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21 Jun 2004

Nacionalismo às Avessas

Escrito por 

Olavo de Carvalho explica como as idéias de muitos nacionalistas brasileiros - como o anti-americanismo - ao invés de combater contribuem para a perda da soberania nacional e a hegemonia da globalização socialista.

Neste país, os nacionalistas estão entre os melhores agentes da destruição da soberania nacional. Ninguém melhor que eles se encaixa na categoria leninista dos idiotas úteis. Desinformados, congelados hipnoticamente no anti-americanismo no tempo do “Petróleo é Nosso”, continuam atirando insultos contra os EUA, na ilusão de assim estar acertando golpes mortais no centro vivo do poder global, pelo simples fato de que ignoram onde este se localiza hoje em dia e quais as relações que mantêm com o governo americano.

Uma verdadeira síntese dos seus erros encontra-se no artigo “O maior escândalo da história” publicado em 15 de junho no jornal O Estado de Minas por um comentarista que  assina, significativamente, “Leandro Nacionalista”, fundador do movimento “A Nova Inconfidência”.

A juventude do autor e sua óbvia sinceridade, que o distingue dos confusionistas profissionais, explicam que no seu artigo uma visão totalmente falseada da realidade venha expressa de maneira direta e ingênua, facilitando o seu desmascaramento crítico, ao contrário do que acontece nos escritos dos espertalhões, onde os pressupostos falsos vêm encobertos por mil e um subterfúgios e eufemismos. Por isso mesmo, vale a pena examiná-lo: corrigir os erros onde eles aparecem à mostra ensina a discerni-los melhor onde venham camuflados.

O maior escândalo da história mundial (e que hoje afeta diretamente todos os países) ocorreu em Bretton Woods, Estados Unidos, em 1944. Nesta  conferência, quando foram criados o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, havia o projeto da criação de uma moeda internacional neutra, porque seria inconcebível a idéia de que a moeda de um país fosse transformada em moeda internacional.

O objetivo essencial da conferência não foi impor esta ou aquela moeda nacional como padrão internacional, mas trocar a moeda lastreada em ouro pela moeda fiduciária, isto é, aquela que não tem lastro nenhum e cujo valor é estabelecido por mero decreto (no caso, decreto do próprio FMI).

Porém, os Estados Unidos, que naquela época detinham a bomba atômica em caráter de exclusividade, o maior exército do mundo e mais da metade da produção da humanidade (52% do Produto Mundial Bruto) impuseram o dólar como moeda internacional.

O projeto não foi do governo americano, mas de um grupo de banqueiros privados, americanos e europeus, e seu objetivo não foi de modo algum favorecer a economia americana, mas sim transferir o controle dela, do livre mercado, para esse grupo de banqueiros, que já tinham feito operação semelhante dentro dos EUA ao criar o FRS (Federal Reserve System), um banco central privado sob o comando deles.

A instituição mundial da moeda fiduciária não poderia trazer vantagem nenhuma ao país que, na época, tinha as maiores reservas de ouro. Bem ao contrário, transferia o poder econômico da nação americana para uma instituição privada sob o comando de banqueiros internacionais: Morgan, Warburg, Rothschild, Rockefeller e tutti quanti.

O próprio articulista admite que, depois disso, a situação econômica dos EUA piorou formidavelmente. Não só o dólar se desvalorizou muito, mas  “hoje as coisas estão absolutamente diferentes. Os EUA têm 21% da produção mundial e o exército dos EUA não pode ser considerado um poder militar que tenha condições de impor facilmente a sua vontade.”

No entanto, ele parece incapaz de tirar as conclusões óbvias dos fatos que relata. Tanto que, linhas adiante, afirma que  “a única coisa que hoje mantém a hegemonia dos EUA é o dólar como moeda internacional. Eles podem comprar indústrias, arsenais bélicos, comércio, políticos, meios de comunicação, petróleo, enfim, todas as riquezas do mundo, financiar eleições e entidades internacionais como a ONU e o FMI etc.”

