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27 Jun 2004

Brasil Para Estrangeiro Ver

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Desde 13 de fevereiro, data em que petistas do alto clero comemoraram o aniversário do partido no Rio de Janeiro, uma sucessão de episódios desagradáveis vêm se abatendo sobre o presidente da República e seu governo, tal qual uma “maldição do Waldomiro”.

Desde 13 de fevereiro, data em que petistas do alto clero comemoraram o aniversário do partido no Rio de Janeiro, uma sucessão de episódios desagradáveis vêm se abatendo sobre o presidente da República e seu governo, tal qual uma “maldição do Waldomiro”. Quanto aos fatos negativos mais recentes, em que pese o esforço da propaganda enganosa sempre anunciador de boas notícias inexistentes, foram os mais marcantes: a perda da votação do salário mínimo de R$ 260,00 para R$ 275,00 no Senado (apesar de ter sido recuperado como grande vitória na Câmara o valor mais baixo); as vaias e gritos de “traidor” com os quais o presidente da República foi “saudado” no velório de Leonel Brizola; os dados mais recentes da pesquisa CNT/Sensus, indicando que os desempenhos governamentais e presidenciais estão despencando ladeira abaixo da popularidade. Por isso, deve ter sido um alívio para Sua Excelência tomar o avião, (ainda que não fosse o novo de 57 milhões de dólares) e partir rumo a Nova York, centro do capitalismo mundial ornado de belezas, confortos e atrativos sem conta, sempre criticados, mas eternamente desejados.

O presidente e sua numerosa comitiva foram novamente mostrar ao mundo o que é que o Brasil tem, ou melhor, o que não tem, não importa, desde que os gringos enviem para cá milhões de dólares.  E certamente cada participante da privilegiada vilegiatura partiu com o coração livre de medo e cheio de esperança para o contato com nosso mais importante parceiro comercial. Isso apesar das constantes críticas que nosso presidente faz ao presidente norte-americano, os impasses provocados com relação à Alca e outras hostilidades gratuitas como a operação “dedos sujos” a que foram submetidos os turistas norte-americanos em nossos aeroportos.

No sonhado êxito de Nova York devia estar também embutida a idéia de apagar o vexame causado pelo embargo da soja brasileira pela China, problema aparentemente já resolvido, mas que maculou a ida do supremo mandatário brasileiro ao ascendente império chinês como se fosse um Marco Pólo redivivo que traria à nossa pátria a redenção comercial através do colosso comunista.

Demais frustrações como os embargos da carne pela Rússia e pela Argentina, sem falar nas outras grandes viagens que redundaram em pequenos negócios, certamente ficariam esquecidas se tudo desse certo junto aos banqueiros de Wall Street, aos grandes investidores, aos executivos de multinacionais americanos e de outras nacionalidades que se reuniram para ouvir as promessas do presidente brasileiro e de seus ministros.

Além do alívio de deixar por uns dias o problemático Brasil, a comitiva com certeza foi ciente de que era hora de esquecer por alguns momentos o antiamericanismo estridente, os arroubos nacionalisteiros, a antiga ideologia que apontava o capitalismo como o grande pecado do mundo. Antes de tudo era preciso mostrar o Brasil para estrangeiro ver porque nisso consiste a verdadeira salvação da pátria.

O presidente Luiz Inácio esbanjou descontração e entusiasmo, inclusive, consigo mesmo, durante o tempo em que esteve com os maiorais da economia mundial. Além de falar sobre nossa grandeza territorial, pois segundo Sua Excelência, na América do Sul não fazemos fronteira apenas com o Chile, Equador e Bolívia (a Bolívia já deve estar incluída na mudança da geografia comercial que o presidente pretende fazer), ele elogiou os Estados Unidos, coisa rara e que nos discursos para brasileiro ver se apresenta com os sinais trocados. Mostrou também nossas vantagens ao afirmar que “não temos vulcões, não temos terremotos e não estamos em guerra com ninguém”. Sua alegria contagiante só se alterou quando foi lembrado pelos investidores de que o êxito de sua política econômica se deve ao fato de ser ela uma continuidade da que foi realizada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que deixou uma imagem positiva de respeito e confiança relativa a investimentos. Irritado, o presidente Luiz Inácio redargüiu: “O Brasil começou antes de Cabral, quando o planeta não foi feito. Não tem nada a ver a nossa política (econômica) com a política anterior”.

Sua excelência foi muito aplaudido, teve chance de falar num almoço na sede das Nações Unidas sobre a fome do mundo, que aqui continua rigorosamente em dia, mas ficaram no ar de Nova York as dúvidas de centenas de executivos. Ao contrário dos brasileiros, investidores estrangeiros sabem ver o Brasil.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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