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17 Mar 2007

Ilusões de apartamento

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Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido.

Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido. Mas o jogo é conhecido, um produtinho embalado da mídia esperta que ganhou rios de dinheiro com uma bandinha de 5ª categoria. O responsável por esta alquimia barata foi o empresário Malcolm MacLaren, quem absorveu o clima reinante do underground nova-iorquino dos anos 70 e soube vendê-lo mundo afora. Uma de suas frases era: "se não te apoderas das coisas que te rodeiam, só porque te servem de inspiração, és estúpido. O mundo é feito de plágios."
 
Honrosas exceções existem. Mais verdadeiros seriam os pós-punk do New Model Army que com sua “51th State of America” fazendo menção à subserviência inglesa para os EUA. Não que eu corrobore o tema, mas eles são legítimos ao levarem adiante o que acreditam, uma canção que lhes rendeu a proibição de tocar seus esfuziantes acordes do outro lado do Atlântico.
 
Tempos depois, a fórmula "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" se repete num eterno retorno da rebeldia de apartamento. É a vez de uma banda (de horrível musicalidade, diga-se de passagem) chamada Rage Against the Machine. Com um vídeo clip bem produzido eles alternam imagens tocando na New York Stock Exchange (NYSE) na Wall Street, com cenas de desgraças do III Mundo. Ao final são presos pela polícia nova-iorquina. Tudo bem produzido de encomenda para atiçar os hormônios de jovens púberes que também começam a se coçar para gastar com o cdzinho. Ocorre que sua gravadora era a Epic, subsidiária da Sony, multinacional bem capitalista...
 
Que jovens queiram extravasar sua fúria com rock, não vejo nada de mais, mas que sejam tão ingênuos de não verem as conexões óbvias de seus ídolos com o big business é enjoativo demais, assim como não perceberem que são suficientemente tolos.
 
Integrantes desta horrorosa banda se juntaram ao vocalista Chris Cornell, de um bom grupo, o Soundgarden e formaram o Audioslave que tem sonoridade bem aprazível (quem disse que juntar laranjas podres com uma boa apodrecem esta?). Mas, o curioso sobre o Audioslave é que eles foram o primeiro grupo de rock a tocar na Praça Anti-Imperialista em Havana em 40 anos, com um público de 50.000 pessoas sedentas pelas delícias do capitalismo. Vi o show em documentário da HBO que intercalava com entrevistas e cenas na capital cubana. Em certo momento, os integrantes da banda comentam sobre a famosa foto de Che Guevara, como um rosto que simboliza a luta pela justiça ou algo assim... Mais tarde, o baixista tentava se lançar de bicicleta cross por íngremes paredões ao que era impedido pelo seu segurança. Desistindo, desabafou que se morasse em Cuba abriria uma loja de artigos esportivos para quem curte bicicleta(!). Aquilo me extasiou, pois isto resume muito bem o conhecimento adolescente sobre a política comunista. Como ele poderia achar que teria este direito? A liberdade ao comércio e à propriedade privada em uma ditadura comunista?! Por isto reafirmo, salvo raríssimas exceções, eu gosto é de "rock alienado", pois a grande maioria dos que se dizem "cabeça" são inocentes úteis a alguma causa perdida que só reproduz tipos bobos. Prefiro ouvir adolescentes cantando sobre garotas do que críticas à Margaret Thatcher, cujas políticas alçaram o Reino Unido a uma confortável posição em crescimento e baixo desemprego entre os grandes países europeus; prefiro ouvir cantarem odes a cerveja do que protestos indignados contra a fome na África para depois enviarem recursos e disponibilizarem fundos a líderes corruptos no continente; prefiro ouvir sobre carros velozes do que sobre o aquecimento global sem nenhum conhecimento de suas teorias nem de ciclos naturais etc. etc. e etc.
 
