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23 Jun 2004

As Origens do Nazismo - Parte Final

Escrito por 

Na parte final de seu artigo, Ludwig von Mises mostra o primeiro exemplo de autoritarismo socialista e estatista na Alemanha, ainda no século XIX, prenunciando o advento do nazismo.

Nota editorial (MSM): Ludwig von Mises  é um dos mais notáveis economistas do nosso tempo. Inspirado no início de sua carreira pelo trabalho de seus professores - os grandes economistas autríacos Carl Menger e Böhm-Bawerk - Mises, por meio de uma série de pesquisas universitárias, analisou sistematicamente cada problema econômico importante, criticou erros inveterados e substituiu velhos sofismas por idéias sólidas e sadias. Na terceira - e última - parte de seu texto, (ver parte II)  extraído de seu livro Omnipotent Government, Mises encerra sua explicação apresentando o primeiro caso de autoritarismo socialista e estatista na Alemanha, ainda no século XIXI, prenunciando a ascensão do nazismo.
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4. O conflito constitucional na Prússia
Ludwig von Mises
Os progressistas, como os liberais chamavam seu partido na câmara inferior prussiana (Câmara dos Deputados), se opuseram amargamente à reforma. A câmara votou repetidamente contra a conta e contra o orçamento. O rei - Frederico Guilherme IV já havia falecido e Guilherme I o havia sucedido- dissolveu o parlamento, mas os eleitores reelegeram uma maioria de progressistas. O rei e seus ministros não podiam romper a oposição do corpo legislativo. Mas eles se agarraram a seus planos e continuaram sem aprovação constitucional e sem consentimento parlamentar. Eles conduziram o novo exército em duas operações militares, e derrotaram a Dinamarca em 1864 e a Áustria em 1866. Só então, após a anexação do reino de Hanover, o controle do eleitor de  Hessen, dos ducados de Nassau, Schleswig e Holstein, e da Cidade Livre de Frankfort, depois do estabelecimento da hegemonia prussiana sobre todos estados da Alemanha do Norte e da conclusão dos acordos militares com os estados da Alemanha do Sul no qual também se renderam aos Hohenzollern, o Parlamento Prussiano cedeu. O partido progressista se dividiu, e alguns de seus  antigos membros apoiaram o governo. Dessa forma o Rei obteve a maioria. A câmara aprovou o pagamento de  indenizações para condutas inconstitucionais em assuntos governamentais e, com atraso, sancionou todas as medidas e despesas a que eles se opuseram por seis anos. O grande Conflito Constitucional resultou em completo sucesso para o rei e completa derrota para o liberalismo.

Quando uma delegação da câmara dos deputados levou ao rei o que o parlamento achava do discurso real na abertura da nova sessão, ele declarou, de forma arrogante, que era sua obrigação agir como havia agido nos últimos anos e que agiria da mesma forma no futuro se condições similares voltassem a ocorrer. Porém, durante o conflito, ele se desesperara mais de uma vez. Em 1862, o rei perdeu a esperança de derrotar a oposição popular, e estava pronto a abdicar da coroa. O general von Roon o encorajou a fazer uma última  tentativa, nomeando Bismarck como primeiro-ministro. Bismarck viajou rapidamente de Paris, onde representava a Prússia na corte de Napoleão III. Ele encontrou o rei "esgotado, deprimido e desencorajado." Quando Bismarck tentou explicar seu próprio ponto de vista sobre a situação política, Guilherme o interrompeu dizendo: "Vejo exatamente como tudo isso acabará. Bem aqui, nesta praça Opera para a qual essas janelas dão, eles vão decapitar primeiro você e, logo depois, também eu." Foi um trabalho difícil para Bismarck infundir coragem no apreensivo Hohenzollern. Mas, finalmente, Bismarck relata: "Minhas palavras apelaram para sua honra militar e ele se viu na posição de um oficial que tem a obrigação de defender seu posto até a morte." Ainda mais amedrontados que o rei estavam a rainha, os príncipes e muitos generais. Na Inglaterra, a rainha Vitória passou noites em claro pensando na posição de sua filha mais velha casado com o herdeiro do trono da Prússia. O palácio real de Berlim era assombrado pelos fantasmas de Luiz XVI e Maria Antonieta.

