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03 Mar 2007

A Mácula na Imagem

Escrito por 
Porém, a capacidade de refrearmos os nossos impulsos naturais foi a grande passada dada pela espécie humana que nos distanciou da animalidade.

Uma das maiores conquistas obtidas pela humanidade em sua jornada por este pequeno planeta perdido em meio ao infinito do Universo é a capacidade de auto-controle. Roda, domínio do fogo, agricultura, metalurgia, etc., foram conquistas significativas, não há dúvida alguma sobre isso. Porém, a capacidade de refrearmos os nossos impulsos naturais foi a grande passada dada pela espécie humana que nos distanciou da animalidade.

Quem nos explica este fenômeno com grande propriedade é o sociólogo Norbert Elias que, nos lembra em suas laudas sapienciais que o nascimento da civilização humana tem início a partir do momento em que o ser humano começa a criar sistemas normativos e interiorizá-los. Deste modo, estas estruturas culturais passam a fazer parte de sua individualidade que, por sua deixa, passa a integrar um grupo de individualidades ao qual chamamos de sociedade onde este elemento passa a manter uma ampla relação de interdependência com os membros da referida coletividade e bem como para com o meio onde esta coletividade se encontra inserida.

Mas, para tanto, há-se a necessidade de termos o controle individual (auto-controle) de nossas pulsões que se dá através deste processo de interiorização dos valores edificados pelos indivíduos em seu convívio grupal através de gerações.

Ora, Santo Deus! A civilização a qual integramos hoje, com todas as suas virtudes e decrepitudes, não surgiram do nada, ao acaso. Ela é fruto de um grande esforço coletivo, milenar, que vem se formando a passos lentos sob a influência de múltiplos grupos de indivíduos e mesmo de indivíduos singulares que moldaram parcialmente e de modo totalmente indeterminado os caminhos que seriam singrados pela espécie humana.

Vocês não acham que os Gregos, Romanos, Judeus e primeiros Cristãos imaginavam que o mundo se tornaria tal qual ele é hoje? Do mesmo modo, nós temos apenas uma vaga idéia de como será o amanhã, mesmo que estejamos a fazer inúmeros planos pretensamente precisos, pois, a sua forma escapará por entre nossos dedos como a fina areia do deserto, do mesmo modo que ocorreu com as gerações que nos antecederam neste trilhar do deserto da existência.

Entretanto, em algo cremos ser correto afirmar. Se o que nos levou a avançar no processo civilizador foi à gênese e o respectivo progresso do auto-controle, podemos concluir que o desdém a esta categoria de nossa existência demasiadamente humana poderá levar-nos a passos largos a um retorno irrefreável ao estado da barbárie. Por isso nos indagamos, de modo amiúde: em que medida nós, pais e professores temos ensinado as gerações de idade mais tenra esta lição?

Apenas para ilustrar, lembramos aqui que as Religiões Tradicionais de um modo geral (não essas coisas biônicas criadas no vácuo do acaso pós-moderno), sempre ministraram lições que ensinam isto para os seus adeptos. Sobre isso, nos detenhamos apenas neste libelo ao caso da tradição Cristã Católica. Meditemos sobre o caso do Tempo da Quaresma.

Iremos nos esquivar nestas linhas das reflexões sobre o profundo significado místico e simbólico deste Tempo. Procuraremos apenas lembrar a grande contribuição que as práticas ascéticas que eram realizadas neste período no ensino do auto-controle dos nossos impulsos primários. O jejum, a abstenção de carne vermelha, em fim, as mais variadas formas de auto-sacrifício levavam o indivíduo por si a dominar as suas fraquezas e a meditar sobre a nossa debilitada condição humana.

Isso mesmo, ao que tudo indica, levava. Não leva mais. O sentido do auto-sacrifício perdeu muito do seu significado original. Mesmo o discurso sobre a necessidade de sua prática tornou-se mais ameno, para não dizer mais “superficial”, não é mesmo?

Tal fato, nada mais seria que um reflexo da circunstância de decrepitude em que se encontra a Civilização Ocidental onde dia após dia o lema “é proibido proibir”, gritado em maio de 1968, vem tomando mais e mais corpo, dando forma a esta enfermidade que infecta a todos em um misto turvo de consumismo parvo com a sanha hipócrita-revolucionária. Tudo muito bem temperado com o mais pérfido hedonismo.

Por fim, este é o mundo que estamos parindo com os nossos pequenos atos norteados pela mera satisfação irrefletida de nossos impulsos primários e imediatistas. Neste contexto, tudo se tornou chato se não for espetacularizado. Estudar tornou-se enfadonho. Rezar, para muitos fiéis, também. E, como o filósofo espanhol Julian Marías nos alertou em uma de suas conferências que, este cenário turvo que se desenha hoje é ainda um cenário que tem como pano de fundo os valores civilizacionais, mesmo que em decadência.

Agora, imaginem. Repito: imaginem o desenvolvimento deste cenário em um momento em que não mais exista este decadente pano de fundo. Será a barbárie? Não sei. Depende das escolhas que eu e você fizermos no correr de nossa mísera existência e do lugar que reservarmos para o auto-controle neste nosso percurso e, o Tempo da Quaresma, creio eu, seja um ótimo momento para refletirmos sobre isso.

