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27 Jun 2004

Uma Verdadeira Sinuca de Bico?

Escrito por 

Como já dizia aquele luminar da ciência jurídica nazista, Carl Schmitt, “Em política só há amigo ou inimigo”. Mas o que ele não dizia é que inimigos de ontem podem ser amigos de hoje; amigos de hoje, inimigos de amanhã.

Finda a conferência da UNCTAD em São Paulo, Lulinha Paz e Amor entrou novamente no sucatão de volta ao Palácio da Alvorada. Como todo homem de ação, tinha uma agenda repleta de compromissos sérios e impostergáveis, principalmente a viagem que tinha de fazer aos Estados Unidos, para dizer umas poucas e boas aos hediondos capitalistas americanos. Mas estava ele se preparando para atender aos pesados encargos do cargo quando, como suspirava o saudoso Johnny Alf, o inesperado fez uma surpresa. Só que esta estava longe de ser um telefonema de uma das apetitosas Darlene ou Jacqueline.
Numa reunião, logo ao chegar, alguém sussurrou ao seu ouvido esquerdo: “O Brizola morreu!” Leonel de Moura Brizola é um nome cuja relevância política nacional dispensa qualquer comentário, mas, mesmo assim, um de seus antigos correligionários gaúchos, Alceu Collares - ao ser interpelado por um repórter - fez um: “Um homem que foi Governador três vezes em dois estados”. Donde imediatamente se infere que num deles foi uma vez só, mas noutro teve bis. E um mandato no Rio Grande do Sul e outros dois no Rio de Janeiro, que muitos consideram os dois mais politizados estados da Federação, não é coisa pouca, ah! não é mesmo...

Mas eu não estou aqui para fazer o obituário nem o panegírico, tampouco a oração fúnebre daquele que, em priscas eras, chamou Luís Inácio de Sapo Barbudo e disse que o PT era um “partido de calças curtas”(Ele não, ele “vinha de longe”), porém pouco tempo depois percebeu que o repelente batráquio era na realidade um belo príncipe, e tanto é assim que não se sentiu diminuído em ser candidato a Vice-Presidente numa chapa com o ex-Sapo mas não ex-Barbudo. Mas isto é assim mesmo.

Como já dizia aquele luminar da ciência jurídica nazista, Carl Schmitt, “Em política só há amigo ou inimigo”. Mas o que ele não dizia é que inimigos de ontem podem ser amigos de hoje; amigos de hoje, inimigos de amanhã. Política é que nem nuvens no céu: quando você olha de novo já mudaram de forma e posição. E ainda há quem leve essa joça a sério...

Mas o fato é que havia um fato. O corpo de Brizola tinha sido levado para o Palácio Guanabara onde seria velado e exposto à visitação pública de seus incontáveis correligionários, admiradores e admiradoras. Entre elas, a dona da casa, Rosinha Matheus, que estava simplesmente inconsolável. Desde adolescente, quando ainda era vendedora de produtos Avon, Rosinha nutria profunda admiração pela grande verve dos discursos brizolistas. Nem mesmo eu posso negar que o homem tinha estilo próprio, inconfundível, e o estilo era o homem. Os programas eleitorais na TV perderão quase toda a sua graça. Só está faltando mesmo morrer o herói da Eneida de Virgílio, o Carneiro Barbudo. E se isto acontecer, desligo o aparelho no horário eleitoral.

Nesta vida, há muitas situações em que temos de tomar uma decisão diante de um leque de opções, mas outras há em que as opções se resumem a duas, somente duas e não mais do que duas, sendo que a escolha de uma anula a possibilidade da de outra. E não raramente não sabemos dizer qual a pior. Raça que gosta de expressões bastante impopulares, os filósofos dão a isto o nome de dilema destrutivo. O homem do povo, embora nunca tenha ouvido falar de tal coisa, sabe muito bem a que ela se refere, e expressa o que sabe numa deliciosa linguagem: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. É mole ou quer mais?

Acionei minha imaginação política e pude ver, com estes olhos que a terra há de comer, Lulinha Paz e Amor andando dum lado p’ra outro no Palácio da Alvorada que nem Napoleão no Kremlin após a tomada de Moscou, arrastando dum lado p’ro outro uma dilacerante tomada de decisão:  IR OU NÃO IR, EIS A QUESTÃO.
Com a diferença de que no caso de Napoleão era ir ou não ir embora da Rússia e no caso de Lulinha Paz e Amor era ir ou não ir ao velório do Brizola. ‘Tá pensando que é fácil, gente boa? Ecce dilemma lulensis: Se eu não vou dirão que sou ingrato para com um antigo companheiro de lutas, mas se vou corro risco de pedetistas mais exaltados me receberem com uma ovação popular, quer dizer: ovos podres pelas fuças.

E após ter virado a noite diante de uma angustiante escolha que corroía suas entranhas, ponderando cuidadosamente todos os prós e contras, Lulinha tomou sua decisão: entrou de novo no sucatão, voou para o Rio, dirigiu-se para o Palácio Guanabara e penetrou na sala onde estava o corpo estendido.  E foi aí que o povo carioca, pela televisão ou  in loco, assistiu pela primeira vez na história estrepitosas vaias e apupos num solene e compenetrado velório, mas elas não se dirigiam ao falecido, porém ao recém-chegado. “Traidor! Traidor!” Bradaram vozes pedetistas, mostrando-se dispostas a partir p’ra cima daquela persona non grata. E Lulinha teve de disfarçar e ir saindo de fininho.

Ah! Já não se fazem mais políticos mineiros como antigamente... Fosse o dilema colocado para o fabuloso Benedito Valladares ou para o indefectível José Maria Alkimim (Salvo engano meu, nenhum parentesco com o atual Governador de São Paulo, nem consangüíneo nem ideológico), e eles tiravam a coisa de letra. Não iriam, mas também não deixariam de estar presentes... em espírito, é claro. Era só mandar um representante transmitindo condolências e dizendo que, lamentavelmente, motivos de força maior o impediram de estar presente in corpore. E se alguém fosse chamado de Traidor! Traidor!, não seria ele, mas sim aquele que tinha recebido uma procuração para representá-lo.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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