Todos esses medos, no entanto, eram infundados. Os progressistas não se aventuraram em uma nova revolução, e eles teriam sido derrotados se tivessem tentado. Esses muito-abusados liberais alemães dos anos de 1860, esses homens de hábitos estudiosos, esses leitores de tratados filosóficos, esses amantes da música e da poesia, entenderam muito bem porque a revolta de 1848 havia falhado. Eles sabiam que não poderiam estabelecer um governo popular em uma nação onde milhões ainda estavam presos nos laços da superstição, da burrice e da ignorância. O problema político era essencialmente um problema de educação. O sucesso final do liberalismo e da democracia era incontestável. A direção voltada ao governo parlamentar era irresistível. Mas a vitória do liberalismo pode ser alcançada apenas quando aquela camada da população da qual o rei extraiu seus confiáveis soldados deveria ter se tornado esclarecida e através disso transformada em defensores das idéias liberais. Então o rei seria forçado a render-se, e o Parlamento obteria supremacia sem derramamento de sangue. Os liberais estavam determinados a poupar o povo alemão, sempre que possível, dos horrores da revolução e da guerra civil. Eles estavam confiantes que num futuro não muito distante eles mesmos teriam o controle total da Prússia. Eles tinham apenas de esperar.

5. O programa da “Pequena Alemanha”
Os progressistas prussianos não lutaram no Conflito Constitucional para a destruição ou enfraquecimento do Exército Prussiano. Eles perceberam nessas circunstâncias que a Alemanha precisava de um forte exército para a defesa de sua independência. Eles queriam arrancar o exército do rei e transformá-lo em um instrumento para a proteção da liberdade alemã. A questão central do conflito era se o rei ou o parlamento deveria controlar o exército. O objetivo do liberalismo alemão era a substituição de uma escandalosa administração de trinta pequenos estados alemães por um único governo liberal. A maioria dos liberais acreditava que esse futuro Estado alemão não deveria incluir a Áustria. A Áustria era muito diferente dos outros países de língua alemã; ela tinha seus próprios problemas, os quais eram diferentes dos problemas do restante das nações. Os liberais não puderam se conter em ver a Áustria como o mais perigoso obstáculo para a liberdade da Alemanha. A corte austríaca era dominada por jesuítas, seu governo fez um acordo com Pio IX, o papa que ardentemente combateu todas as idéias modernas. Mas o Imperador da Áustria não estava preparado para renunciar voluntariamente a posição que sua casa ocupou por mais de quatrocentos anos na Alemanha. Os liberais queriam o Exército Prussiano forte pois tinham medo da hegemonia austríaca, uma nova Contra-Reforma e o reestabelecimento do sistema reacionário do falecido príncipe Metternich. Eles ambicionavam  um governo único para todos os alemães além dos limites da Áustria (e Suíça).

