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08 Abr 2007

Ateísmo é Religião?

Escrito por 
Algumas pessoas gostam de repetir que existe uma religião ateísta, que o ateu tem fé no seu ateísmo e acaba criando toda uma doutrina em volta dele.

A religião é inteiramente subjetiva e depende exclusivamente da concepção única que cada um tem dela.” (Humboldt)

Algumas pessoas gostam de repetir que existe uma religião ateísta, que o ateu tem fé no seu ateísmo e acaba criando toda uma doutrina em volta dele. Será que isso faz algum sentido? Minha resposta é um enfático “não”, e pretendo explicar meu ponto a seguir.

Em primeiro lugar, o ateísmo parte de uma negação, por isso o prefixo “a” na palavra. Não é um sistema de valores, um conjunto de crenças. Pelo contrário. É tão somente a negação de uma determinada crença – no caso a existência de deus. O ateísmo não pode ser uma doutrina, pois não possui axiomas básicos nem preceitos que lhe sirvam de base. Como alguns já disseram, o ateísmo é uma religião assim como careca é uma cor de cabelo.

Na verdade, o ateísmo configura-se como um apanhado de objeções que não necessariamente estão ligadas entre si. Podem existir ateus por inúmeros motivos diferentes. Alguns podem sustentar sua postura com base em sólidos argumentos filosóficos, outros podem simplesmente negar a existência divina com base em emoções. Existem ateus de todos os diferentes tipos, para todos os gostos. O rótulo de ateu responde somente a um critério – que é a crença numa divindade – e nada mais diz sobre o restante. Um ateu pode ser um relativista moral ou não, um comunista ou um liberal, um sujeito pérfido ou honesto, e por aí vai.

Mas por que é importante explicar algo tão óbvio? Justamente porque alguns, principalmente os conservadores religiosos, pegam esta característica – ser ateu – e jogam todos que a possuem no mesmo saco, como se o ateísmo fosse algo monolítico. O motivo para fazerem algo tão sem cabimento parece evidente: desqualificar os liberais que são ateus, misturando-os com os comunistas. Tentam misturar o joio e o trigo para transformar tudo em joio, e restarem isolados como os bastiões da liberdade e da moralidade. É uma típica atitude de rebanhos, onde todos os “de fora” precisam ser desqualificados, para que os “de dentro” sintam-se mais seguros e moralmente superiores.

Assim, colocam no mesmo barco pessoas diametralmente opostas como Marx e Ayn Rand. Acusam todo o Iluminismo pela desgraça da Revolução Francesa, ignorando que o mesmo Iluminismo exerceu profunda influência na bem sucedida Revolução Americana. Por esta “brilhante lógica”, de que todo ateu é igual, e naturalmente comunista, teríamos uma lista muito interessante de “comunistas”, como a já citada Ayn Rand, John Stuart Mill, Humboldt, Hayek, Mises, Milton Friedman e outros. Todos seriam “agentes de Gramsci”, trabalhando pela destruição dos valores morais da civilização “judaico-cristã”, pensam os mais paranóicos. Considerei os agnósticos como sendo ateus também, pois para os religiosos fanáticos faz pouca diferença afirmar que deus não existe ou que não sabemos se existe. Afinal, eles “sabem”, têm certeza absoluta, e desfrutam inclusive da “Verdade” revelada. Quem não enxergou isso ainda é um infiel, provavelmente imoral e niilista.

Ora, usando a mesma “lógica” desses conservadores, eu posso afirmar que existe um dragão invisível na minha garagem, indetectável por qualquer método humano conhecido. Se o conservador falar que estou maluco e que o dragão não existe, ele passa a ser um “ateu” em relação ao meu dragão. Ele nega a minha crença, ele é um descrente. Basta que um comunista pense do mesmo jeito, e poderei então jogá-los no mesmo saco, afirmando que ambos são “ateus” em relação ao meu dragão invisível, e, portanto, são iguais. Nada mais estapafúrdio! Está certo que muitos conservadores são mesmo parecidos com socialistas, mas por vários outros motivos, e não por desacreditarem no dragão invisível.

De fato, o ateísmo é tão monolítico quanto a crença em deus. Afinal, quantos tipos distintos de crentes existem? Por acaso católicos, protestantes, judeus, budistas, muçulmanos, e todos os outros infinitos tipos de crentes numa divindade qualquer são iguais, compartilham da mesma fé e dos mesmos valores? Algumas religiões podem inclusive estar mais próximas daquilo que pensam alguns ateus do que de outras religiões. Os budistas, por exemplo, não compartilham de quase nada do que acreditam os seguidores da Opus Dei. A religião chamada Unitarian Universalism, da qual o criador da World Wide Web Tim Bernes-Lee é adepto, conta com grande número de ateus e agnósticos entre seus seguidores. Não precisamos ir muito longe: entre aqueles mesmos que se dizem cristãos, há uma gama enorme de tipos, muitos conflitantes entre si. E não custa lembrar que os conservadores repetem muito a expressão “civilização judaico-cristã”, como se judeus e cristãos fossem unha e carne desde os primórdios, criando uma civilização única, em vez de água e óleo, que não se misturam.

Em resumo, espero ter deixado bem claro que quando um conservador mistura liberais ateus com comunistas, apenas por conta do ateísmo em comum, é porque não tem argumentos para debater honestamente, e precisa apelar para uma falácia patética. Tamanha perfídia só pode ser resultado de muito desespero mesmo. Seria cômico, não fosse trágico.

