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08 Abr 2007

Discriminação às Avessas

Escrito por 
Eis que abri o jornal e só não fiquei tomado de espanto, porque nada mais é capaz de me causar espécie nem gênero nestes bicudos tempos de Lullinha Paz e Amor.

Eis que abri o jornal e só não fiquei tomado de espanto, porque nada mais é capaz de me causar espécie nem gênero nestes bicudos tempos de Lullinha Paz e Amor, de apagão aéreo, de apagão moral, usw. E o que li o leitor poderá ler também no parágrafo que se segue:

A ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial [obs. minha: Uma das contribuições originais de Lulla, que servem para aumentar o tamanho do Estado-Dinossauro e do déficit público], criou polêmica ontem ao considerar “natural” que haja racismo de negros contra brancos no Brasil. A nova interpretação para o que seja racismo apareceu em entrevista na BBC Brasil. ‘Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. A reação de um negro não querer conviver com um branco ou não gostar de um branco, eu acho natural’ , afirmou Matilde quando questionada se haveria racismo de negros contra brancos no Brasil, como nos EUA.”

“Na mesma resposta, a ministra ressalvou que não incitava esse tipo de comportamento, nem achava uma “coisa boa”. ‘Mas é natural que aconteça (racismo), porque quem foi açoitado a vida inteira não tem a obrigação de gostar de quem o açoitou’, disse Matilde.”

As duas ressalvas foram destacadas mais tarde em nota de esclarecimento divulgada pela secretaria. Segundo a nota, a frase da ministra havia aparecido fora de contexto na chamada da entrevista pela BBC. No espaço de tempo de algumas horas, ela passou a classificar de ‘condenável’ o que antes chamara de ‘natural’ (...).” (Jornal do Commercio, 26/3/2007).

Comecemos nossa crítica pela afirmação final do redator da matéria em relação ao fato de a ministra reafirmar exatamente o contrário do que tinha afirmado, sem o menor pejo de incorrer numa contradictio in adjectio (contradição nos termos). Bem, isto é como a coisa seria vista por um espírito lógico e amante da coerência, mas não por um adepto da Novilíngua de Big Brother. Refiro-me à personagem principal de 1984 de George Orwell, não àquele supinamente medíocre programa do mesmo nome, da TV Globo, muito apreciado pela beocidade ampla, geral e irrestrita que tem assolado o país. Se, por hipótese, a ministra for uma acólita da Novilíngua, “natural” quer dizer “condenável”, “democracia” quer dizer “totalitarismo”, etc. Neste infame idioma, imposto por Big Brother ao povo, todos os termos significavam o contrário do que querem dizer.

Quanto às demais declarações da referida ministra ou são despautérios ou trivialidades (Tertium non datur). Por exemplo, quando ela enuncia o óbvio: “A reação de um negro (...) não gostar de um branco, eu acho natural”. Eu também acho. Assim como acho natural a reação de um branco não gostar de um negro (Princípio de Reciprocidade). Em primeiro lugar, ninguém pode ser obrigado a gostar de ninguém por decreto e em segundo lugar, como diz o sábio adágio: De gustibus et coloribus non disputandum,ou seja, caindo no popular: “Gosto e cor não se discutem”. No que tange à afirmação de que “A reação de um negro não querer conviver com um branco” pode-se dizer o mesmo de a reação de um branco não querer conviver com um negro (Princípio de Reciprocidade) : Caso se trate de uma convivência na esfera privada, trata-se de uma questão de escolha tanto de um negro como de um branco; porém supondo que se trate de uma convivência na esfera pública, ambos têm que conviver, gostando ou não, principalmente num país de grande diversidade étnica e não menor grau de miscigenação, como é o caso do Brasil.

E uma vez que são obrigados a ocupar os mesmos espaços e se encontrar em muitos lugares públicos, por que não incentivar uma convivência marcada pelo respeito mútuo? Aliás, o verdadeiro respeito é sempre mútuo; exige reciprocidade, porque quem quiser ser respeitado pelo outro tem de respeitar o outro, para que a coisa não se torne um temor reverencial como, por exemplo, aquele que um selvícola tem pelo deus relâmpago ou um matuto por um ditador carismático.