Se o dólar de Bretton Woods diminuiu a participação americana na economia mundial de 52%  para 21%, como pode ele ser a base do poderio americano? Essa crença é tão absurda, tão boboca, que só pode ser explicada pelo dano que a psicose anti-americana traz ao cérebro dos nossos nacionalistas. Se algo está claro nos resultados de Bretton Woods é que eles não só debilitaram o poder americano, mas ainda tornaram o governo dos EUA um devedor perpétuo dos banqueiros internacionais.

Esses resultados aliás eram bastante previsíveis a quem conhecesse a simples identidade dos dois mentores principais da conferência. John Maynard Keynes era um socialista fabiano, persuadido de que o socialismo não seria implantado por meio de revoluções e sim do progressivo e indolor acúmulo de controles burocráticos sobre a economia mundial (o símbolo do fabianismo era uma tartaruga). A criação do FMI era uma etapa importante desse processo. O outro fundador, Harry Dexter White, era nada menos que um agente do serviço secreto soviético. Na época, havia uma vaga suspeita disso, mas o  presidente Truman se recusou a levá-la a sério. Em 11 de dezembro de 1995 a publicação das decodificações de telegramas trocados entre o governo soviético e seus agentes nos EUA trouxe a prova definitiva de que White não era apenas um simpatizante ou “companheiro de viagem” do Partido Comunista, mas um agente soviético profissional (v. Eric Romerstein & Eric Breindel, “The Venona Secrets”). Quanto aos grandes banqueiros por trás do empreendimento, foram os mesmos que desde o começo do século lutavam por políticas estatizantes e centralizadoras, contra o livre mercado, os mesmos que tinham subsidiado generosamente a revolução russa e os mesmos que, hoje, financiam os movimentos de esquerda no terceiro mundo. A história é contada em detalhes no livro de G. Edward Griffin, “The Creature from Jekkyl Island”.

Se os EUA ainda conservam algum poder é a despeito dessas criaturas e de sua conferência de Bretton Woods, e não graças a elas.

Para isto gastam apenas papel e tinta (sem lastro e fiscalização). Os Estados Unidos são, como diz Joelmir Beting, a Casa da Moeda do Mundo. Além disso, ainda se arrogam, sem nenhuma base legal ou moral, o direito de cobrar sobre este dinheiro os juros que bem entenderem. Os resultados destes juros sobre moeda internacional têm se revertido para os EUA e não para o mundo.

A vox populi americana define o FMI como uma entidade dedicada a “tirar o dinheiro das pessoas pobres nos países ricos para dá-lo às pessoas ricas nos países pobres”. Isso mostra a consciência geral de que a economia americana nada ganha com a política do FMI. É verdade que, pelo mundo, circula muito dinheiro americano sem lastro. Mas esse dinheiro não é impresso pelo governo americano, e sim pelo CFR. Ao fazer negócios com essa moeda, o governo americano acumúla débitos para com os bancos internacionais. É absurdo dizer que “os resultados dos juros sobre moeda internacional têm revertido para os EUA e não para o mundo”, quando o governo dos EUA não é recebedor e sim pagador de juros. Os países pobres endividados queixam-se com justa razão, mas acusam o bandido errado. A dívida americana para com o lobby bancário internacional é maior que a de todos eles juntos. O nacionalista brasileiro, desnorteado pelo fato de que a maior parte dos grandes bancos envolvidos na coisa têm sede nos EUA, mistura tudo numa pasta só e chama os banqueiros de “os americanos”. É verdade que, com dólares sem lastro, o governo dos EUA subsidia organismos internacionais como a ONU. Mas é preciso ser muito cretino para não perceber que esses organismos não trabalham para ele e sim contra ele. A ONU é hoje o centro da mobilização anti-americana internacional. Mas tanto ela quanto os outros organismos internacionais trabalham em intensa parceria com os grandes bancos, buscando drenar recursos americanos (e, através disso, os de outros países devedores, isto é, devedores aparentes dos EUA e genuínos do FED) para a constituição de um governo mundial. O projeto já está em implantação muito avançada, e uma de suas realizações mais importantes é o Tribunal Penal Internacional, cuja autoridade se sobrepõe à de todos os governos nacionais.