Mudando de saco pra mala, outro dia desses visitei a casa de um pessoal que era ligado ao “partidão”. Como sou meio tonto para relações sociais, fui logo “dando bola fora”. Havia uma médica que comentava sobre um belíssimo documentário sobre a Rússia, czares, a Era Stálin e quetais, uma psicóloga que mostrava como tinha ficado bonito o sindicato dos bancários como centro cultural em Porto Alegre etc. Após isto, ainda elogiou Saramago ao comentar sua opinião sobre o imbróglio do Papa vs. Islã etc. E eu só pontuando, Stálin matou mais que Hitler, mandou matar o namorado da própria filha, sindicato é máfia, Saramago é hipócrita ao defender Cuba como referência de democracia, o Papa foi mal como político, mas o Islã é hipócrita... Só depois de alguns minutos que a cerveja escasseou, percebi que não estava agradando. Se é que é possível apreender algo de bom quando a cerveja já está quente, concluo que minha crítica anterior aos adolescentes era um pouco injusta. Pior são alguns adultos.
 
Alguns são burros mesmo, outros apenas ingênuos. O documentário dinamarquês Smiling In A Warzone, também passado na HBO é sobre uma aviadora comovida com o relato de uma adolescente afegã que sonha pilotar aviões. Ela põe então um plano em execução que a faz voar 6.000 quilômetros até Kabul para transformar o sonho da menina em realidade. Toda uma equipe foi montada para atender ao vago desejo, sem ao menos conhecer as idiossincrasias da cultura tribal. Tudo para, no final, dar de cara com o muro da realidade: seu tio não deixou que ela realizasse seu sonho, pois seria ridicularizado pelos amigos e vizinhos.

 

Simone Aaberg Kaerns que dirigiu o documentário e pilotou o avião



Stone passou três dias em Havana com Fidel Castro

O mundo é mesmo um amontoado de ignorância.

Sex Pistols era uma banda que cantava a infanto-juvenil “God Save the Queen”, mas que nas apresentações ao vivo, não raro trocava o "save" por "fuck". Só mesmo em um país democrático, em que pese seu propalado conservadorismo, isto seria permitido. Mas o jogo é conhecido, um produtinho embalado da mídia esperta que ganhou rios de dinheiro com uma bandinha de 5ª categoria. O responsável por esta alquimia barata foi o empresário Malcolm MacLaren, quem absorveu o clima reinante do underground nova-iorquino dos anos 70 e soube vendê-lo mundo afora. Uma de suas frases era: "se não te apoderas das coisas que te rodeiam, só porque te servem de inspiração, és estúpido. O mundo é feito de plágios."
 
Honrosas exceções existem. Mais verdadeiros seriam os pós-punk do New Model Army que com sua “51th State of America” fazendo menção à subserviência inglesa para os EUA. Não que eu corrobore o tema, mas eles são legítimos ao levarem adiante o que acreditam, uma canção que lhes rendeu a proibição de tocar seus esfuziantes acordes do outro lado do Atlântico.
 
Tempos depois, a fórmula "faça o que eu digo, não faça o que eu faço" se repete num eterno retorno da rebeldia de apartamento. É a vez de uma banda (de horrível musicalidade, diga-se de passagem) chamada Rage Against the Machine. Com um vídeo clip bem produzido eles alternam imagens tocando na New York Stock Exchange (NYSE) na Wall Street, com cenas de desgraças do III Mundo. Ao final são presos pela polícia nova-iorquina. Tudo bem produzido de encomenda para atiçar os hormônios de jovens púberes que também começam a se coçar para gastar com o cdzinho. Ocorre que sua gravadora era a Epic, subsidiária da Sony, multinacional bem capitalista...
 
Que jovens queiram extravasar sua fúria com rock, não vejo nada de mais, mas que sejam tão ingênuos de não verem as conexões óbvias de seus ídolos com o big business é enjoativo demais, assim como não perceberem que são suficientemente tolos.
 
