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15 Jun 2007

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O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

Todavia, não faço uso destas linhas para ficar a tecer queixumes. Pelo contrário, venho aqui através destas (até parece ofício) para partilhar de duas experiências pedagógicas singulares que, realmente, me impressionaram muito.

Faço isso não no intuito de bajular fulano ou para vangloriar-me. Faço isso no afã de apresentar dois casos que julgo serem exemplares, de modelos de conduta a serem analisados e refletidos enquanto formas possíveis de atitudes de uma vida sabiamente vivida.

Dois alunos de turmas diferentes e que, em situações e em momentos diferentes, demonstraram a mesma grandeza de espírito que muitas das vezes carecemos.

O primeiro caso foi de um aluno que havia se equivocado em uma de suas resposta em uma de minhas avaliações e, por essa razão, veio até mim para apresentar os seus argumentos de maneira clara e educada. Um verdadeiro lord. Porém, para a infelicidade dele, a sua resposta estava equivocada e não minha correção.

Até aí, tudo bem. Mais uma cena qualquer em uma instituição de ensino. Todavia, o que recebo de suas mãos na segunda-feira? Um trabalho sobre o assunto que a questão abordava como se este fosse uma espécie de retratação frente a seu erro. Alias, este me entregou o trabalho com a simples e bem humorada justificativa: “professor, da mesma forma que fui homem para reclamar, sou homem para reconhecer o meu erro”. Já pensou se todos nós fizéssemos isso quando nos sentíssemos injustiçados?

Mas o causo não para por aqui. Vejamos um outro caso que, também, tocou meu coração. Estavam os alunos a apresentar os seus trabalhos de término de uma de minhas disciplinas. Cada grupo tinha um limite de tempo para realizar a sua apresentação e eis que chega a vez do referido grupo que, por sua deixa, extrapolou o seu tempo tendo que encerrar sua preleção de modo abrupto.

Porém, antes que os membros da equipe se deslocassem para os seus lugares, um deles, bruscamente, interpelou-me dizendo: “espere aí professor! O senhor me desculpe, mas nós vamos terminar a apresentação do trabalho. O senhor pode até descontar nota, porque pelo menos eu não fiz este trabalho pela nota, mas sim pela experiência de vida que eu adquiri”.

Olhem só, que coisa! Quantas vezes em nossas vidas nós fizemos algo sem pedir um outro algo em troca? Quantas? Quantas vezes nós estudamos algo sem uma outra recompensa senão o saber aprendido? No fundo, na maioria das vezes agimos apenas como cães adestrados que fazem truques idiotas para poder receber um pequeno biscoito. Somos, no fundo, seres esvaziados de sentimentos de grandeza, nos recusamos a ser prestativos e fingimos ser bom.

Para infelicidade geral da nação, as cenas vividas descritas acima, são exceções. Raras vezes nestes nove anos de magistério tive a grata felicidade de ver grandes atitudes como estas e, por essa razão, trago aqui esses grandes exemplos na esperança de que outras pessoas, sejam elas alunos, pais, professores, cidadãos preocupados com a educação, vejam com clareza o que é realmente ser uma pessoa com uma postura crítica.
Confesso que os dois casos me emocionaram. Não por eles em si, mas pela imensa quantidade de posturas antípodas a estas existente em nosso país.

Na verdade, temos muito mais pessoas cricas e cretinas do que críticas. Temos muito mais pessoas insatisfeitas que não compreendem a si mesmas e muito menos a sua circunstância existencial do que indivíduos cientes de suas potencialidades e da necessidade fundamental de reconhecer suas falhas, corrigi-las e, acima de tudo, serem capazes de aprender com elas para se tornarem indivíduos melhores. Tão só esta atitude, pequena e simples, seria a maturidade, como a milênios nos ensina o Estagirita e tão só isso, demonstra o quão imatura é nossa sociedade.

