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05 Abr 2004

A Nacionalização da Pobreza

Escrito por 

A vastidão continental do país aconselha a descentralização máxima das decisões, competências e recursos públicos, no contexto de um verdadeiro federalismo.

"Não devemos nos cansar de reformular algumas verdades. É para que não se tornem monótonas."
Gerhard Uhlenbruck, biólogo e aforista alemão.


A opção pela racionalidade política deveria ser orientada para uma definição de objetivos prioritários sociais, pelo menos compatível com os parâmetros político- institucionais de um regime democrático em âmbito federativo. Mas, tamanha tarefa exigiria sabedoria, criatividade e empenho acima das ambições meramente partidárias, num processo político valorativo de integração das opiniões e dos interesses que provassem ser fundamentalmente relevantes para a construção e manutenção de uma sociedade aberta e, portanto, livre e altaneira.

Estaria o Executivo federal capacitado, com sua centralização obssessiva e fome de poder, para conduzir e alcançar, com sua estúpida estrutura burocrática perdulária, objetivos sem caráter eleitoreiro,mas cruciais para o futuro da nação brasileira?

As respostas não serão um grande desafio ao exercício da inteligência mínima, pois qualquer mediocre sabe que a realidade brasileira é a da diversidade - uma extrema variação de situações regionais e sub-regionais, num vasto espaço geográfico continental. Aí residem nossas grandezas e pobrezas. A ausência e a constante penalização das autonomias, o sintoma da sociopatia tupiniquim.

A vastidão continental do país aconselha a descentralização máxima das decisões, competências e recursos públicos, no contexto de um verdadeiro federalismo. O interesse nacional justifica a reação política contra a centralização do Estado e sua incontida voracidade tributária decorrente. Mais do que nunca, precisamos publicar o nosso descontentamento em face das deslavadas mentiras que são ditas no dia-a-dia, quando o poder de plantão declara ser a "salvação da lavoura", quando não passa de uma saúva cabeçuda que a devora, sem dó nem piedade.

A fragilidade das instituições privadas e governamentais dos entes federativos, resultante da nociva centralização, refletiu na formação de uma cultura nacional voltada às ilusões a respeito do papel da União. Ela sempre é chamada a resolver toda a gama de problemas. Este desvio de comportamento político confederativo, gerou o clientelismo em altíssimo grau, desde os primórdios da nossa formação republicana. Os sonhos de grandeza unitária, imperial, engendraram uma estrutura de feição pseudofederativa, inconscientemente edipiana e repressora das liberdades, inibidora das ações concretas locais das irmãs inseparáveis: democracia e autodeterminação. A máquina estatal azeitada pela derrama contínua, sem qualquer cautela, foi preparada para quem ocupasse este poder exacerbado. Não sonhavam, porém, que ela pudesse servir tanto para o autoritarismo de um lado como para outro qualquer. Não contavam com a vitória eleitoral, manipulada pelo "marketing" das lorotas mais inacreditáveis...

Os mitos oficiais, as metafísicas da justificação para uma unidade nacional algemada por tradições insubstituíveis, segundo uma velha ordem renitentemente imperial, está cedendo seus espaços amplíssimos de autoritarismo centralizador à outra velha e galopante onda ideológica, que agora ocupa perigosamente o Poder. E com ela, novas formulações para soluções vindas do topo, com as mesmas velhas razões de ordem e progresso, acompanhadas de decisões de última hora, de afogadilho, truculentas e apoiadas na força. Poderemos, então, assistir as constantes farsas das transposição de valores sociais e o engodo de uma nova era de perplexidades. Com certeza, teremos uma ainda maior centralização do processo de decisões pela concentração da riqueza nas mãos da "nomenklatura" do Estado Onisciente, parceiro voraz, empregador público e salvador dos seus áulicos, graças à tradição da tributação impiedosamente burra, no desrespeito ao direito de propiedade e na incidência máxima dos ônus sobre a cadeia produtiva capitalista, inibindo-a de poupar e de fazer crescer o consumo.

Assim sendo, os que se autodenominam "progressistas", ameaçam institucionalizar, finalmente e mais brevemente do que muitos possam imaginar, a sua revolução social pela infelicidade, organizadora da pobreza nacionalizada.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:34
Jorge Geisel

Advogado especialista em Direito Marítimo com passagem em diversos cursos e seminários no exterior. Poeta, articulista, membro trintenário do Lions Clube do Brasil. É um dos mais expressivos defensores do federalismo e da idéia de maior independência das unidades da federação.

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