Quanto à afirmação de que “o racismo é natural, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem a obrigação de gostar de quem o açoitou” abriga em seu bojo tanto uma trivialidade como um despautério [Isto para não falar de uma grande dose de ressentimento]. É trivial, porque enuncia o óbvio: “Ninguém tem a obrigação de gostar”, tanto de quem o ofende como de quem o ama. Não há amizade nem amor sem espontaneidade e livre escolha comuns a ambas as partes. Além disso, é óbvio que ninguém (nem branco, nem negro, nem mulato, nem caboclo, nem cafuzo, nem mameluco, nem amarelo, nem pele vermelha, usw) gosta de quem lhe infligiu grande sofrimento, a menos que seja um grande masoquista, e masoquismo não tem nada a ver com cor, porém com dor.

É um rematado despautério, porque nem brancos nem negros devem a assumir os erros de seus antepassados. Os negros o erro de ter vendido escravos negros aos brancos, os brancos o de os ter comprado dos negros, porque estão em jogo indivíduos humanos que, como tais, não são objetos de compra e venda. É sabido que os negros - como era comum nas civilizações brancas da Antigüidade - escravizavam prisioneiros das muitas guerras tribais travadas e os vendiam a mercadores árabes, que por sua vez, os levavam para o litoral d’África e os revendiam aos europeus com boa margem de lucro, como sói ocorrer com intermediários...

Além disso, a prática da escravatura não começou na África tribal, nem muito menos na Europa do século XV. Tanto na Grécia como em Roma – inegavelmente duas brilhantes civilizações – era prática habitual escravizar prisioneiros de guerra e até cidadãos que não podiam pagar suas dívidas com terras nem com dinheiro nem de qualquer outro modo. Pagavam com sua força de trabalho escravo, coisa esta encontrável ainda neste século XXI – para o inenarrável pasmo de quem não sabia! - nos inumeráveis grotões deste Brasilzão, com a diferença de que os modernos escravagistas não têm preferência nenhuma por cor: submetem ao trabalho escravo tanto negros como brancos, mulatos, caboclos, cafuzos, mamelucos und so weiter. Que vergonha nacional!

Para introduzir precisão na linguagem da ministra, temos que considerar que – no Brasil escravocrata - quem açoitava escravos negros eram os feitores a mando de senhores brancos, e isto era feito em perfeita consonância com a lei. Uma vez que - de acordo com a legislação vigente na época - os negros não eram considerados indivíduos humanos, mas sim coisas, parte do patrimônio dos senhores de escravos, que tinham o direito de dispor dos mesmos conforme bem entendessem. Não se pode criticar a legalidade, mas sim a legitimidade da escravidão, mas da escravidão de um indivíduo humano por outro, independentemente da “raça” de um ou de outro, de tempo e de lugar.

No século XVI, ocorreu uma polêmica aparentemente bizantina: travavam-se infindáveis discussões sobre se os selvícolas tinham alma ou não. Porém, a conseqüência prática dessa polêmica teológica – aparentemente uma grande falta do que fazer - era que, se fosse admitido que os selvícolas não possuíam alma, então eles não eram indivíduos humanos e, se não eram, eles podiam ser submetidos ao trabalho forçado sem nenhuma remuneração, como cavalos puxadores de arados e burros de carga, apesar dos veementes protestos de Peter Singer e d’outros defensores dos direitos dos animais, como o vereador Claudio Cavalcante (PFL-RJ). [Vide nos arquivos deste mesmo site meu artigo “Um valoroso e audaz protetor dos ratinhos brancos”].

Mas o que é um completo despautério é se referir a brancos e negros no Brasil contemporâneo - em que a escravatura passou há muito para o domínio da ilegalidade - tal como o apartheid na história recente da África do Sul - como se fosse o caso de brancos e negros no Brasil escravocrata de antanho, e inculpar os brancos de hoje por ações praticadas pelos brancos de 4 séculos atrás!!! Ninguém deve (must) ser responsabilizado por atos imorais e desumanos de seus antepassados, entre outras razões porque isto é uma fonte geradora de perniciosos preconceitos. Foi fazendo essa espúria atribuição de culpa que - da Idade Média em diante – os judeus receberam o infamante estigma de “assassinos de Cristo”, passando a ser vítimas de odiosas perseguições – os chamados progroms - e foi com base em idêntico preconceito, que a referida ministra estigmatizou os contemporâneos brancos brasileiros com a pecha de “açoitadores de escravos”. Como branco, recuso veementemente esta pecha, pois até agora só açoitei idéias tortas e imbecis.

