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08 Mar 2007

Basta Apenas Uma Vela

Escrito por 
Ora, ao invés de termos uma campanha combatendo a oferta de esmolas, porque não temos uma do tipo “adote uma família?”

Existem muitas obras por serem feitas pelas mãos humanas neste mundo. Obras que requerem muito mais do que recursos de ordem financeira, trabalhos que requerem muito mais do que apenas vontade. Estas tarefas, impossíveis de serem numeradas, que convocam as mãos humanas ao labor, chamam nossas almas a verterem através de nossos gestos uma gota de misericórdia (ao menos) pelo próximo.

Tomamos como exemplo laminar desta carência, as inúmeras campanhas que já há alguns anos desestimulam os indivíduos a ofertarem esmolas aos indigentes que suplicam por um gesto de caridade. Aí, fico cá eu com meus botões a refletir: nós deixamos de estender a nossa mão para o indivíduo espoliado para que o Estado passe a carrega-lo no colo. Não é isso que está ocorrendo? Não é nisso que o nosso Estado está, dia após dia, se transformando?

Obviamente que a prática hipócrita de ofertar a uma pessoa algumas moedas não irá lhe retirar da miséria e muito menos resolver os seus problemas, pois, gestos como este acabam trazendo mais uma espécie de conforto fingido para nossas almas do que alguma resolução para a vida do cidadão expropriado de sua dignidade que, em muitíssimos casos, fará uso do dinheiro ofertado para comprar um gole de cachaça barata para aliviar a sua infelicidade.

Lembro-me como se fosse hoje da imagem de um senhor, com a face e os lábios feridos, de passo cambaleante, que, em uma manhã qualquer havia me abordado solicitando algumas moedas. Mais que depressa lhe ofertei alguns trocados e, no mesmo instante em que eu havia estendido a minha mão, uma mulher, provavelmente sua esposa, disse-me: “não dê o dinheiro não moço, porque ele vai comprar pinga”. Bem, deixei de ofertar as moedas para aquele homem, mas creio que o Leviatã pouco ou nada fez por sua vida.

Mas não quero aqui analisar a hipocrisia do Estado. Quero aqui confessar a minha, analisando este ocorrido. A oferta das moedas, não estava ali sendo feita com a intenção de aliviar a dor alheia, mas sim, com a mesquinha postura de, com aquele gesto, conseguir retirar aquela pessoa que estava na minha frente para que a sua imagem não mais incomodasse minha vista, tal qual o flâneur do Charles Baudelaire. Não me compadeci da mulher que me falou sobre o possível destino dos trocados. Apenas retirei-me com pseudo-ares de indignação farisaica.

Não tive misericórdia daquele casal, daquela mulher sofredora, pois, em minha indecência existencial, ela havia permitido com sua declaração que eu realizasse, sem peso para minha consciência, o que eu queria desde o princípio sem declarar publicamente a ninguém: retirar ambos do raio de percepção das janelas de minha alma pérfida.

Creio que eu não seja o único a carregar esta mácula no coração, como também creio piamente que estas campanhas de combate à oferta de esmolas geram apenas situações similares, trazendo uma boa justificativa para aliviar o nosso sentimento de culpa em relação à tragédia vivida pelo nosso próximo sem, obviamente, aliviar a penúria destes viventes.

Neste ínterim, cremos que as palavras do finado Sumo Pontífice João Paulo II em sua Encíclica DIVES IN MISERICORDIA são laminares quando este nos diz que: “A verdade revelada por Cristo a respeito de Deus 'Pai das misericórdias', permite-nos 'vê-l'O' particularmente próximo do homem, sobretudo quando este sofre, quando é ameaçado no próprio coração da sua existência e da sua dignidade”.

Eis aí o ponto nevrálgico da questão, que é o despertar de nossas vidas para esta prática, para esta vivência. Entendamos por misericórdia não os fingimentos mencionados, mas todos os laços que ligam os membros de uma comunidade como o favor, a benevolência, o afeto e a bondade (ver: Gêneses XX, 13; XLVII, 29). E, em ambos os casos mencionados, o da campanha e o da prática da oferta de esmolas, estamos mais e mais a nos afastar desta dádiva Divinal, não é mesmo?

Ora, ao invés de termos uma campanha combatendo a oferta de esmolas, porque não temos uma do tipo “adote uma família?” Isso, ao invés do Estado fazer-se assistencial, pessoas como eu e você poderiam agir de modo providencial não apenas ofertando pão, mas também e principalmente, uma palavra, um ombro amigo, um conselho, em fim, um tratamento dignamente humano, reintegrando-as na vida em comunidade. Não seria a hora de nós não mais apenas ofertarmos pão e sim uma palavra de consolo e motivação para que estas pessoas até então desdenhadas por nós possam reencontrar a senda de sua dignidade até então perdida? E, se lembramos bem, Cristo Jesus havia dito que não é apenas de pão que vive o homem, não é mesmo?

Por fim, de hipócrita para hipócrita, sejamos sinceros: você, tal qual a minha pessoa, vai continuar com a alma em estado de letargia existencial ou vai deixar-se sensibilizar pela Palavra da Verdade revelada pelo exemplo de Nosso Senhor fartamente descrita na Sagrada Escritura? Sei que tal reflexão é infinitamente inútil nos dias atuais e, provavelmente tais práticas também o sejam. Porém, não nos esqueçamos nunca que basta a luz de uma vela para quebrar com a continuidade das trevas.