Uma das maiores conquistas obtidas pela humanidade em sua jornada por este pequeno planeta perdido em meio ao infinito do Universo é a capacidade de auto-controle. Roda, domínio do fogo, agricultura, metalurgia, etc., foram conquistas significativas, não há dúvida alguma sobre isso. Porém, a capacidade de refrearmos os nossos impulsos naturais foi a grande passada dada pela espécie humana que nos distanciou da animalidade.

Quem nos explica este fenômeno com grande propriedade é o sociólogo Norbert Elias que, nos lembra em suas laudas sapienciais que o nascimento da civilização humana tem início a partir do momento em que o ser humano começa a criar sistemas normativos e interiorizá-los. Deste modo, estas estruturas culturais passam a fazer parte de sua individualidade que, por sua deixa, passa a integrar um grupo de individualidades ao qual chamamos de sociedade onde este elemento passa a manter uma ampla relação de interdependência com os membros da referida coletividade e bem como para com o meio onde esta coletividade se encontra inserida.

Mas, para tanto, há-se a necessidade de termos o controle individual (auto-controle) de nossas pulsões que se dá através deste processo de interiorização dos valores edificados pelos indivíduos em seu convívio grupal através de gerações.

Ora, Santo Deus! A civilização a qual integramos hoje, com todas as suas virtudes e decrepitudes, não surgiram do nada, ao acaso. Ela é fruto de um grande esforço coletivo, milenar, que vem se formando a passos lentos sob a influência de múltiplos grupos de indivíduos e mesmo de indivíduos singulares que moldaram parcialmente e de modo totalmente indeterminado os caminhos que seriam singrados pela espécie humana.

Vocês não acham que os Gregos, Romanos, Judeus e primeiros Cristãos imaginavam que o mundo se tornaria tal qual ele é hoje? Do mesmo modo, nós temos apenas uma vaga idéia de como será o amanhã, mesmo que estejamos a fazer inúmeros planos pretensamente precisos, pois, a sua forma escapará por entre nossos dedos como a fina areia do deserto, do mesmo modo que ocorreu com as gerações que nos antecederam neste trilhar do deserto da existência.

Entretanto, em algo cremos ser correto afirmar. Se o que nos levou a avançar no processo civilizador foi à gênese e o respectivo progresso do auto-controle, podemos concluir que o desdém a esta categoria de nossa existência demasiadamente humana poderá levar-nos a passos largos a um retorno irrefreável ao estado da barbárie. Por isso nos indagamos, de modo amiúde: em que medida nós, pais e professores temos ensinado as gerações de idade mais tenra esta lição?

Apenas para ilustrar, lembramos aqui que as Religiões Tradicionais de um modo geral (não essas coisas biônicas criadas no vácuo do acaso pós-moderno), sempre ministraram lições que ensinam isto para os seus adeptos. Sobre isso, nos detenhamos apenas neste libelo ao caso da tradição Cristã Católica. Meditemos sobre o caso do Tempo da Quaresma.

Iremos nos esquivar nestas linhas das reflexões sobre o profundo significado místico e simbólico deste Tempo. Procuraremos apenas lembrar a grande contribuição que as práticas ascéticas que eram realizadas neste período no ensino do auto-controle dos nossos impulsos primários. O jejum, a abstenção de carne vermelha, em fim, as mais variadas formas de auto-sacrifício levavam o indivíduo por si a dominar as suas fraquezas e a meditar sobre a nossa debilitada condição humana.

Isso mesmo, ao que tudo indica, levava. Não leva mais. O sentido do auto-sacrifício perdeu muito do seu significado original. Mesmo o discurso sobre a necessidade de sua prática tornou-se mais ameno, para não dizer mais “superficial”, não é mesmo?

Tal fato, nada mais seria que um reflexo da circunstância de decrepitude em que se encontra a Civilização Ocidental onde dia após dia o lema “é proibido proibir”, gritado em maio de 1968, vem tomando mais e mais corpo, dando forma a esta enfermidade que infecta a todos em um misto turvo de consumismo parvo com a sanha hipócrita-revolucionária. Tudo muito bem temperado com o mais pérfido hedonismo.

Por fim, este é o mundo que estamos parindo com os nossos pequenos atos norteados pela mera satisfação irrefletida de nossos impulsos primários e imediatistas. Neste contexto, tudo se tornou chato se não for espetacularizado. Estudar tornou-se enfadonho. Rezar, para muitos fiéis, também. E, como o filósofo espanhol Julian Marías nos alertou em uma de suas conferências que, este cenário turvo que se desenha hoje é ainda um cenário que tem como pano de fundo os valores civilizacionais, mesmo que em decadência.

Agora, imaginem. Repito: imaginem o desenvolvimento deste cenário em um momento em que não mais exista este decadente pano de fundo. Será a barbárie? Não sei. Depende das escolhas que eu e você fizermos no correr de nossa mísera existência e do lugar que reservarmos para o auto-controle neste nosso percurso e, o Tempo da Quaresma, creio eu, seja um ótimo momento para refletirmos sobre isso.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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