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13 Dez 2006

O Papa e o Filioque

Escrito por 
A viagem de Bento XVI à Turquia seria bem mais produtiva, se se reunisse com os ortodoxos e decidisse de vez a gravíssima questão do filioque. Discussões bizantinas são menos nocivas à humanidade que rendições incondicionais.

Se há algo que me diverte na história da Igreja Católica, são os dogmas. Verdades reveladas por deus, são imutáveis e definitivos. Justo por isto nos causam tanta perplexidade. Os dogmas são mais de quarenta e os católicos em geral não os conhecem. Um dos que gosto de enunciar é o da transubstanciação da carne, promulgado oficialmente em 1551 pelo Concílio de Trento. Os católicos, de modo geral, acreditam que o pão e vinho consagrados durante a missa são símbolos do corpo e sangue de Cristo. Ora, quem assim pensar, está cometendo heresia. Para o Magistério da Igreja, transubstanciação significa a conversão literal do pão e do vinho na carne e no sangue de Cristo. Sei que é duro, para um homem contemporâneo, admitir que a cada comunhão está praticando um ato de canibalismo. Mas dogma é dogma e estamos conversados.

Outro dogma divertido é o da Santíssima Trindade. Javé, o deus ancestral dos judeus, passa a partilhar sua divindade com o Jesus dos cristãos e mais um terceiro personagem imaterial, o Espírito Santo, que os textos joaninos preferem chamar de Paráclito. Mas o deus hebraico, nos textos antigos, não tem filho algum. Quem reivindica essa paternidade – à revelia do pai, diga-se de passagem – é o Cristo. O feroz Javé assume então a face de um pai amoroso. Ocorre que aí já temos dois deuses. Isso sem falar no Espírito, o ruah hebraico, que pode ser traduzido como ar em movimento, hálito ou vento. Para Harold Bloom, em seu excelente Jesus e Javé, a unificação destes três em um só, isto é, o dogma da Trindade, “sempre constituiu a linha crucial de defesa da Igreja contra a imputação judaica e islâmica de que o cristianismo não é uma religião monoteísta”. É um achado da Igreja, saliente-se, pois a palavra trindade não consta da Bíblia. O máximo que encontramos é Javé falando no plural, ou Paulo apresentando Jesus e o Espírito como intimamente ligados a Deus, indicando assim que, na Divindade, Deus, Jesus e o Espírito formam uma unidade. Tudo isto para fugir a qualquer semelhança com as tríades divinas das religiões pagãs, em que um deus-pai, uma deusa-mãe e um filho formam uma família de deuses, sendo muitas vezes mencionados juntos, como Osíris, Isis e Hórus no Egito. Ou o deus lunar, a deusa solar e a estrela Vênus na Arábia. Ou ainda Brama, Rudra e Vixnu da Índia.

Tivessem os teólogos se contentado com este malabarismo conceitual para construir um sistema religioso monolítico, até que o dogma da Trindade não seria de difícil intelecção. Ocorre que os teólogos são minudentes e uma complicada peripécia iria provocar uma violenta cisão na cristandade em 1054.

Segundo o Evangelho de João, o Espírito Santo procede do Pai. Assim o entendeu o Credo niceno-constantinopolitano, que no ano de 381 já repetia esta profissão de fé. Sabe-se lá porque cargas d’água, os latinos acrescentaram ao Credo a partícula filioque, professando que o Espírito procede do Pai e do Filho. Os cristãos orientais acusaram então os latinos de haver alterado os símbolos da fé. Em 444, Cirilo da Alexandria afirmava que o "Espírito é o Espírito de Deus Pai e, ao mesmo tempo, Espírito do Filho, saindo substancialmente de ambos simultaneamente, isto é, derramado pelo Pai a partir do Filho”. São inúmeros os teólogos que eram do mesmo aviso. Mas os cristãos gregos não conseguiam aceitar a polêmica conjunção, o e (que, em latim). O caldo engrossou quando o Concílio de Toledo, em 589, oficializou o símbolo da fé com o filioque, e considerou anátema a recusa da crença de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Não bastasse o absurdo conceito do três-em-um – inteligível se levamos em conta a preocupação de fugir ao politeísmo – discutia-se agora a relação de um com os outros dois. Pensamento dogmático é assim mesmo. O debate percorreu os séculos. As comunidades se cindiram em 1054 e até hoje não chegaram um acordo sobre esta questão literalmente bizantina. Ainda recentemente, em 1995, João Paulo II tentava esclarecer a questão do filioque com o patriarca Bartolomeu I, numa tentativa de melhorar as relações com os orientais.

Na semana passada, Bento XVI viajou ao país que sediou a cisão milenar. Mas não foi lá para discutir o filioque. Antes fosse. Papa penitente, Bento foi em verdade desculpar-se junto aos muçulmanos pela gafe cometida ao citar Manuel 2º, imperador cristão ortodoxo que na Idade Média dominava Bizâncio, área que compreende a atual Turquia. "Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava", disse o Manuel. Cá entre nós, dou toda razão ao imperador e o citaria com gosto. Ocorre que não sou o guia espiritual de uma religião, hoje em conflito aberto com o Islã. Um papa, a meu ver, deveria medir melhor as conseqüências de suas palavras.

