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30 Jun 2004

O Centauro

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Eis o navio petista! Pragmatismo econômico de um lado, obtusidade política-ideológica de outro; Banco Central responsável a bombordo, irresponsabilidade nos gastos públicos a estibordo; Palocci na proa, Dirceu na popa; Meirelles no convés, Rebelo nos porões. A que destino levará?

“A horse! A Horse! My kingdom for a horse!”
(Shakespeare)

Decorridos dezoito meses de exercício do poder executivo, o governo do PT ainda não mostrou a que veio, limitando-se, exatamente como os tucanos fizeram entre 1995 e 2001, ao uso de uma política monetária voltada para impedir a recidiva da inflação, mas sem qualquer respaldo sólido, no que diz respeito a ações claras, corajosas e voluntariosas  para promover a inadiável reengenharia do Estado, sem a qual a sobrecarga de  mais desemprego tende a ser cada vez maior e a perpetuar-se. Se o tucanato foi mais coerente em termos de responsabilidade fiscal – embora muito mais nas areias movediças dos discursos do que nas estradas pavimentadas das realizações práticas -, o petelhato tem sido mais zeloso no que diz respeito à austeridade monetária necessária, até mesmo pela necessidade de desfazer as fortes desconfianças existentes em todos os mercados, internos e externos, que o partido criou, cultivou e ampliou enquanto não logrou atingir o poder.

Tal postura dúbia faz com que o governo petista assemelhe-se a um ceutauro, o mitológico ser com pernas e tronco de cavalo e cabeça humana. Enquanto o cérebro, representado pelo reconhecimento, por parte da Fazenda e do Banco Central, envia sinais bastante claros de que nenhum governo decente pode ceder à tentação de inflacionar, o corpo, formado pela base política, despeja incessantemente por onde passa dejetos eqüinos, sob a forma de trapalhadas, envolvimento em prováveis casos de corrupção, falta de coerência, incapacidade de tomar decisões, clientelismo, estatismo e diversas outras formas de evacuação, emanadas de seus grossos intestinos. O Presidente, montado no centauro, tal como naquelas vaquejadas típicas de seu Nordeste natal, tudo faz para equilibrar-se, dando evidentes sinais de que não sabe se deve guiar-se pelos comandos emitidos pelo cérebro ou pelos movimentos – em sentido oposto – executados pelo corpo. Uma cavalgada que seria apenas cômica, não fosse o fato de estar afetando negativamente a vida dos muitos milhões de brasileiros, tanto os que confiaram nas vãs promessas de campanha, quanto os que já conseguiam prever os efeitos trágicos resultantes da delegação do poder a um indivíduo – e a um partido! - simplório, sem o menor preparo administrativo e intelectual. O Brasil, definitivamente, é maior do que um sindicato... ou do que o auditório de uma universidade “pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada”...

O desagrado com relação ao governo de Lula é geral: gregos e troianos, tricolores e rubro-negros, “conservadores” e (pretensos) “progressistas”, professores e alunos, chefes e subordinados, motoristas e  passageiros, pobres e remediados, todos estão descontentes, insatisfação que tem se refletido nas quedas contínuas dos índices de popularidade dos atuais inquilinos do Planalto,  divulgadas nos últimos meses.

Os liberais atacam o governo por um lado, os radicais de esquerda arremetem contra ele do outro. Entre as inumeráveis queixas dos verdadeiros liberais – infelizmente, um grupo que, a exemplo da torcida do América, cabe em duas ou três kombis – podemos destacar: a absoluta imobilidade administrativa do governo; a estupidez estarrecedora de nosso sistema tributário; a estultice gritante dos encargos trabalhistas; o número de ministérios, secretarias, forums, comissões e sub-comissões, quase maior do que a torcida do Corinthians; o comportamento escandalosamente confrontador da lei por parte de alguns dos denominados “movimentos sociais”, como o MST; a mania, mais do que obsoleta, manifestada por alguns ministros, de centralizar, estatizar e desconfiar da iniciativa privada; a leniência (para não dizermos estímulo) à violência nas cidades e no campo; as acusações não apuradas de corrupção, envolvendo altas figuras do petelhato; as distribuições de verbas para emendas a parlamentares, visando a fins políticos; a pol[itica externa terceiro-mundista e as volumosas contratações de membros do partido em todos os escalões da administração direta e indireta, em flagrante ação de partidarização do funcionalismo público.

De outro lado, os virulentos ataques dos radicais de esquerda, principalmente dos que, sentindo-se alijados do poder, congregaram todo o seu atraso ideológico no recém-fundado Partido do Socialismo e da Liberdade (como se fosse possível conciliar vício com virtude), bem como das chamadas “esquerdas” menos radicais (um grupo heterogêneo, que congrega organizações não governamentais, garotinhos, menininhas com vestidos de chita cor-de-rosa, viúvas do trabalhismo brizolista, jornalistas, artistas e vigaristas, entre outros integrantes). Reclamam todos, para resumir, que o chamado “núcleo duro” do PT teria renunciado ao seu passado de defensor do socialismo – ou à sua “história”, como gostam de dizer -, que teve que compor, para poder governar, com velhas e matreiras raposas do galinheiro político (o que é verdade), que está favorecendo o “capital financeiro” , que subordina os interesses do país aos bodes expiatórios que habitam o paupérrimo pasto de seu repertório de falsos argumentos, como o FMI, os Estados Unidos, o “grande capital”, a globalização, a Europa, e o “neoliberalismo” do “Consenso de Washington” e, por fim, que nada está sendo feito “contra”  qualquer indivíduo, empresa, instituição, país ou região que tenha cometido o grave pecado de ter obtido sucesso.

Eis o navio petista! Pragmatismo econômico de um lado, obtusidade política-ideológica de outro; Banco Central responsável a bombordo, irresponsabilidade nos gastos públicos a estibordo; Palocci na proa, Dirceu na popa; Meirelles no convés, Rebelo nos porões. A que destino levará? Nem o Comandante sabe, mesmo porque, para fazer girar o timão, precisaria primeiro descer do centauro...

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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