A religião é inteiramente subjetiva e depende exclusivamente da concepção única que cada um tem dela.” (Humboldt)

Algumas pessoas gostam de repetir que existe uma religião ateísta, que o ateu tem fé no seu ateísmo e acaba criando toda uma doutrina em volta dele. Será que isso faz algum sentido? Minha resposta é um enfático “não”, e pretendo explicar meu ponto a seguir.

Em primeiro lugar, o ateísmo parte de uma negação, por isso o prefixo “a” na palavra. Não é um sistema de valores, um conjunto de crenças. Pelo contrário. É tão somente a negação de uma determinada crença – no caso a existência de deus. O ateísmo não pode ser uma doutrina, pois não possui axiomas básicos nem preceitos que lhe sirvam de base. Como alguns já disseram, o ateísmo é uma religião assim como careca é uma cor de cabelo.

Na verdade, o ateísmo configura-se como um apanhado de objeções que não necessariamente estão ligadas entre si. Podem existir ateus por inúmeros motivos diferentes. Alguns podem sustentar sua postura com base em sólidos argumentos filosóficos, outros podem simplesmente negar a existência divina com base em emoções. Existem ateus de todos os diferentes tipos, para todos os gostos. O rótulo de ateu responde somente a um critério – que é a crença numa divindade – e nada mais diz sobre o restante. Um ateu pode ser um relativista moral ou não, um comunista ou um liberal, um sujeito pérfido ou honesto, e por aí vai.

Mas por que é importante explicar algo tão óbvio? Justamente porque alguns, principalmente os conservadores religiosos, pegam esta característica – ser ateu – e jogam todos que a possuem no mesmo saco, como se o ateísmo fosse algo monolítico. O motivo para fazerem algo tão sem cabimento parece evidente: desqualificar os liberais que são ateus, misturando-os com os comunistas. Tentam misturar o joio e o trigo para transformar tudo em joio, e restarem isolados como os bastiões da liberdade e da moralidade. É uma típica atitude de rebanhos, onde todos os “de fora” precisam ser desqualificados, para que os “de dentro” sintam-se mais seguros e moralmente superiores.

Assim, colocam no mesmo barco pessoas diametralmente opostas como Marx e Ayn Rand. Acusam todo o Iluminismo pela desgraça da Revolução Francesa, ignorando que o mesmo Iluminismo exerceu profunda influência na bem sucedida Revolução Americana. Por esta “brilhante lógica”, de que todo ateu é igual, e naturalmente comunista, teríamos uma lista muito interessante de “comunistas”, como a já citada Ayn Rand, John Stuart Mill, Humboldt, Hayek, Mises, Milton Friedman e outros. Todos seriam “agentes de Gramsci”, trabalhando pela destruição dos valores morais da civilização “judaico-cristã”, pensam os mais paranóicos. Considerei os agnósticos como sendo ateus também, pois para os religiosos fanáticos faz pouca diferença afirmar que deus não existe ou que não sabemos se existe. Afinal, eles “sabem”, têm certeza absoluta, e desfrutam inclusive da “Verdade” revelada. Quem não enxergou isso ainda é um infiel, provavelmente imoral e niilista.

Ora, usando a mesma “lógica” desses conservadores, eu posso afirmar que existe um dragão invisível na minha garagem, indetectável por qualquer método humano conhecido. Se o conservador falar que estou maluco e que o dragão não existe, ele passa a ser um “ateu” em relação ao meu dragão. Ele nega a minha crença, ele é um descrente. Basta que um comunista pense do mesmo jeito, e poderei então jogá-los no mesmo saco, afirmando que ambos são “ateus” em relação ao meu dragão invisível, e, portanto, são iguais. Nada mais estapafúrdio! Está certo que muitos conservadores são mesmo parecidos com socialistas, mas por vários outros motivos, e não por desacreditarem no dragão invisível.

De fato, o ateísmo é tão monolítico quanto a crença em deus. Afinal, quantos tipos distintos de crentes existem? Por acaso católicos, protestantes, judeus, budistas, muçulmanos, e todos os outros infinitos tipos de crentes numa divindade qualquer são iguais, compartilham da mesma fé e dos mesmos valores? Algumas religiões podem inclusive estar mais próximas daquilo que pensam alguns ateus do que de outras religiões. Os budistas, por exemplo, não compartilham de quase nada do que acreditam os seguidores da Opus Dei. A religião chamada Unitarian Universalism, da qual o criador da World Wide Web Tim Bernes-Lee é adepto, conta com grande número de ateus e agnósticos entre seus seguidores. Não precisamos ir muito longe: entre aqueles mesmos que se dizem cristãos, há uma gama enorme de tipos, muitos conflitantes entre si. E não custa lembrar que os conservadores repetem muito a expressão “civilização judaico-cristã”, como se judeus e cristãos fossem unha e carne desde os primórdios, criando uma civilização única, em vez de água e óleo, que não se misturam.

Em resumo, espero ter deixado bem claro que quando um conservador mistura liberais ateus com comunistas, apenas por conta do ateísmo em comum, é porque não tem argumentos para debater honestamente, e precisa apelar para uma falácia patética. Tamanha perfídia só pode ser resultado de muito desespero mesmo. Seria cômico, não fosse trágico.

Rodrigo Constantino

Rodrigo Constantino é economista formado pela PUC-RJ, com MBA de Finanças pelo IBMEC. Trabalha desde 1997 no mercado financeiro, como analista de empresas e administrador de portfolio. É autor do livro "Prisioneiros da Liberdade", da editora Soler.

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