Eles então chamaram a si mesmos de Pequenos Alemães (Kleindeutsche) em contraste aos Grandes Alemães (Grossdeutsche) que queriam incluir aquelas regiões da Áustria que anteriormente haviam pertencido ao Sacro Império. Mas, além disso, havia outras considerações de política externa que sugeririam um crescimento no Exército Prussiano. A França, naqueles anos, era governada por um  aventureiro que estava convencido de que poderia preservar seu império apenas por recentes vitórias militares. Na primeira década de seu reinado ele já havia travado duas guerras sangrentas. Agora parecia ser a vez da Alemanha. Poucos duvidavam que Napoleão III divertia-se com a idéia de anexar a margem esquerda do Reno. Quem mais poderia proteger a Alemanha a não ser o Exército Prussiano?
Então havia mais um problema: Schleswig-Holstein. Os cidadãos de Holstein, de Lauenburg e do sul de Schleswig se opuseram amargamente ao governo da Dinamarca. Os liberais alemães pouco se importaram com os sofisticados argumentos dos advogados e diplomatas sobre as declarações de vários pretendentes à sucessão nos ducados do Elba. Eles não acreditaram na doutrina de que a questão de quem deveria governar um país devesse ser decidida de acordo com as condições da lei feudal e dos pactos de famílias centenárias. Eles apoiaram a lei ocidental de autodeterminação. Os povos desses ducados estavam relutantes em concordar com a soberania de um homem que só tinha um título porque havia casado com uma princesa por uma declaração contestada de sucessão em Schleswig e que não tinha nenhum direito à sucessão em Holstein; eles ambicionavam a independência dentro da Confederação Germânica. Esse fato por si só pareceu importante aos olhos dos liberais. Por que a esses alemães seria negado o que ingleses, franceses, belgas e italianos tinham? Mas como o rei da Dinamarca não estava preparado para renunciar a seus direitos, essa questão não poderia ser resolvida sem recorrer às armas.

Seria um erro julgar todos esses problemas sob o ponto de vista dos eventos subseqüentes. Bismarck livrou Schleswig-Holstein do jugo de seus opressores dinamarqueses apenas para anexá-los à Prússia; e ele anexou não só o sul de Schleswig mas também o norte de Schleswig, cuja população desejava continuar no reino da  Dinamarca. Napoleão III não atacou a Alemanha; foi Bismarck quem instigou a guerra contra a França. Ninguém previu essa conseqüência no começo dos anos de 1860. Naquele tempo todos na Europa e nos EUA consideravam o imperador da França o principal violador da paz e agressor. A simpatia externa pela aspiração da Alemanha por unificação era em grande parte devido à convicção de que a unificação contrabalancearia a França e, dessa forma, tornaria a Europa um local seguro e pacífico.

Os Pequenos Alemães também estavam enganados quanto aos seus preconceitos religiosos. Assim como a maioria dos liberais, eles consideravam o Protestantismo como o primeiro passo para sair das trevas medievais em direção ao iluminismo. Eles desconfiavam da Áustria porque ela era católica; eles preferiram a Prússia porque a maioria de sua população era protestante. Apesar de toda experiência, eles tinham esperanças de que a Prússia fosse mais aberta às idéias liberais do que a Áustria. As condições políticas na Áustria, sem dúvida, eram insatisfatórias naqueles anos críticos. Mas eventos posteriores provaram que o Protestantismo não protegia a liberdade mais do que o Catolicismo. O ideal do liberalismo é a completa separação entre Igreja e Estado, e tolerância - sem qualquer consideração quanto às diferenças entre as igrejas.

Porém esse lapso não estava limitado à Alemanha. Os liberais franceses estavam tão iludidos que de início saudaram a vitória prussiana em Königgrätz (Sadova). Apenas depois de refletir no assunto é que perceberam que a derrota da Áustria significava também a morte da França, e eles criaram - tarde demais - o grito de guerra Revanche pour Sadova.

Königgrätz foi de qualquer modo uma derrota esmagadora para o liberalismo alemão. Os liberais estavam conscientes do fato de que tinham perdido uma campanha. Apesar disso, estavam cheios de esperança. Eles estavam firmemente decididos a prosseguir com sua luta no novo Parlamento da Alemanha do Norte. Essa luta, eles sentiam, precisava estabelecer a vitória do liberalismo e a derrota do absolutismo. O momento em que o rei não mais seria capaz de usar “seu” exército contra o povo parecia se aproximar a cada dia.

6. O episódio de Lassalle
Ferdinand Lassalle
Seria possível lidar com o Conflito Constitucional Prussiano sem ao menos mencionar o nome de Ferdinand Lassalle. A intervenção de Lassalle não influenciou o curso dos eventos. Porém, predisse algo novo: o surgimento das forças que estavam destinadas a moldar a sorte da Alemanha e da civilização ocidental.