Esta vela pode ser você.

Existem muitas obras por serem feitas pelas mãos humanas neste mundo. Obras que requerem muito mais do que recursos de ordem financeira, trabalhos que requerem muito mais do que apenas vontade. Estas tarefas, impossíveis de serem numeradas, que convocam as mãos humanas ao labor, chamam nossas almas a verterem através de nossos gestos uma gota de misericórdia (ao menos) pelo próximo.

Tomamos como exemplo laminar desta carência, as inúmeras campanhas que já há alguns anos desestimulam os indivíduos a ofertarem esmolas aos indigentes que suplicam por um gesto de caridade. Aí, fico cá eu com meus botões a refletir: nós deixamos de estender a nossa mão para o indivíduo espoliado para que o Estado passe a carrega-lo no colo. Não é isso que está ocorrendo? Não é nisso que o nosso Estado está, dia após dia, se transformando?

Obviamente que a prática hipócrita de ofertar a uma pessoa algumas moedas não irá lhe retirar da miséria e muito menos resolver os seus problemas, pois, gestos como este acabam trazendo mais uma espécie de conforto fingido para nossas almas do que alguma resolução para a vida do cidadão expropriado de sua dignidade que, em muitíssimos casos, fará uso do dinheiro ofertado para comprar um gole de cachaça barata para aliviar a sua infelicidade.

Lembro-me como se fosse hoje da imagem de um senhor, com a face e os lábios feridos, de passo cambaleante, que, em uma manhã qualquer havia me abordado solicitando algumas moedas. Mais que depressa lhe ofertei alguns trocados e, no mesmo instante em que eu havia estendido a minha mão, uma mulher, provavelmente sua esposa, disse-me: “não dê o dinheiro não moço, porque ele vai comprar pinga”. Bem, deixei de ofertar as moedas para aquele homem, mas creio que o Leviatã pouco ou nada fez por sua vida.

Mas não quero aqui analisar a hipocrisia do Estado. Quero aqui confessar a minha, analisando este ocorrido. A oferta das moedas, não estava ali sendo feita com a intenção de aliviar a dor alheia, mas sim, com a mesquinha postura de, com aquele gesto, conseguir retirar aquela pessoa que estava na minha frente para que a sua imagem não mais incomodasse minha vista, tal qual o flâneur do Charles Baudelaire. Não me compadeci da mulher que me falou sobre o possível destino dos trocados. Apenas retirei-me com pseudo-ares de indignação farisaica.

Não tive misericórdia daquele casal, daquela mulher sofredora, pois, em minha indecência existencial, ela havia permitido com sua declaração que eu realizasse, sem peso para minha consciência, o que eu queria desde o princípio sem declarar publicamente a ninguém: retirar ambos do raio de percepção das janelas de minha alma pérfida.

Creio que eu não seja o único a carregar esta mácula no coração, como também creio piamente que estas campanhas de combate à oferta de esmolas geram apenas situações similares, trazendo uma boa justificativa para aliviar o nosso sentimento de culpa em relação à tragédia vivida pelo nosso próximo sem, obviamente, aliviar a penúria destes viventes.

Neste ínterim, cremos que as palavras do finado Sumo Pontífice João Paulo II em sua Encíclica DIVES IN MISERICORDIA são laminares quando este nos diz que: “A verdade revelada por Cristo a respeito de Deus 'Pai das misericórdias', permite-nos 'vê-l'O' particularmente próximo do homem, sobretudo quando este sofre, quando é ameaçado no próprio coração da sua existência e da sua dignidade”.

Eis aí o ponto nevrálgico da questão, que é o despertar de nossas vidas para esta prática, para esta vivência. Entendamos por misericórdia não os fingimentos mencionados, mas todos os laços que ligam os membros de uma comunidade como o favor, a benevolência, o afeto e a bondade (ver: Gêneses XX, 13; XLVII, 29). E, em ambos os casos mencionados, o da campanha e o da prática da oferta de esmolas, estamos mais e mais a nos afastar desta dádiva Divinal, não é mesmo?

Ora, ao invés de termos uma campanha combatendo a oferta de esmolas, porque não temos uma do tipo “adote uma família?” Isso, ao invés do Estado fazer-se assistencial, pessoas como eu e você poderiam agir de modo providencial não apenas ofertando pão, mas também e principalmente, uma palavra, um ombro amigo, um conselho, em fim, um tratamento dignamente humano, reintegrando-as na vida em comunidade. Não seria a hora de nós não mais apenas ofertarmos pão e sim uma palavra de consolo e motivação para que estas pessoas até então desdenhadas por nós possam reencontrar a senda de sua dignidade até então perdida? E, se lembramos bem, Cristo Jesus havia dito que não é apenas de pão que vive o homem, não é mesmo?

Por fim, de hipócrita para hipócrita, sejamos sinceros: você, tal qual a minha pessoa, vai continuar com a alma em estado de letargia existencial ou vai deixar-se sensibilizar pela Palavra da Verdade revelada pelo exemplo de Nosso Senhor fartamente descrita na Sagrada Escritura? Sei que tal reflexão é infinitamente inútil nos dias atuais e, provavelmente tais práticas também o sejam. Porém, não nos esqueçamos nunca que basta a luz de uma vela para quebrar com a continuidade das trevas.

Esta vela pode ser você.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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