O exercício do magistério é, em muitas ocasiões, algo ingrato. Não por vileza dos alunos, não mesmo. Mas sim, tão simplesmente por eles não nos surpreenderem da mesma forma que nós, professores, raramente os surpreendemos com uma bela aula.

Todavia, não faço uso destas linhas para ficar a tecer queixumes. Pelo contrário, venho aqui através destas (até parece ofício) para partilhar de duas experiências pedagógicas singulares que, realmente, me impressionaram muito.

Faço isso não no intuito de bajular fulano ou para vangloriar-me. Faço isso no afã de apresentar dois casos que julgo serem exemplares, de modelos de conduta a serem analisados e refletidos enquanto formas possíveis de atitudes de uma vida sabiamente vivida.

Dois alunos de turmas diferentes e que, em situações e em momentos diferentes, demonstraram a mesma grandeza de espírito que muitas das vezes carecemos.

O primeiro caso foi de um aluno que havia se equivocado em uma de suas resposta em uma de minhas avaliações e, por essa razão, veio até mim para apresentar os seus argumentos de maneira clara e educada. Um verdadeiro lord. Porém, para a infelicidade dele, a sua resposta estava equivocada e não minha correção.

Até aí, tudo bem. Mais uma cena qualquer em uma instituição de ensino. Todavia, o que recebo de suas mãos na segunda-feira? Um trabalho sobre o assunto que a questão abordava como se este fosse uma espécie de retratação frente a seu erro. Alias, este me entregou o trabalho com a simples e bem humorada justificativa: “professor, da mesma forma que fui homem para reclamar, sou homem para reconhecer o meu erro”. Já pensou se todos nós fizéssemos isso quando nos sentíssemos injustiçados?

Mas o causo não para por aqui. Vejamos um outro caso que, também, tocou meu coração. Estavam os alunos a apresentar os seus trabalhos de término de uma de minhas disciplinas. Cada grupo tinha um limite de tempo para realizar a sua apresentação e eis que chega a vez do referido grupo que, por sua deixa, extrapolou o seu tempo tendo que encerrar sua preleção de modo abrupto.

Porém, antes que os membros da equipe se deslocassem para os seus lugares, um deles, bruscamente, interpelou-me dizendo: “espere aí professor! O senhor me desculpe, mas nós vamos terminar a apresentação do trabalho. O senhor pode até descontar nota, porque pelo menos eu não fiz este trabalho pela nota, mas sim pela experiência de vida que eu adquiri”.

Olhem só, que coisa! Quantas vezes em nossas vidas nós fizemos algo sem pedir um outro algo em troca? Quantas? Quantas vezes nós estudamos algo sem uma outra recompensa senão o saber aprendido? No fundo, na maioria das vezes agimos apenas como cães adestrados que fazem truques idiotas para poder receber um pequeno biscoito. Somos, no fundo, seres esvaziados de sentimentos de grandeza, nos recusamos a ser prestativos e fingimos ser bom.

Para infelicidade geral da nação, as cenas vividas descritas acima, são exceções. Raras vezes nestes nove anos de magistério tive a grata felicidade de ver grandes atitudes como estas e, por essa razão, trago aqui esses grandes exemplos na esperança de que outras pessoas, sejam elas alunos, pais, professores, cidadãos preocupados com a educação, vejam com clareza o que é realmente ser uma pessoa com uma postura crítica.
Confesso que os dois casos me emocionaram. Não por eles em si, mas pela imensa quantidade de posturas antípodas a estas existente em nosso país.

Na verdade, temos muito mais pessoas cricas e cretinas do que críticas. Temos muito mais pessoas insatisfeitas que não compreendem a si mesmas e muito menos a sua circunstância existencial do que indivíduos cientes de suas potencialidades e da necessidade fundamental de reconhecer suas falhas, corrigi-las e, acima de tudo, serem capazes de aprender com elas para se tornarem indivíduos melhores. Tão só esta atitude, pequena e simples, seria a maturidade, como a milênios nos ensina o Estagirita e tão só isso, demonstra o quão imatura é nossa sociedade.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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