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19 Fev 2007

O Empobrecimento do Samba-Enredo

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O samba-enredo pede socorro, ao lado das marchinhas e sambas carnavalescos que ele próprio, por uma ironia, ajudou a destruir, a partir dos anos 70.

Tendo um piano sempre à frente e música por perto desde que fui gerado e sendo carnaval, vou deixar de lado a economia e comentar a deterioração melódica, harmônica e rítmica, bastante perceptível, dos sambas-enredo das escolas cariocas. Em quem pôr a culpa por sua progressiva transformação quase que em marchas? Em Bush? No “aquecimento global”? No “neoliberalismo”? Ou, talvez, no dólar desvalorizado? Ou, ainda, nos malvados do Copom?

O samba – e a música, em geral - é uma ordem espontânea, ou seja, um fenômeno que, embora gerado pela ação humana, não é fruto de planejamento deliberado e, portanto, evolve naturalmente ao longo do tempo, tal como a linguagem. Para decepção dos que vêem ideologia até em um simples sanduíche de mortadela, as causas do empobrecimento do samba-enredo são mais simples: a imposição de regras e mais regras aos desfiles, em clara interferência externa na ordem espontânea, descaracterizando-a, fato agravado pelo Sambódromo e as alterações que provocou, especialmente nos critérios de cronometragem dos desfiles, cada vez mais parecidos com competições de atletismo; a descabida apropriação do evento por parte de uma solitária emissora de TV, que impõe às escolas os seus critérios comerciais e éticos (sic); a politização crescente dos enredos, cujo exemplo mais contundente ocorreu em 2006, quando o neoditador da Venezuela financiou a Vila Isabel para enaltecer Simon Bolívar e vencer o desfile; a invasão de gente que jamais participou de uma roda de samba genuína ou subiu em uma favela; a escolha de “jurados” por critérios duvidosos; a transformação do espetáculo em um show business de cores, luzes, artistas plásticos e de novelas, “madrinhas”, nudez, sexo, devassidão, depravação, luxúria e hedonismo, que fulminou os antigos bailes dos clubes e os tradicionais sambas e marchinhas (de que Lamartine e Braguinha foram as maiores expressões), distanciando-o cada vez mais da sua origem genuinamente negra e da sua pureza sadia.

Os primeiros sambas-enredo remontam a 1933, na Unidos da Tijuca e na Mangueira (composto por Carlos Cachaça), com letras de temática patriótica, exaltando as belezas e riquezas do Brasil, característica dos desfiles até os anos 70. No início, as músicas não possuíam segunda parte, que era improvisada durante os desfiles, a exemplo do que ainda fazem os geniais repentistas nordestinos. Com a obrigatoriedade de uma segunda parte não improvisada, os sambistas passaram a ter que pesquisar em livros para comporem longas letras, prática que Sérgio Porto, décadas depois, com sua irreverência, glosou em um famoso samba, que hoje talvez chamasse, para ser “politicamente correto”, de “Samba do Afro-Descendente Aloprado”...

As linhas melódicas, até os anos 60, eram ricas, freqüentemente com modulações em tons menores e estruturadas sobre um andamento lento, com riqueza harmônica (vários acordes), em contraposição aos sambas-enredo atuais, cada vez mais ligeiros (em breve chegarão ao prestissimo) e pobres de melodia e harmonia. As letras foram se tornando cada vez mais simples, formadas por colagens, justaposição de palavras e recursos abusivos a refrões, para tentar empolgar a platéia, formada em sua maioria por turistas e pessoas sem qualquer ligação com as raízes do processo espontâneo de criação. Malgrado seu esplendor, os desfiles na Sapucaí transformaram-se em correrias loucas contra o tempo, prejudicando, pela velocidade e compactação exigidas, a qualidade das letras e os três elementos essenciais da arte musical - melodia, harmonia e ritmo. Pode ter crescido como espetáculo, mas perdeu em qualidade musical.

O samba-enredo pede socorro, ao lado das marchinhas e sambas carnavalescos que ele próprio, por uma ironia, ajudou a destruir, a partir dos anos 70. É preciso salvá-lo e resgatar as marchinhas e sambas de carnaval, deixando fluir a espontaneidade, como os blocos vêm fazendo.

