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28 Jun 2004

A Biotecnologia e os Inimigos da Esperança

Escrito por 

Homens e nações responsabilizam os outros por seus fracassos. É justo começar a responsabilizá-los também por seus sucessos. (Mark Twain)

A história da humanidade não se desenrola como realização de um ideal de justiça. Por várias causas, as relações interpessoais são marcadas por grandes assimetrias. Não há duas pessoas que se amem com a mesma intensidade nem dois homens que tenham o mesmo poder um sobre o outro. O fascínio e o carisma não são forjados. A natureza dota algumas pessoas de qualidades que lhes conferirão ascendência sobre as demais.

A “bagagem genética” de cada pessoa é pura loteria. A não ser que se suponha, à luz da teoria da metempsicose, que o corpo responde pelos males que alguém causou a outrem em vidas passadas. Nem sempre se colhe o que se planta. Inquestionável mesmo é que a semente define o que se vai poder colher. As relações comerciais entre as nações, com protecionismos e subsídios de todos os tipos, ficam muito aquém do desejável. Mas não se pode atribuir a elas o atraso de muitas nações. O comércio, como nos ensinou Montesquieu, adoça os costumes.

Talvez seja cabível pensar que o comércio é a guerra racionalizada ou sublimada pela produção. É cômodo as pessoas e sociedades fingirem que não há nexo causal entre as opções erradas que fizeram no passado e a situação ruim na qual se encontram. O materialismo tosco obnubila as mentes impedindo-as de perceber que as idéias fazem o mundo se mover para frente ou para trás. Decisões inscientes atrasam o relógio histórico das pessoas e nações. Por isso os povos que não têm a sorte de contar com bons governos e sólidas instituições ficam condenados ao atraso. Nunca é demais repetir que o Brasil é um exímio desperdiçador de oportunidades. Somos um povo que, por manha, prefere inculpar inimigos intangíveis a assumir a responsabilidade pelo tipo de trajetória histórica que vem seguindo. Do imperialismo ao neoliberalismo, passando pela globalização, a preferência nacional é pelo discurso que apregoa que os problemas coletivos são produzidos de fora para dentro. O País é vítima de forças que fogem de seu controle.

Neste momento em que se desenham fabulosas possibilidades na área da pesquisa biotecnológica, é forte a impressão de que o País poderá, por decisões equivocadas, perder o avião da história. Forças retrógradas na Câmara dos Deputados conseguiram desfigurar o projeto de lei de Biossegurança. Cabe ao Senado, onde sua tramitação está emperrada, evitar que se promova o cerceamento da liberdade e da autonomia da ciência. O projeto de lei, de costas para progresso cientifico, proíbe a realização de pesquisas com células-tronco embrionárias. Não é de hoje que o conservadorismo de variados matizes religiosos tudo faz para conter os avanços da ciência. A pseudo-religiosidade invoca Deus para impedir o homem de se salvar com seu próprio saber. A clonagem humana com fins terapêuticos corre o risco de no Brasil ser travada. E isso não é ruim apenas para a pesquisa científica. Terá um enorme impacto negativo que se traduzirá em de perdas de vidas humanas e de vultosos prejuízos econômicos. As razões invocadas contra a pesquisa com células-tronco carecem de consistência. Muitos confundem maliciosamente clonagem humana com fins terapêuticos com clonagem humana com fins reprodutivos. Com isso tentam angariar apoio da opinião pública para as teses atrasadas que defendem. Invocando o valor sagrado dos embriões, omitem que são descartados aos milhares nas clinicas de reprodução. Na pesquisa com células-tronco reside a esperança de milhões de pacientes das mais variadas enfermidades – do mal de Alzheimer à doença de Parkinson, passando por lesões neurológicas.

Como observa a eminente pesquisadora da USP, Mayana Zatz, “a terapia celular com células-tronco representa a medicina do futuro”. Barrá-la significa insensibilidade à vida e ao sofrimento de tantos. Na opinião de Zatz, se as células-tronco de adultos ou extraídas de cordão umbilical não tiverem o potencial de se diferenciar nos tecidos que precisam ser regenerados, a opção será usar células-tronco embrionárias. Elas podem ser obtidas de embriões descartados ou por meio da clonagem terapêutica, como o demonstraram recentemente cientistas coreanos. À pergunta se isso pode abrir caminho para a clonagem reprodutiva, Zatz responde que não há essa possibilidade se se proibir a transferência para o útero.

As sociedades cientificas, daqui e do exterior, já se deram conta de que as janelas que se abrem são tão fantásticas que se formou uma frente ampla do obscurantismo contra a pesquisa biotecnológica. O mundo é assim: enquanto uns criam o futuro, salvam vidas, outros manipulando a ignorância e a desinformação com fins políticos. O legislativo brasileiro tem a obrigação de adotar postura objetiva e laica diante da biotecnologia. Do contrário, será o grande responsável pelo atraso da pesquisa cientifica no Brasil. Os paises que saírem na frente não darão apenas grandes saltos no campo da ciência; conseguirão também extraordinários ganhos materiais e humanitários. Daqui a cinqüenta anos, quando as técnicas e os produtos extraordinários da nova medicina estiverem sendo comercializados, ouviremos a cantilena de que o País é vitima das trocas desiguais, que a tecnologia avançada detida pelos paises ricos precisa ser socializada, que o mundo não pode abrigar tantas assimetrias no plano do conhecimento, que o fosso profundo entre as nações decorre de umas terem a capacidade de produzir mercadorias com elevado valor agregado e de outras exportarem produtos primários. E tantas outras baboseiras que alavancam a carreira dos políticos demagogos. É preciso escolher o caminho do progresso hoje para não lamentar o atraso amanhã.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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