seja, sem compromissos ou responsabilidade, apenas criticando e se opondo de forma sectária. A partir do momento em que assumiu as responsabilidades governamentais de um Estado complexo como o Brasil, simplesmente jogou no lixo quase trinta anos de discurso oposicionista. E o pior, se utilizando dos mesmos artifícios que sempre condenou.

A inevitável conclusão é que o PT em nada difere dos demais partidos políticos. A aura de partido magnânimo encontra-se atolado em um lamaçal sem precedentes. Como é possível que, por exemplo, as mesmas pessoas que há pouco tempo, diante das câmeras de televisão, defendiam ardorosamente CPIs, hoje se comportem de maneira diametralmente oposta?

Enfim o Brasil está jogado a própria sorte. E o povo, que poderia fazer a diferença, ainda se encontra anestesiado, amortecido e enganado (sem saber) pelo discurso petista da Terra Prometida. Aliás, Terra Prometida tem suas inicias TP, que bem representam o atual governo do TP, quero dizer, do PT, que acumula 18 meses de “gestação” indigesta.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:22
Alexandre Seixas

O Prof. Alexandre M. Seixas é formado em Direito pela PUC de Campinas, tendo realizado o curso de Aperfeiçoamento em Ciências Sociais, e Mestrado em Ciência Política na Unicamp. Realizou ainda os cursos de inglês, na Surrey Heath Adult Education Center, em Camberley, Inglaterra. É professor universitário com vinculação em Teoria Geral do Estado e Ciência Política.

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