Como disse sarcasticamente Roberto Fendt: “Concordo com a Senhora Ministra; se eu tivesse sido açoitado por alguém a vida toda, certamente seria natural que não me visse obrigado a gostar dessa pessoa. Mas, convenhamos, se a Senhora Ministra está se referindo a fatos pré-1888, então, convenhamos, há muito poucas pessoas desobrigadas de gostar.” (Comentário do Dia do IL-RJ, 29/3/2007).

E foi pensando de modo idêntico ao da ministra Matilde Ribeiro que um vereador da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro - cujo nome, em respeito à memória do mesmo, recuso-me a declinar - elaborou um projeto em que os brancos do século XX teriam de pagar indenização aos negros do mesmo século por seus antepassados terem escravizado os dos negros. Supondo que assim seja, pergunto eu: Uma vez que se trata de uma suposta dívida hereditária, os mulatos - que também existem e não são poucos nesta Terra Brasilis - seriam credores ou devedores da referida indenização?

APÊNDICE I: ANDY ROONEY: UM GAMBÁ NA FESTA

Em 13/12/2005 recebi um e-mail anônimo em inglês sobre um tal de Andy Rooney, contendo a exposição de seu ponto de vista a respeito de seu país, sua época e seus costumes, tal qual ele a teria feito no programa 60 Minutes de um canal de TV americano. Resolvi traduzir e complementar o texto com umas notinhas. Eis uma passagem do início mesmo:

“Eu não acho que ser minoria faz de você uma vítima, a não ser dos números. As únicas coisas que considero discriminatórias são coisas tais como o Fundo Universitário dos Negros Unidos, a Jet Magazine, a Televisão de Entretenimento Negro e Miss América Negra. Experimente fazer coisas tais como o Fundo Universitário dos Caucasianos Unidos, Cloud Magazine (Revista Nuvem), a Televisão de Entretenimento Branco e Miss América Branca e veja o que acontece. Jesse Jackson [obs. minha: Conhecido líder negro do Partido Democrata] estará esmurrando a sua porta.” [obs. minha: Isto é o que os americanos mais perspicazes passaram a chamar de reverse discrimination, ou seja: discriminação às avessas].

Eis que abri o jornal e só não fiquei tomado de espanto, porque nada mais é capaz de me causar espécie nem gênero nestes bicudos tempos de Lullinha Paz e Amor, de apagão aéreo, de apagão moral, usw. E o que li o leitor poderá ler também no parágrafo que se segue:

A ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial da Promoção da Igualdade Racial [obs. minha: Uma das contribuições originais de Lulla, que servem para aumentar o tamanho do Estado-Dinossauro e do déficit público], criou polêmica ontem ao considerar “natural” que haja racismo de negros contra brancos no Brasil. A nova interpretação para o que seja racismo apareceu em entrevista na BBC Brasil. ‘Não é racismo quando um negro se insurge contra um branco. A reação de um negro não querer conviver com um branco ou não gostar de um branco, eu acho natural’ , afirmou Matilde quando questionada se haveria racismo de negros contra brancos no Brasil, como nos EUA.”

“Na mesma resposta, a ministra ressalvou que não incitava esse tipo de comportamento, nem achava uma “coisa boa”. ‘Mas é natural que aconteça (racismo), porque quem foi açoitado a vida inteira não tem a obrigação de gostar de quem o açoitou’, disse Matilde.”

As duas ressalvas foram destacadas mais tarde em nota de esclarecimento divulgada pela secretaria. Segundo a nota, a frase da ministra havia aparecido fora de contexto na chamada da entrevista pela BBC. No espaço de tempo de algumas horas, ela passou a classificar de ‘condenável’ o que antes chamara de ‘natural’ (...).” (Jornal do Commercio, 26/3/2007).

Comecemos nossa crítica pela afirmação final do redator da matéria em relação ao fato de a ministra reafirmar exatamente o contrário do que tinha afirmado, sem o menor pejo de incorrer numa contradictio in adjectio (contradição nos termos). Bem, isto é como a coisa seria vista por um espírito lógico e amante da coerência, mas não por um adepto da Novilíngua de Big Brother. Refiro-me à personagem principal de 1984 de George Orwell, não àquele supinamente medíocre programa do mesmo nome, da TV Globo, muito apreciado pela beocidade ampla, geral e irrestrita que tem assolado o país. Se, por hipótese, a ministra for uma acólita da Novilíngua, “natural” quer dizer “condenável”, “democracia” quer dizer “totalitarismo”, etc. Neste infame idioma, imposto por Big Brother ao povo, todos os termos significavam o contrário do que querem dizer.