Enquanto os progressistas prussianos estavam envolvidos em sua luta pela liberdade, Lassalle os atacou de forma amarga e apaixonada. Ele tentou instigar os trabalhadores a retirar seu apoio aos progressistas. Ele proclamou o evangelho da luta de classes. Os progressistas, como representantes da burguesia, afirmou, eram os inimigos mortais dos trabalhadores. Vocês não deveriam combater o Estado mas as classes exploradoras. O Estado é seu amigo; é claro, não o Estado governado por Herr von Bismarck mas o Estado controlado por mim, Lassalle.
Lassalle não estava na folha de pagamento de Bismarck, como algumas pessoas suspeitavam. Ninguém podia subornar Lassalle. Somente após sua morte alguns de seus ex-amigos tomaram dinheiro do governo. Mas como Bismarck e Lassalle atacavam os progressistas, ambos se tornaram praticamente aliados. Logo Lassalle se aproximou de Bismarck. Os dois costumavam se encontrar clandestinamente. Apenas muitos anos depois foi revelado o segredo dessa reação. É inútil discutir no quê uma aberta e duradoura cooperação entre esses dois homens ambiciosos teria resultado se Lassalle não tivesse morrido logo após esses encontros por causa de um ferimento obtido em um duelo (31 de agosto de 1864). Ambos ambicionavam o supremo poder na Alemanha. Nem Bismarck nem Lassalle estavam preparados para renunciar às suas declarações.

Bismarck e seus amigos militares e aristocráticos odiavam os liberais tão profundamente que estariam prontos a ajudar os socialistas a obter o controle do país caso eles mesmos tivessem se mostrado fracos em proteger seu próprio governo. Mas eles eram - por enquanto - fortes o suficiente para manter os progressistas em rédea curta. Eles não precisavam do apoio de Lassalle.

Não é verdade que Lassalle deu a Bismarck a idéia de que o socialismo revolucionário era um poderoso aliado na luta contra o liberalismo. Bismarck já acreditava há muito tempo que as classes mais baixas eram melhores monarquistas que as classes médias.

Ademais, como ministro prussiano em Paris, ele teve a oportunidade de observar o funcionamento do cesarismo. Talvez sua predileção pelo direito universal de voto foi reforçada por suas conversas com Lassalle. Mas por enquanto ele não tinha utilidade para a cooperação de Lassalle. O partido de Lassalle ainda era muito pequeno para ser considerado importante. Na época da morte de Lassalle, o Allgemeine Deutsche Arbeiterverein não tinha mais que 4.000 membros.

A agitação de Lassalle não impediu as atividades dos progressistas. Foi uma chateação para eles, não um obstáculo. Nem tivera nada a aprender de suas doutrinas. Que o Parlamento da Prússia era apenas uma farsa e que o exército foi a principal fortaleza do absolutismo da Prússia não era novidade para eles. Foi exatamente porque eles sabiam disso que lutaram no grande conflito. A breve e demagógica carreira de Lassalle é notável porque, pela primeira vez na Alemanha, as idéias socialistas e estatistas apareceram no cenário político como oposição ao liberalismo e à liberdade. Lassalle não foi realmente um nazista; mas foi o mais destacado precursor do nazismo, e o primeiro alemão que ambicionou a posição de Führer. Ele rejeitou todos os valores do Iluminismo e da filosofia liberal, mas não como os eulogistas românticos da Idade Média e do legitimismo real fizeram. Ele os refutou; mas ele prometeu ao mesmo tempo realizá-los de uma forma mais completa e mais ampla. O liberalismo, declarou, ambiciona uma liberdade artificial, mas eu trarei a vocês a verdadeira liberdade. E a verdadeira liberdade significa a onipotência do governo. Não é a polícia que é a inimiga da liberdade mas a burguesia. E foi Lassalle quem pronunciou as palavras que melhor caracterizam o espírito da época porvir: "O Estado é Deus”.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
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