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25 Mai 2007

Não Seria Netuno?

Escrito por 
Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Pois é, algumas vezes eu fui interpelado por crentes no centro de São Paulo. E crentes ali se vestem de acordo, com terno, gravata e portam valises cheias de panfletos coloridos. Alguns ainda em papel couché... Numa destas, pouco antes da (pseudo-)virada do milênio:

-- O mundo vai acabar! Estás ciente disto?! Por isto viemos trazer A Palavra do Senhor.

-- Ora, é mesmo? Por que vai acabar?

-- O homem destrói a si mesmo, peca e difama o nome de Deus.

-- Mas, como pode saber que vai, assim, acabar?

-- Já leu a Bíblia? Temos aqui um folheto explicativo(sic) que mostra que essas coisas que estão acontecendo, terremotos, vulcões são sinais, são sinais da vontade de Deus.

Isso que ainda não tinha ocorrido a tsunami de 2004 no Índico. Se fosse o caso, já estaria atestado o apocalipse. O mundo já deveria ter acabado. Só não sei se Netuno tomaria o lugar de Lúcifer...

Mas, vocês sabem o que é dar quatorze aulas no dia, cujo tema principal foi estrutura geológica e tectônica de placas? Não que eu tenha a profundidade de um geólogo, mas como professor de geografia tenho que tratar o tema para adentrar em relevo, tornando este mais “palatável” para alunos de pré-vestibular. E vos garanto, não é fácil... Daí, ao final de um dia sofrido vindo de Santos para São Paulo, com mochila nas costas por que, por alguma razão estava sem carro, vêm estes dois agourentos me encher a paciência quando o que eu mais queria era um pouco de água encanada na cabeça. Vir me falar de “fim do mundo” foi demais, enquanto eu é que já estava acabado.

-- Olha, eu não estou com tempo agora, mas não é nada disso não. Terremotos ocorrem todos os anos em países como o Japão. A probabilidade de que um seja muito forte ou devastador (por que depende de onde ocorre) é de seis em seis anos...

-- Mas, você não acha que é um sinal?

(Interrompendo) -- Não, não acho, mas me dá um desses papelzinho(sic) que vou ler, prometo.

-- Bem, se o Senhor puder ajudar, nosso trabalho é voluntário, mas aceitamos contribuições de fiéis... de quem possa nos ajudar.

-- O trabalho não é voluntário? Vocês estão cobrando por algo que não concordo.

-- Não se faz nada sem dinheiro nesse mundo.

-- Pois é, eu que o diga... Não, não vou pagar pelo que não concordo. Boa noite.

E fui embora tomar meu banho.

Algo parecido ocorre hoje, só que ao invés de encontrarmos respostas na Bíblia, é Al Gore um de seus sintomas. Autodeclarado “budista”, o político aumenta o séqüito dos que vêem o “grande satã” no capitalismo. Troque o nome de Lúcifer por “aquecimento global” e pouco muda nessa lógica. Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Pois é, algumas vezes eu fui interpelado por crentes no centro de São Paulo. E crentes ali se vestem de acordo, com terno, gravata e portam valises cheias de panfletos coloridos. Alguns ainda em papel couché... Numa destas, pouco antes da (pseudo-)virada do milênio:

-- O mundo vai acabar! Estás ciente disto?! Por isto viemos trazer A Palavra do Senhor.

-- Ora, é mesmo? Por que vai acabar?

-- O homem destrói a si mesmo, peca e difama o nome de Deus.

-- Mas, como pode saber que vai, assim, acabar?

-- Já leu a Bíblia? Temos aqui um folheto explicativo(sic) que mostra que essas coisas que estão acontecendo, terremotos, vulcões são sinais, são sinais da vontade de Deus.

Isso que ainda não tinha ocorrido a tsunami de 2004 no Índico. Se fosse o caso, já estaria atestado o apocalipse. O mundo já deveria ter acabado. Só não sei se Netuno tomaria o lugar de Lúcifer...

Mas, vocês sabem o que é dar quatorze aulas no dia, cujo tema principal foi estrutura geológica e tectônica de placas? Não que eu tenha a profundidade de um geólogo, mas como professor de geografia tenho que tratar o tema para adentrar em relevo, tornando este mais “palatável” para alunos de pré-vestibular. E vos garanto, não é fácil... Daí, ao final de um dia sofrido vindo de Santos para São Paulo, com mochila nas costas por que, por alguma razão estava sem carro, vêm estes dois agourentos me encher a paciência quando o que eu mais queria era um pouco de água encanada na cabeça. Vir me falar de “fim do mundo” foi demais, enquanto eu é que já estava acabado.

-- Olha, eu não estou com tempo agora, mas não é nada disso não. Terremotos ocorrem todos os anos em países como o Japão. A probabilidade de que um seja muito forte ou devastador (por que depende de onde ocorre) é de seis em seis anos...

-- Mas, você não acha que é um sinal?

(Interrompendo) -- Não, não acho, mas me dá um desses papelzinho(sic) que vou ler, prometo.

-- Bem, se o Senhor puder ajudar, nosso trabalho é voluntário, mas aceitamos contribuições de fiéis... de quem possa nos ajudar.

-- O trabalho não é voluntário? Vocês estão cobrando por algo que não concordo.

-- Não se faz nada sem dinheiro nesse mundo.

-- Pois é, eu que o diga... Não, não vou pagar pelo que não concordo. Boa noite.

E fui embora tomar meu banho.

Algo parecido ocorre hoje, só que ao invés de encontrarmos respostas na Bíblia, é Al Gore um de seus sintomas. Autodeclarado “budista”, o político aumenta o séqüito dos que vêem o “grande satã” no capitalismo. Troque o nome de Lúcifer por “aquecimento global” e pouco muda nessa lógica. Como a temperatura dos oceanos é tomada como uma das principais variáveis da teoria aquecimentista, por que não simplificamos utilizando um termo mais adequado, o nome de Netuno?

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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