Quanto às demais declarações da referida ministra ou são despautérios ou trivialidades (Tertium non datur). Por exemplo, quando ela enuncia o óbvio: “A reação de um negro (...) não gostar de um branco, eu acho natural”. Eu também acho. Assim como acho natural a reação de um branco não gostar de um negro (Princípio de Reciprocidade). Em primeiro lugar, ninguém pode ser obrigado a gostar de ninguém por decreto e em segundo lugar, como diz o sábio adágio: De gustibus et coloribus non disputandum,ou seja, caindo no popular: “Gosto e cor não se discutem”. No que tange à afirmação de que “A reação de um negro não querer conviver com um branco” pode-se dizer o mesmo de a reação de um branco não querer conviver com um negro (Princípio de Reciprocidade) : Caso se trate de uma convivência na esfera privada, trata-se de uma questão de escolha tanto de um negro como de um branco; porém supondo que se trate de uma convivência na esfera pública, ambos têm que conviver, gostando ou não, principalmente num país de grande diversidade étnica e não menor grau de miscigenação, como é o caso do Brasil.

E uma vez que são obrigados a ocupar os mesmos espaços e se encontrar em muitos lugares públicos, por que não incentivar uma convivência marcada pelo respeito mútuo? Aliás, o verdadeiro respeito é sempre mútuo; exige reciprocidade, porque quem quiser ser respeitado pelo outro tem de respeitar o outro, para que a coisa não se torne um temor reverencial como, por exemplo, aquele que um selvícola tem pelo deus relâmpago ou um matuto por um ditador carismático.

Quanto à afirmação de que “o racismo é natural, porque quem foi açoitado a vida inteira não tem a obrigação de gostar de quem o açoitou” abriga em seu bojo tanto uma trivialidade como um despautério [Isto para não falar de uma grande dose de ressentimento]. É trivial, porque enuncia o óbvio: “Ninguém tem a obrigação de gostar”, tanto de quem o ofende como de quem o ama. Não há amizade nem amor sem espontaneidade e livre escolha comuns a ambas as partes. Além disso, é óbvio que ninguém (nem branco, nem negro, nem mulato, nem caboclo, nem cafuzo, nem mameluco, nem amarelo, nem pele vermelha, usw) gosta de quem lhe infligiu grande sofrimento, a menos que seja um grande masoquista, e masoquismo não tem nada a ver com cor, porém com dor.

É um rematado despautério, porque nem brancos nem negros devem a assumir os erros de seus antepassados. Os negros o erro de ter vendido escravos negros aos brancos, os brancos o de os ter comprado dos negros, porque estão em jogo indivíduos humanos que, como tais, não são objetos de compra e venda. É sabido que os negros - como era comum nas civilizações brancas da Antigüidade - escravizavam prisioneiros das muitas guerras tribais travadas e os vendiam a mercadores árabes, que por sua vez, os levavam para o litoral d’África e os revendiam aos europeus com boa margem de lucro, como sói ocorrer com intermediários...

Além disso, a prática da escravatura não começou na África tribal, nem muito menos na Europa do século XV. Tanto na Grécia como em Roma – inegavelmente duas brilhantes civilizações – era prática habitual escravizar prisioneiros de guerra e até cidadãos que não podiam pagar suas dívidas com terras nem com dinheiro nem de qualquer outro modo. Pagavam com sua força de trabalho escravo, coisa esta encontrável ainda neste século XXI – para o inenarrável pasmo de quem não sabia! - nos inumeráveis grotões deste Brasilzão, com a diferença de que os modernos escravagistas não têm preferência nenhuma por cor: submetem ao trabalho escravo tanto negros como brancos, mulatos, caboclos, cafuzos, mamelucos und so weiter. Que vergonha nacional!

