Ter08112020

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

01 Jul 2007

O Intelectual do Século XXI

Escrito por 
O século XXI requer do intelectual uma formação integral, para que não caia nas armadilhas que conduzem à formação de um rebanho acrítico e manipulável.

O século XXI começou com eventos terroristas de grandes proporções, que mudaram por completo a percepção que tínhamos das ameaças à segurança internacional. Após mais de quarenta anos de Guerra Fria, sob o perigo constante da aniquilação nuclear, e após uma década inteira de interlúdio, nos anos 1990, durante os quais o fim da expansão comunista visível iludiu boa parte do mundo livre com a possibilidade da concretização da paz e da harmonia entre as nações, a História que muitos pensaram ter chegado ao fim na verdade estava mais viva do que nunca, criando novos desafios para o pensamento.

Nem tanto ao hegelianismo sutil de Francis Fukuyama, nem tanto à visão realista de Samuel Huntington. O choque entre civilizações está presente nas dinâmicas do mundo contemporâneo, porém mais do que nunca o verdadeiro perigo reside nas ideologias. Se durante a Guerra Fria as ideologias eram explícitas, na atualidade elas se tornaram difusas e dissimuladas. O islamismo militante que perpetrou os atentados de 11 de setembro de 2001 e que atualmente mantém o mundo livre sob constante tensão é resultado, em grande parte, da intensa percolação ideológica que os soviéticos realizaram, de forma sistemática e paciente, como um de seus instrumentos de política externa.

A prática da desinformação e da manipulação política faziam parte das “medidas ativas”, dentro da ampla concepção de poder dos soviéticos que, ao contrário da concepção ocidental, envolvia forças de natureza não-militar. O principal objetivo das “medidas ativas” diretas e dissimuladas, realizadas a partir de uma complexa estrutura organizacional, era influenciar as diretrizes políticas nos países ocidentais, principalmente através da propaganda dissimulada, das operações com agentes de influência, da falsificação e da desinformação (oral e escrita).

Mesmo após a dissolução da União Soviética, em 1991, ainda sofremos com os efeitos de décadas de influência soviética nos meios informativos, culturais e acadêmicos. Com a intensificação do processo de globalização, principalmente a partir do início dos anos 1990, o substancial incremento no volume e na velocidade de transmissão das informações contribuiu para difundir os resultados das “medidas ativas” em escala planetária. O problema é que, além das reminiscências do período da Guerra Fria, ideólogos militantes continuam praticando ativamente a desinformação. A realidade do século XXI exige, portanto, intelectuais que saibam lidar de maneira rápida e eficiente com o bombardeio dos dados que recebem sem parar, sabendo qualificar de forma precisa as informações que vêm de todas as direções.

À primeira vista, o intenso fluxo informacional deveria dificultar a desinformação, pois como há mais facilidade no acesso aos dados, também seria aparentemente mais fácil identificar as distorções (ou mais difícil ocultá-las). Acontece que o questionamento das informações exige critérios, parâmetros muito sólidos como referenciais e a capacidade de analisar criticamente o que se recebe. É exatamente por isso que a promoção de uma educação de má qualidade contribui para a desinformação. Não é só a doutrinação ideológica que começa cedo, ainda nos primeiros anos escolares, e continua ao longo de praticamente toda a permanência dos indivíduos nas salas de aula; a destruição da capacidade crítica também faz parte da “educação politizada”.

Quando alguém vem com o conto de que a educação é um ato político, podemos muito bem perguntar: “De qual visão política, cara-pálida?” O sócio-interacionismo de Lev Vygotsky nada mais é do que uma pedagogia cuidadosamente formulada para doutrinação marxista nos bancos das escolas. O mesmo vale para a pedagogia militante de Paulo Freire, para quem a “revolução cultural” deve ter por objetivo o desenvolvimento do poder revolucionário (cf. Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”). A aplicação dos preceitos de Freire, Vygotsky e de tantos outros é a perpetuação, em pleno século XXI, do que os soviéticos iniciaram com seu programa de “medidas ativas”. Corresponde ao intelectual do século XXI, portanto, a correta identificação e denúncia dos elementos doutrinários que estão presentes nas escolas, nas universidades, na mídia e nas produções culturais.

Para realizar essa tarefa, o intelectual do século XXI deve, antes de mais nada, ter os pés no chão. A sua formação deve ser ampla e diversificada, envolvendo tanto uma sólida e incessável formação humanística, quanto o desenvolvimento constante da capacidade de raciocínio abstrato e analítico. Contudo, o intelectual do século XXI não pode se dar ao luxo de não ter contato com o mundo como ele é, na realidade dura e cruel da competição pela sobrevivência no cotidiano. A sua formação, portanto, deve ser teórica e prática ao mesmo tempo: além da proficiência na tradição do pensamento ocidental, dos gregos aos nossos dias, ele deve também conhecer minuciosamente os detalhes do funcionamento de uma empresa ou de uma fábrica. Em outras palavras, ele deve dominar a capacidade de teorização e de generalização, mas sem se afastar dos processos singulares. No ponto de contaminação ideológica em que nos encontramos, somente o contato direto com a realidade é capaz de fornecer os parâmetros corretos para a identificação das falsificações e dos mecanismos de doutrinação que estão em toda parte.

O século XXI requer do intelectual uma formação integral, para que não caia nas armadilhas que conduzem à formação de um rebanho acrítico e manipulável. O intelectual deve ser um consagrado, como dizia Sertillanges, mas ao mesmo tempo deve ter consciência de que a realidade contemporânea impõe novos desafios que só podem ser corretamente compreendidos e abordados mediante o contato direto com os problemas do mundo real.

