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20 Jun 2004

Sua Majestade, o Rei dos Mendigos

Escrito por 

Porém eu não estou aqui para espezinhar burocratas e sanguessugas, mas sim para tecer breves considerações sobre mais um dos inolvidáveis discursos de Lulinha Paz e Amor.

O grande arraiá do Sô Lula e Sinhá Marisa entrou mesmo pela noite a dentro... Como era de esperar, o Ministro Gil não foi de africano, porém de vaqueiro nordestino; José Viegas cumpriu o prometido: levou o delicioso docinho suspiro de la limeña. Não sei quem foi o Dr. Delegado, nem sei se botou alguém em cana. Não sei quem foi o padre, mas sei que teve casamento na roça com Sinhá Marisa num vestido de noiva pra Nelson Rodrigues nenhum botar defeito. Mas como o padre não podia ser ex-frei Boff - persuadido pelo eloqüente Cardeal Ratzinger a largar a batina - lá estava Frei Beto para jogar água benta  no casal e fazer um compenetrado sermão inspirado em Santo Ernesto de Guevara.
Por mais que dure e animada seja, toda festança acaba, o que não quer dizer que não comece outra, pois esquerda festiva não pode passar sem festa. Ainda fumegava a fogueira do arraiá quando Sô Lula teve que tirar o chaper di paia e a carrrrça remendada, colocar um de seus terninhos Armani recomendados por Duda e voltar a ser Lulinha Paz e Amor. É isso aí, gente boa: MAKE LOVE NOT WAR. GIVE PISS A CHANCE.

Dependesse do seu gosto e ele teria continuado bebendo quentão e organizando quadrilha no arraiá, porém o dever o chamava e ele tinha de desempenhar outro  papel, coisa que  exigia distinta indumentária. E não teve dúvida: entrou no sucatão com sua entourage rumo à terra da garoa, pois era em Sampa que ia ter samba, quer dizer: a XI Conferência da UNCTAD, um dos tentáculos deste polvo burocrático conhecido pelo nome de O NU que, como sabemos, é o mesmo que O DESPIDO, pois despido está de qualquer conseqüência prática, malgrado ornado com belo palavrório e belíssimas intenções, pra uto-pista nenhum botar defeito. Mas não venham com essa de que o inferno está cheio de bem intencionados, pois não concordo com a máxima.
 Como tem ocorrido nos últimos tempos - apesar de muito apreciar o Chico Nunes das Alagoas, o Patativa do Agreste, o Pintassilgo de Quixaramobim e outros notáveis repentistas nordestinos - Lulinha Paz e Amor não tem falado de improviso, porém lido textos escritos por um ghost writer. Fosse eu que lesse um paper num encontro acadêmico que não tivesse sido escrito por minha própria mão, seria estigmatizado como grande picareta, mas no mundo político tanto a autoria alheia como a psicografia tornaram-se práticas habituais e ninguém vê nenhum mal nisso.  Honni soit qui mal y pense.

Em linhas gerais, o discurso proferido pela boca de Lulinha Paz e Amor reafirmou o terceiromundismo que tanto apreciam os teólogos da libertação, os sem-terra, os diplomados analfabetos funcionais  e os elegantes cisnes do Itamaraty, pois não é de hoje que nossa competente política externa adotou uma sábia orientação: é preferível ser o mais rico entre os mais pobres do que o mais pobre entre os mais ricos, ou seja: mais vale um palacete na Rocinha do que um modesto apartamento no Leblon; mais vale bela mansão no Bras do que modesta casinha nos Jardins. De fato, já fomos a oitava economia do mundo e hoje temos de nos contentar em ser a décima sexta. Mas muito pior do que Brizola ter ficado abaixo de Enéas Carneiro, naquela memorável eleição presidencial, foi o Brasil ter sido ultrapassado pela Índia, que ocupou o décimo quinto lugar no ranking do PIB das nações, apesar da vaca sagrada, da babel de línguas e costumes, de milhões de famintos pelas ruas e faquires deitados em camas de pregos.

Aquela charlação de comércio Sul-Sul e de bloco dos emergentes se contrapondo ao da Comunidade Européia e ao do NAFTA, etc. já era coisa esperada. E se houve algo surpreendente não foi a  generalização de um Fome Zero nacional (que não sai da estaca zero) a um Fome Zero Mundial (que é idéia genial), tampouco Lulinha Paz e Amor manifestar novamente seu dourado e incontido desejo de ser o grande líder do Terceiro Mundo, quer dizer: Sua Majestade, o Rei dos Mendigos. Se alguma novidade houve de fato, esta  foi sem dúvida a alusão à necessidade de um novo Plano Marshall. Mas como qualquer professor de história de segundo grau - com estrelinha vermelha no peito e chavões esquerdistas na boca - sabe muito bem, esse foi um plano maquiavélico tramado pela CIA. Após a gloriosa União Soviética de Stalin ter vencido a Segunda Guerra - with a little help of Uncle Sam, of course - boa parte da Europa estava arrasada e os americanos careciam de consumidores para seus produtos. Logo: façamos um plano capaz de gerar dinheiro, boa grana para comprar o que queremos vender.

Mas o que o aludido professor prefere não dizer é que os Estados Unidos, ao finan-ciar a reconstrução dos derrotados como a Alemanha e o Japão, não gerou apenas consumi-dores para seus produtos em curto e médio prazo, mas também seus dois maiores competidores no mercado em longo prazo. Deram um tiro no próprio pé? Claro que não, perspicaz leitor, os americanos gostavam do mercado e adoravam competir. Mas como fazer um Plano Marshall envolvendo países do Terceiro Mundo em que competição econômica causa mais horror do que câncer na próstata e/ou impotência sexual? Competição só esportiva, ainda que seja de cuspe em distância ou purrinha na esquina, e mercado só mesmo o mercado das pulgas. Mas não foi tal deslocada alusão ao Plano Marshall o ponto culminante da XI Conferência da UNCTAD. Todo mundo viu nos jornais. Kofi Annan mostrando um belo presente recebido por ele : uma bandeira da gloriosa Mangueira com seu samba no pé. “Olha a Mangueira, minha gente!”

Mangueira teu cenário é uma beleza
Que a natureza criou, ô, ô.
O morro, com seus barracões de zinco,
Quando amanhece, que esplendor!

Porém, não posso dizer que tudo acabou em samba, pois o que se viu foi a bandeira da Mangueira e o que não viu foi a bandeira da ONU, pois estava no lado avesso da mesma. Mas como era um presente de Rubens Ricupero, está tudo explicado (para quem goza de boa memória): “O que bom a gente mostra, o que ruim a gente esconde”. Se Lulinha é mal Pagador de Promessas, Ricupero é bom Pagador de Micos.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:24
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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