Para introduzir precisão na linguagem da ministra, temos que considerar que – no Brasil escravocrata - quem açoitava escravos negros eram os feitores a mando de senhores brancos, e isto era feito em perfeita consonância com a lei. Uma vez que - de acordo com a legislação vigente na época - os negros não eram considerados indivíduos humanos, mas sim coisas, parte do patrimônio dos senhores de escravos, que tinham o direito de dispor dos mesmos conforme bem entendessem. Não se pode criticar a legalidade, mas sim a legitimidade da escravidão, mas da escravidão de um indivíduo humano por outro, independentemente da “raça” de um ou de outro, de tempo e de lugar.

No século XVI, ocorreu uma polêmica aparentemente bizantina: travavam-se infindáveis discussões sobre se os selvícolas tinham alma ou não. Porém, a conseqüência prática dessa polêmica teológica – aparentemente uma grande falta do que fazer - era que, se fosse admitido que os selvícolas não possuíam alma, então eles não eram indivíduos humanos e, se não eram, eles podiam ser submetidos ao trabalho forçado sem nenhuma remuneração, como cavalos puxadores de arados e burros de carga, apesar dos veementes protestos de Peter Singer e d’outros defensores dos direitos dos animais, como o vereador Claudio Cavalcante (PFL-RJ). [Vide nos arquivos deste mesmo site meu artigo “Um valoroso e audaz protetor dos ratinhos brancos”].

Mas o que é um completo despautério é se referir a brancos e negros no Brasil contemporâneo - em que a escravatura passou há muito para o domínio da ilegalidade - tal como o apartheid na história recente da África do Sul - como se fosse o caso de brancos e negros no Brasil escravocrata de antanho, e inculpar os brancos de hoje por ações praticadas pelos brancos de 4 séculos atrás!!! Ninguém deve (must) ser responsabilizado por atos imorais e desumanos de seus antepassados, entre outras razões porque isto é uma fonte geradora de perniciosos preconceitos. Foi fazendo essa espúria atribuição de culpa que - da Idade Média em diante – os judeus receberam o infamante estigma de “assassinos de Cristo”, passando a ser vítimas de odiosas perseguições – os chamados progroms - e foi com base em idêntico preconceito, que a referida ministra estigmatizou os contemporâneos brancos brasileiros com a pecha de “açoitadores de escravos”. Como branco, recuso veementemente esta pecha, pois até agora só açoitei idéias tortas e imbecis.

Como disse sarcasticamente Roberto Fendt: “Concordo com a Senhora Ministra; se eu tivesse sido açoitado por alguém a vida toda, certamente seria natural que não me visse obrigado a gostar dessa pessoa. Mas, convenhamos, se a Senhora Ministra está se referindo a fatos pré-1888, então, convenhamos, há muito poucas pessoas desobrigadas de gostar.” (Comentário do Dia do IL-RJ, 29/3/2007).

E foi pensando de modo idêntico ao da ministra Matilde Ribeiro que um vereador da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro - cujo nome, em respeito à memória do mesmo, recuso-me a declinar - elaborou um projeto em que os brancos do século XX teriam de pagar indenização aos negros do mesmo século por seus antepassados terem escravizado os dos negros. Supondo que assim seja, pergunto eu: Uma vez que se trata de uma suposta dívida hereditária, os mulatos - que também existem e não são poucos nesta Terra Brasilis - seriam credores ou devedores da referida indenização?

APÊNDICE I: ANDY ROONEY: UM GAMBÁ NA FESTA

Em 13/12/2005 recebi um e-mail anônimo em inglês sobre um tal de Andy Rooney, contendo a exposição de seu ponto de vista a respeito de seu país, sua época e seus costumes, tal qual ele a teria feito no programa 60 Minutes de um canal de TV americano. Resolvi traduzir e complementar o texto com umas notinhas. Eis uma passagem do início mesmo:

“Eu não acho que ser minoria faz de você uma vítima, a não ser dos números. As únicas coisas que considero discriminatórias são coisas tais como o Fundo Universitário dos Negros Unidos, a Jet Magazine, a Televisão de Entretenimento Negro e Miss América Negra. Experimente fazer coisas tais como o Fundo Universitário dos Caucasianos Unidos, Cloud Magazine (Revista Nuvem), a Televisão de Entretenimento Branco e Miss América Branca e veja o que acontece. Jesse Jackson [obs. minha: Conhecido líder negro do Partido Democrata] estará esmurrando a sua porta.” [obs. minha: Isto é o que os americanos mais perspicazes passaram a chamar de reverse discrimination, ou seja: discriminação às avessas].

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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