Integrantes desta horrorosa banda se juntaram ao vocalista Chris Cornell, de um bom grupo, o Soundgarden e formaram o Audioslave que tem sonoridade bem aprazível (quem disse que juntar laranjas podres com uma boa apodrecem esta?). Mas, o curioso sobre o Audioslave é que eles foram o primeiro grupo de rock a tocar na Praça Anti-Imperialista em Havana em 40 anos, com um público de 50.000 pessoas sedentas pelas delícias do capitalismo. Vi o show em documentário da HBO que intercalava com entrevistas e cenas na capital cubana. Em certo momento, os integrantes da banda comentam sobre a famosa foto de Che Guevara, como um rosto que simboliza a luta pela justiça ou algo assim... Mais tarde, o baixista tentava se lançar de bicicleta cross por íngremes paredões ao que era impedido pelo seu segurança. Desistindo, desabafou que se morasse em Cuba abriria uma loja de artigos esportivos para quem curte bicicleta(!). Aquilo me extasiou, pois isto resume muito bem o conhecimento adolescente sobre a política comunista. Como ele poderia achar que teria este direito? A liberdade ao comércio e à propriedade privada em uma ditadura comunista?! Por isto reafirmo, salvo raríssimas exceções, eu gosto é de "rock alienado", pois a grande maioria dos que se dizem "cabeça" são inocentes úteis a alguma causa perdida que só reproduz tipos bobos. Prefiro ouvir adolescentes cantando sobre garotas do que críticas à Margaret Thatcher, cujas políticas alçaram o Reino Unido a uma confortável posição em crescimento e baixo desemprego entre os grandes países europeus; prefiro ouvir cantarem odes a cerveja do que protestos indignados contra a fome na África para depois enviarem recursos e disponibilizarem fundos a líderes corruptos no continente; prefiro ouvir sobre carros velozes do que sobre o aquecimento global sem nenhum conhecimento de suas teorias nem de ciclos naturais etc. etc. e etc.
 
Mudando de saco pra mala, outro dia desses visitei a casa de um pessoal que era ligado ao “partidão”. Como sou meio tonto para relações sociais, fui logo “dando bola fora”. Havia uma médica que comentava sobre um belíssimo documentário sobre a Rússia, czares, a Era Stálin e quetais, uma psicóloga que mostrava como tinha ficado bonito o sindicato dos bancários como centro cultural em Porto Alegre etc. Após isto, ainda elogiou Saramago ao comentar sua opinião sobre o imbróglio do Papa vs. Islã etc. E eu só pontuando, Stálin matou mais que Hitler, mandou matar o namorado da própria filha, sindicato é máfia, Saramago é hipócrita ao defender Cuba como referência de democracia, o Papa foi mal como político, mas o Islã é hipócrita... Só depois de alguns minutos que a cerveja escasseou, percebi que não estava agradando. Se é que é possível apreender algo de bom quando a cerveja já está quente, concluo que minha crítica anterior aos adolescentes era um pouco injusta. Pior são alguns adultos.
 
Alguns são burros mesmo, outros apenas ingênuos. O documentário dinamarquês Smiling In A Warzone, também passado na HBO é sobre uma aviadora comovida com o relato de uma adolescente afegã que sonha pilotar aviões. Ela põe então um plano em execução que a faz voar 6.000 quilômetros até Kabul para transformar o sonho da menina em realidade. Toda uma equipe foi montada para atender ao vago desejo, sem ao menos conhecer as idiossincrasias da cultura tribal. Tudo para, no final, dar de cara com o muro da realidade: seu tio não deixou que ela realizasse seu sonho, pois seria ridicularizado pelos amigos e vizinhos.

 

Simone Aaberg Kaerns que dirigiu o documentário e pilotou o avião



Stone passou três dias em Havana com Fidel Castro

O mundo é mesmo um amontoado de ignorância.

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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