Bill Clinton assinou o pré–tratado de constituição desse Tribunal. Se George W. Bush tivesse assinado o documento final, qualquer presidente americano poderia ser destituído por uma sentença de um Tribunal de Genebra. Seria, literalmente, o fim da soberania americana. Se o governo americano subsidia as entidades que produzem esse estado de coisas, não o faz, evidentemente, em vantagem própria, mas levado a isso pela poderosa influência de um lobby bancário patentemente internacionalista e anti-americano.

Portugal, por exemplo, levava as riquezas do Brasil.  Os EUA não estão satisfeitos em levar as riquezas do Brasil e estão se utilizando agora do Projeto Neoliberal para acabar com a economia brasileira. A base do Projeto Neoliberal é a Globalização. A Globalização é todos os países abrirem todas as suas riquezas para quem tiver melhores condições de comprar. E quem é que tem melhores condições de comprar? Exatamente o país que emite a moeda que é dono da Casa da Moeda do Mundo. A Globalização, dentro das idéias que estão aí, é absolutamente inviável. Esse Projeto de destruição nacional é até explícito. Henry Kissinger que era o homem mais poderoso do governo dos Estados Unidos (ex Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional) ao se referir ao Brasil, disse, com todas as letras, em público : "Os Estados Unidos não permitirão o aparecimento de um novo Japão abaixo da linha do Equador".

Há duas opções para a construção da nova Ordem Econômica Mundial: a convocação de todos os países para esse fim (moeda internacional neutra), ou a extensão do euro para todas as nações. O euro já serve a muitos países e, não sendo uma moeda nacional, pode servir a todos os países.

A moeda nacional de um país transformada em moeda internacional é o maior instrumento de concentração de riqueza e de corrupção até hoje criado pela humanidade porque toda a economia do mundo fica a serviço do dono da Casa da Moeda do Mundo. Acabada a hegemonia do dólar acaba a hegemonia dos EUA.

Não é possível negar racionalmente que o uso do dólar sem lastro como moeda internacional foi o instrumento usado pelo socialismo fabiano para enfraquecer a economia americana e criar, ao longo de meio século, um poder internacional capaz de ameaçar a soberania dos EUA – um perigo que, em 1944, alguns analistas já apontaram com toda clareza, mas no qual a opinião pública se recusou a acreditar. Os nacionalistas brasileiros entendem tudo ao contrário. O jovem “Leandro Nacionalista”, querendo proteger o Brasil contra as ambições globalistas, acha que o dólar nos escraviza aos EUA e que a solução é adotar uma moeda internacional neutra ou “a extensão do euro para todas as nações”. Com dólar ou com euro, quem ganha não são os EUA e sim o núcleo internacionalista que inventou Bretton Woods, a ONU, a Comunidade Européia... e o euro. A força do globalismo não está no dólar nem no euro, mas na moeda fiduciária internacional – qualquer que seja ela – e no poder de fixar o seu valor independentemente do lastro em riquezas materiais. Com a introdução da moeda fiduciária, o poder econômico propriamente dito – a posse de riquezas – perde eficácia, e seus meios de ação são transferidos para um poder de outra natureza, isto é, político, jurídico, administrativo e burocrático. Em riqueza material, ninguém pode com os EUA, mas o poder burocrático não está nos EUA, está com os banqueiros globalistas e com os organismos internacionais que eles criaram, isto é, com a central mesma do anti-americanismo no mundo. É a este poder que os nacionalistas brasileiros servem, porque só são nacionalistas o bastante para gritar slogans contra o primeiro bode expiatório que lhes seja apontado pela grande mídia internacional (ela mesma um instrumento da central globalista e portanto do anti-americanismo), mas não para estudar as complexidades da situação real e identificar nela, trabalhosamente, os verdadeiros perigos que ameaçam nosso país. Nesse sentido, só são nacionalistas subjetivamente, isto é, nas suas imaginações. Objetivamente, são agentes do poder globalista -- idiotas úteis no mais pleno sentido da palavra.


Fonte: MSM

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, estado de São Paulo, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros. A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia "científica". Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um formulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica.

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