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15 Fev 2007

Uma Idéia Cambaleante

Escrito por 
Parece que a idéia de Deus anda um pouco vacilante nos dias que correm. Não passa mês sem que a imprensa chame alguém de prestígio para provar que a figurinha existe.

Parece que a idéia de Deus anda um pouco vacilante nos dias que correm. Não passa mês sem que a imprensa chame alguém de prestígio para provar que a figurinha existe. Há duas semanas, Veja convocou nada menos que um cientista, o biólogo americano Francis Collins, diretor do Projeto Genoma e um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano, em 2001. Até os 27 anos, Collins não acreditava em Deus: "Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios".

O douto cientista não deixa por menos: todo ateu é um insolente. Torquemada não diria melhor. E continua: "A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso". Pelo jeito, fez gazeta nas aulas de História. A idéia de Deus é dogmática e contrária a toda transformação. As igrejas sempre se opuseram ao progresso. A humanidade só conseguiu avançar desvencilhando-se da idéia de Deus. "Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam". O Dr. Collins está precisando de algumas aulas de lógica. Se a União Soviética de Stalin e a China de Mao afundaram, não foi por ausência de Deus. Mas pela inércia inerente aos regimes comunistas. Se falharam, foi por não saber exercitar a democracia e não por não ajoelhar-se ante um deus qualquer. Por outro lado, a China tem tido, nos últimos anos, um estrondoso sucesso econômico. Certamente não terá sido por voltar a acreditar em Deus.

Continua o cientista: "Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais". Onde está escrito isto? Em que tratado de gnoseologia? Em que tábuas da lei? A ciência, ou analisa todos os fenômenos que nos intrigam, ou não é ciência. Tentando ainda defender seu peixe, Collins afirma: "Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura". Wilberforce, vá lá. Mas madre Teresa é comprovadamente uma vigarista internacional. Chamar madre Teresa de coisa maravilhosa é coisa de intelectual que vive encerrado em uma torre de marfim e desconhece o mundo em que vive.

Collins ainda diz acreditar na Ressurreição. E não só: "Também acredito na Virgem Maria e em milagres". Ora, cientista que acredita em milagres descrê da ciência. Existindo o milagre, não existem leis. Não existindo leis, não existe ciência. "Quem é cristão acredita nesses dogmas – ou então não é cristão". É interessante a proposição do cientista. Porque a ciência não pode aceitar dogmas. Daí decorre que nenhum cristão pode ser cientista.

Collins certamente entende de seu campo, a biologia. Quando inventa de filosofar, revela-se um desastre. O time dos defensores do Altíssimo – como disse recentemente um sedizente filósofo – está demonstrando cansaço. Talvez seja por isso que volta cada vez mais freqüentemente à baila o argumento atribuído a Dostoievski, a necessidade moral de Deus. Como aquelas velhas patranhas tomistas de causa não-causada já não convencem ninguém, recorre-se agora à suposta argumentação de um ficcionista.

Isto é uma bobagem que os católicos gostam muito de empunhar. Querem colocar Deus como fundamento de toda ética, como se não pudesse existir ética sem a crença em Deus. "Se Deus não existe, tudo é permitido". Esta frase é imputada a Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov. Ora, ele jamais escreveu isto. Foi Sartre quem disse que ele havia escrito. Quem cita esta frase são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Recentemente, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Encontrei mais de 270 referências a deus – seja o próprio, seja em expressões como "meu Deus", e não encontrei nada semelhante.O mais próximo que existe é isto:

- Ivan Fiodorovitch ajuntou entre parêntesis que lá está toda a lei natural, de maneira que se você destrói no homem a fé na sua imortalidade, não somente o amor nele perecerá, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não existiria nada mais que fosse imoral ; tudo será autorizado, mesmo a antropofagia. E não é tudo : ele acaba afirmando que para todo indivíduo que não crê em Deus nem em sua própria imortalidade, a lei moral da natureza deveria imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa ; que o egoísmo, mesmo levado ao crime, deveria não somente ser autorizado, mas reconhecido como uma solução necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. Após um tal paradoxo, julgai, senhores, julgai o que nosso caro e excêntrico Ivan Fiodorovitch julga bom proclamar e suas eventuais intenções .

Mais adiante, Mitia se pergunta :

- Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade ? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem ! Mas como ele seria virtuoso sem Deus ?

Ou seja, a pergunta não é exatamente sobre Deus, mas sobre Deus e a imortalidade. E imortalidade significa punições e recompensas. Os teístas querem ver nos personagens de Dostoievski a impossíbilidade de uma ética sem Deus. No entanto, o que o autor empunha é a promessa de céu... ou de inferno. O fundamento de sua moral – ou da de Ivan Karamazov, como quisermos – não é exatamente Deus, mas a esperança ou o medo. Neste sentido, nós, ateus, não temos preocupação alguma. Não temos medo de nenhum inferno nem precisamos de recompensas futuras para sermos éticos. No fundo, o que o católico Dostoievski quer dizer é que todo ateu é necessáriamente imoral.

E isto é uma solene besteira.

Parece que a idéia de Deus anda um pouco vacilante nos dias que correm. Não passa mês sem que a imprensa chame alguém de prestígio para provar que a figurinha existe. Há duas semanas, Veja convocou nada menos que um cientista, o biólogo americano Francis Collins, diretor do Projeto Genoma e um dos responsáveis pelo mapeamento do DNA humano, em 2001. Até os 27 anos, Collins não acreditava em Deus: "Não passava de um rapaz insolente. Estava negando a possibilidade de haver algo capaz de explicar questões para as quais nunca encontramos respostas, mas que movem o mundo e fazem as pessoas superar desafios".