O século XXI começou com eventos terroristas de grandes proporções, que mudaram por completo a percepção que tínhamos das ameaças à segurança internacional. Após mais de quarenta anos de Guerra Fria, sob o perigo constante da aniquilação nuclear, e após uma década inteira de interlúdio, nos anos 1990, durante os quais o fim da expansão comunista visível iludiu boa parte do mundo livre com a possibilidade da concretização da paz e da harmonia entre as nações, a História que muitos pensaram ter chegado ao fim na verdade estava mais viva do que nunca, criando novos desafios para o pensamento.

Nem tanto ao hegelianismo sutil de Francis Fukuyama, nem tanto à visão realista de Samuel Huntington. O choque entre civilizações está presente nas dinâmicas do mundo contemporâneo, porém mais do que nunca o verdadeiro perigo reside nas ideologias. Se durante a Guerra Fria as ideologias eram explícitas, na atualidade elas se tornaram difusas e dissimuladas. O islamismo militante que perpetrou os atentados de 11 de setembro de 2001 e que atualmente mantém o mundo livre sob constante tensão é resultado, em grande parte, da intensa percolação ideológica que os soviéticos realizaram, de forma sistemática e paciente, como um de seus instrumentos de política externa.

A prática da desinformação e da manipulação política faziam parte das “medidas ativas”, dentro da ampla concepção de poder dos soviéticos que, ao contrário da concepção ocidental, envolvia forças de natureza não-militar. O principal objetivo das “medidas ativas” diretas e dissimuladas, realizadas a partir de uma complexa estrutura organizacional, era influenciar as diretrizes políticas nos países ocidentais, principalmente através da propaganda dissimulada, das operações com agentes de influência, da falsificação e da desinformação (oral e escrita).

Mesmo após a dissolução da União Soviética, em 1991, ainda sofremos com os efeitos de décadas de influência soviética nos meios informativos, culturais e acadêmicos. Com a intensificação do processo de globalização, principalmente a partir do início dos anos 1990, o substancial incremento no volume e na velocidade de transmissão das informações contribuiu para difundir os resultados das “medidas ativas” em escala planetária. O problema é que, além das reminiscências do período da Guerra Fria, ideólogos militantes continuam praticando ativamente a desinformação. A realidade do século XXI exige, portanto, intelectuais que saibam lidar de maneira rápida e eficiente com o bombardeio dos dados que recebem sem parar, sabendo qualificar de forma precisa as informações que vêm de todas as direções.

À primeira vista, o intenso fluxo informacional deveria dificultar a desinformação, pois como há mais facilidade no acesso aos dados, também seria aparentemente mais fácil identificar as distorções (ou mais difícil ocultá-las). Acontece que o questionamento das informações exige critérios, parâmetros muito sólidos como referenciais e a capacidade de analisar criticamente o que se recebe. É exatamente por isso que a promoção de uma educação de má qualidade contribui para a desinformação. Não é só a doutrinação ideológica que começa cedo, ainda nos primeiros anos escolares, e continua ao longo de praticamente toda a permanência dos indivíduos nas salas de aula; a destruição da capacidade crítica também faz parte da “educação politizada”.

Quando alguém vem com o conto de que a educação é um ato político, podemos muito bem perguntar: “De qual visão política, cara-pálida?” O sócio-interacionismo de Lev Vygotsky nada mais é do que uma pedagogia cuidadosamente formulada para doutrinação marxista nos bancos das escolas. O mesmo vale para a pedagogia militante de Paulo Freire, para quem a “revolução cultural” deve ter por objetivo o desenvolvimento do poder revolucionário (cf. Paulo Freire, “Pedagogia do Oprimido”). A aplicação dos preceitos de Freire, Vygotsky e de tantos outros é a perpetuação, em pleno século XXI, do que os soviéticos iniciaram com seu programa de “medidas ativas”. Corresponde ao intelectual do século XXI, portanto, a correta identificação e denúncia dos elementos doutrinários que estão presentes nas escolas, nas universidades, na mídia e nas produções culturais.

Para realizar essa tarefa, o intelectual do século XXI deve, antes de mais nada, ter os pés no chão. A sua formação deve ser ampla e diversificada, envolvendo tanto uma sólida e incessável formação humanística, quanto o desenvolvimento constante da capacidade de raciocínio abstrato e analítico. Contudo, o intelectual do século XXI não pode se dar ao luxo de não ter contato com o mundo como ele é, na realidade dura e cruel da competição pela sobrevivência no cotidiano. A sua formação, portanto, deve ser teórica e prática ao mesmo tempo: além da proficiência na tradição do pensamento ocidental, dos gregos aos nossos dias, ele deve também conhecer minuciosamente os detalhes do funcionamento de uma empresa ou de uma fábrica. Em outras palavras, ele deve dominar a capacidade de teorização e de generalização, mas sem se afastar dos processos singulares. No ponto de contaminação ideológica em que nos encontramos, somente o contato direto com a realidade é capaz de fornecer os parâmetros corretos para a identificação das falsificações e dos mecanismos de doutrinação que estão em toda parte.

O século XXI requer do intelectual uma formação integral, para que não caia nas armadilhas que conduzem à formação de um rebanho acrítico e manipulável. O intelectual deve ser um consagrado, como dizia Sertillanges, mas ao mesmo tempo deve ter consciência de que a realidade contemporânea impõe novos desafios que só podem ser corretamente compreendidos e abordados mediante o contato direto com os problemas do mundo real.

Claudio A. Téllez

Claudio Andrés Téllez é cidadão chileno, mas mora no Brasil desde 1979. Cursou o Bacharelado em Matemática Aplicada na PUC-Rio e atualmente está cursando Relações Internacionais no Centro Universitário da Cidade (Rio de Janeiro). Escreve no Mídia Sem Máscara desde setembro de 2003.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.