Tendo um piano sempre à frente e música por perto desde que fui gerado e sendo carnaval, vou deixar de lado a economia e comentar a deterioração melódica, harmônica e rítmica, bastante perceptível, dos sambas-enredo das escolas cariocas. Em quem pôr a culpa por sua progressiva transformação quase que em marchas? Em Bush? No “aquecimento global”? No “neoliberalismo”? Ou, talvez, no dólar desvalorizado? Ou, ainda, nos malvados do Copom?

O samba – e a música, em geral - é uma ordem espontânea, ou seja, um fenômeno que, embora gerado pela ação humana, não é fruto de planejamento deliberado e, portanto, evolve naturalmente ao longo do tempo, tal como a linguagem. Para decepção dos que vêem ideologia até em um simples sanduíche de mortadela, as causas do empobrecimento do samba-enredo são mais simples: a imposição de regras e mais regras aos desfiles, em clara interferência externa na ordem espontânea, descaracterizando-a, fato agravado pelo Sambódromo e as alterações que provocou, especialmente nos critérios de cronometragem dos desfiles, cada vez mais parecidos com competições de atletismo; a descabida apropriação do evento por parte de uma solitária emissora de TV, que impõe às escolas os seus critérios comerciais e éticos (sic); a politização crescente dos enredos, cujo exemplo mais contundente ocorreu em 2006, quando o neoditador da Venezuela financiou a Vila Isabel para enaltecer Simon Bolívar e vencer o desfile; a invasão de gente que jamais participou de uma roda de samba genuína ou subiu em uma favela; a escolha de “jurados” por critérios duvidosos; a transformação do espetáculo em um show business de cores, luzes, artistas plásticos e de novelas, “madrinhas”, nudez, sexo, devassidão, depravação, luxúria e hedonismo, que fulminou os antigos bailes dos clubes e os tradicionais sambas e marchinhas (de que Lamartine e Braguinha foram as maiores expressões), distanciando-o cada vez mais da sua origem genuinamente negra e da sua pureza sadia.

Os primeiros sambas-enredo remontam a 1933, na Unidos da Tijuca e na Mangueira (composto por Carlos Cachaça), com letras de temática patriótica, exaltando as belezas e riquezas do Brasil, característica dos desfiles até os anos 70. No início, as músicas não possuíam segunda parte, que era improvisada durante os desfiles, a exemplo do que ainda fazem os geniais repentistas nordestinos. Com a obrigatoriedade de uma segunda parte não improvisada, os sambistas passaram a ter que pesquisar em livros para comporem longas letras, prática que Sérgio Porto, décadas depois, com sua irreverência, glosou em um famoso samba, que hoje talvez chamasse, para ser “politicamente correto”, de “Samba do Afro-Descendente Aloprado”...

As linhas melódicas, até os anos 60, eram ricas, freqüentemente com modulações em tons menores e estruturadas sobre um andamento lento, com riqueza harmônica (vários acordes), em contraposição aos sambas-enredo atuais, cada vez mais ligeiros (em breve chegarão ao prestissimo) e pobres de melodia e harmonia. As letras foram se tornando cada vez mais simples, formadas por colagens, justaposição de palavras e recursos abusivos a refrões, para tentar empolgar a platéia, formada em sua maioria por turistas e pessoas sem qualquer ligação com as raízes do processo espontâneo de criação. Malgrado seu esplendor, os desfiles na Sapucaí transformaram-se em correrias loucas contra o tempo, prejudicando, pela velocidade e compactação exigidas, a qualidade das letras e os três elementos essenciais da arte musical - melodia, harmonia e ritmo. Pode ter crescido como espetáculo, mas perdeu em qualidade musical.

O samba-enredo pede socorro, ao lado das marchinhas e sambas carnavalescos que ele próprio, por uma ironia, ajudou a destruir, a partir dos anos 70. É preciso salvá-lo e resgatar as marchinhas e sambas de carnaval, deixando fluir a espontaneidade, como os blocos vêm fazendo.

Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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