O douto cientista não deixa por menos: todo ateu é um insolente. Torquemada não diria melhor. E continua: "A busca por Deus sempre esteve presente na história e foi necessária para o progresso". Pelo jeito, fez gazeta nas aulas de História. A idéia de Deus é dogmática e contrária a toda transformação. As igrejas sempre se opuseram ao progresso. A humanidade só conseguiu avançar desvencilhando-se da idéia de Deus. "Civilizações que tentaram suprimir a fé e justificar a vida exclusivamente por meio da ciência – como, recentemente, a União Soviética de Stalin e a China de Mao – falharam". O Dr. Collins está precisando de algumas aulas de lógica. Se a União Soviética de Stalin e a China de Mao afundaram, não foi por ausência de Deus. Mas pela inércia inerente aos regimes comunistas. Se falharam, foi por não saber exercitar a democracia e não por não ajoelhar-se ante um deus qualquer. Por outro lado, a China tem tido, nos últimos anos, um estrondoso sucesso econômico. Certamente não terá sido por voltar a acreditar em Deus.

Continua o cientista: "Precisamos da ciência para entender o mundo e usar esse conhecimento para melhorar as condições humanas. Mas a ciência deve permanecer em silêncio nos assuntos espirituais". Onde está escrito isto? Em que tratado de gnoseologia? Em que tábuas da lei? A ciência, ou analisa todos os fenômenos que nos intrigam, ou não é ciência. Tentando ainda defender seu peixe, Collins afirma: "Apesar de tudo o que já aconteceu, coisas maravilhosas foram feitas em nome da religião. Pense em Madre Teresa de Calcutá ou em William Wilberforce, o cristão inglês que passou a vida lutando contra a escravatura". Wilberforce, vá lá. Mas madre Teresa é comprovadamente uma vigarista internacional. Chamar madre Teresa de coisa maravilhosa é coisa de intelectual que vive encerrado em uma torre de marfim e desconhece o mundo em que vive.

Collins ainda diz acreditar na Ressurreição. E não só: "Também acredito na Virgem Maria e em milagres". Ora, cientista que acredita em milagres descrê da ciência. Existindo o milagre, não existem leis. Não existindo leis, não existe ciência. "Quem é cristão acredita nesses dogmas – ou então não é cristão". É interessante a proposição do cientista. Porque a ciência não pode aceitar dogmas. Daí decorre que nenhum cristão pode ser cientista.

Collins certamente entende de seu campo, a biologia. Quando inventa de filosofar, revela-se um desastre. O time dos defensores do Altíssimo – como disse recentemente um sedizente filósofo – está demonstrando cansaço. Talvez seja por isso que volta cada vez mais freqüentemente à baila o argumento atribuído a Dostoievski, a necessidade moral de Deus. Como aquelas velhas patranhas tomistas de causa não-causada já não convencem ninguém, recorre-se agora à suposta argumentação de um ficcionista.

Isto é uma bobagem que os católicos gostam muito de empunhar. Querem colocar Deus como fundamento de toda ética, como se não pudesse existir ética sem a crença em Deus. "Se Deus não existe, tudo é permitido". Esta frase é imputada a Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov. Ora, ele jamais escreveu isto. Foi Sartre quem disse que ele havia escrito. Quem cita esta frase são geralmente pessoas que nunca leram Dostoievski e o citam de ouvir falar. Recentemente, me dei ao trabalho de reler Os Irmãos Karamazov para ver se Dostoievski havia realmente escrito tal bobagem. Encontrei mais de 270 referências a deus – seja o próprio, seja em expressões como "meu Deus", e não encontrei nada semelhante.O mais próximo que existe é isto:

- Ivan Fiodorovitch ajuntou entre parêntesis que lá está toda a lei natural, de maneira que se você destrói no homem a fé na sua imortalidade, não somente o amor nele perecerá, mas também a força de continuar a vida no mundo. Mais ainda, não existiria nada mais que fosse imoral ; tudo será autorizado, mesmo a antropofagia. E não é tudo : ele acaba afirmando que para todo indivíduo que não crê em Deus nem em sua própria imortalidade, a lei moral da natureza deveria imediatamente tornar-se o inverso absoluto da precedente lei religiosa ; que o egoísmo, mesmo levado ao crime, deveria não somente ser autorizado, mas reconhecido como uma solução necessária, a mais razoável e quase a mais nobre. Após um tal paradoxo, julgai, senhores, julgai o que nosso caro e excêntrico Ivan Fiodorovitch julga bom proclamar e suas eventuais intenções .

Mais adiante, Mitia se pergunta :

- Mas então, que se tornaria o homem, sem Deus e a imortalidade? Tudo é permitido e, conseqüentemente, tudo é lícito? (...) Que fazer, se Deus não existe, se Rakitine tem razão ao pretender que é uma idéia forjada pela humanidade ? Neste caso, o homem seria o rei da terra, do universo. Muito bem ! Mas como ele seria virtuoso sem Deus ?

Ou seja, a pergunta não é exatamente sobre Deus, mas sobre Deus e a imortalidade. E imortalidade significa punições e recompensas. Os teístas querem ver nos personagens de Dostoievski a impossíbilidade de uma ética sem Deus. No entanto, o que o autor empunha é a promessa de céu... ou de inferno. O fundamento de sua moral – ou da de Ivan Karamazov, como quisermos – não é exatamente Deus, mas a esperança ou o medo. Neste sentido, nós, ateus, não temos preocupação alguma. Não temos medo de nenhum inferno nem precisamos de recompensas futuras para sermos éticos. No fundo, o que o católico Dostoievski quer dizer é que todo ateu é necessáriamente imoral.

E isto é uma solene besteira.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

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