“Estou feliz de vir à terra da antiga cultura islâmica”,disse o papa. Que tenha elogiado o país que o recebe, por que não? Daí a dizer que gostaria de ver a Turquia na União Européia é imiscuir-se nas questões seculares do continente. Os muçulmanos constituem hoje uma séria ameaça à Europa e aos valores dela oriundos, como democracia, livre expressão de pensamento, liberdade de imprensa, liberdade de crença, direitos humanos. Defender a inclusão da Turquia no continente é levar mais dezenas de milhões de inimigos para dormir em casa. Sem falar que o pontífice parece não mais lembrar seus dias de cardeal Ratzinger, quando se opunha com firmeza à entrada da Turquia na comunidade européia. Junto com o múfti Ali Bardakoglu, o papa leu declarações previamente redigidas, enfatizando a necessidade de conciliação entre as duas religiões. Pior ainda, Bento rezou voltado para Meca, como rezam os muçulmanos. Os muçulmanos já rezaram, é verdade, voltados para Israel. Mas não espere nenhum ocidental que um imã ore voltado para Roma.

Ora, é mais fácil decidir se o Espírito Santo procede apenas do Pai ou se procede do Pai e do Filho que esperar que as duas religiões se conciliem. Cristianismo e islamismo geraram culturas antagônicas. Se o cristianismo já aceita Estados laicos, os muçulmanos só admitem Estados teocráticos. Se no Ocidente vige o conceito de democracia, no Oriente só encontramos ditaduras. Se no Ocidente as mulheres são donas do próprio nariz e trabalham ombro a ombro com o homem, no mundo islâmico a mulher é uma espécie de escrava de luxo, que sequer tem o direito de escolher marido. Se entre nós a mulher é dona de seu corpo e não abdica do direito a uma vida sexual livre, nas culturas muçulmanas tem de submeter-se à excisão do clitóris e infibulação da vagina.

As duas religiões são irreconciliáveis, como irreconciliáveis são as culturas por elas geradas. Convidar brutos para um bom convívio é como oferecer o pescoço à espada do inimigo. A viagem de Bento XVI à Turquia seria bem mais produtiva – ou pelo menos não tão prejudicial ao Ocidente – se se reunisse com os ortodoxos e decidisse de vez a gravíssima questão do filioque. Discussões bizantinas são menos nocivas à humanidade que rendições incondicionais.

Se há algo que me diverte na história da Igreja Católica, são os dogmas. Verdades reveladas por deus, são imutáveis e definitivos. Justo por isto nos causam tanta perplexidade. Os dogmas são mais de quarenta e os católicos em geral não os conhecem. Um dos que gosto de enunciar é o da transubstanciação da carne, promulgado oficialmente em 1551 pelo Concílio de Trento. Os católicos, de modo geral, acreditam que o pão e vinho consagrados durante a missa são símbolos do corpo e sangue de Cristo. Ora, quem assim pensar, está cometendo heresia. Para o Magistério da Igreja, transubstanciação significa a conversão literal do pão e do vinho na carne e no sangue de Cristo. Sei que é duro, para um homem contemporâneo, admitir que a cada comunhão está praticando um ato de canibalismo. Mas dogma é dogma e estamos conversados.

Outro dogma divertido é o da Santíssima Trindade. Javé, o deus ancestral dos judeus, passa a partilhar sua divindade com o Jesus dos cristãos e mais um terceiro personagem imaterial, o Espírito Santo, que os textos joaninos preferem chamar de Paráclito. Mas o deus hebraico, nos textos antigos, não tem filho algum. Quem reivindica essa paternidade – à revelia do pai, diga-se de passagem – é o Cristo. O feroz Javé assume então a face de um pai amoroso. Ocorre que aí já temos dois deuses. Isso sem falar no Espírito, o ruah hebraico, que pode ser traduzido como ar em movimento, hálito ou vento. Para Harold Bloom, em seu excelente Jesus e Javé, a unificação destes três em um só, isto é, o dogma da Trindade, “sempre constituiu a linha crucial de defesa da Igreja contra a imputação judaica e islâmica de que o cristianismo não é uma religião monoteísta”. É um achado da Igreja, saliente-se, pois a palavra trindade não consta da Bíblia. O máximo que encontramos é Javé falando no plural, ou Paulo apresentando Jesus e o Espírito como intimamente ligados a Deus, indicando assim que, na Divindade, Deus, Jesus e o Espírito formam uma unidade. Tudo isto para fugir a qualquer semelhança com as tríades divinas das religiões pagãs, em que um deus-pai, uma deusa-mãe e um filho formam uma família de deuses, sendo muitas vezes mencionados juntos, como Osíris, Isis e Hórus no Egito. Ou o deus lunar, a deusa solar e a estrela Vênus na Arábia. Ou ainda Brama, Rudra e Vixnu da Índia.

Tivessem os teólogos se contentado com este malabarismo conceitual para construir um sistema religioso monolítico, até que o dogma da Trindade não seria de difícil intelecção. Ocorre que os teólogos são minudentes e uma complicada peripécia iria provocar uma violenta cisão na cristandade em 1054.

Segundo o Evangelho de João, o Espírito Santo procede do Pai. Assim o entendeu o Credo niceno-constantinopolitano, que no ano de 381 já repetia esta profissão de fé. Sabe-se lá porque cargas d’água, os latinos acrescentaram ao Credo a partícula filioque, professando que o Espírito procede do Pai e do Filho. Os cristãos orientais acusaram então os latinos de haver alterado os símbolos da fé. Em 444, Cirilo da Alexandria afirmava que o "Espírito é o Espírito de Deus Pai e, ao mesmo tempo, Espírito do Filho, saindo substancialmente de ambos simultaneamente, isto é, derramado pelo Pai a partir do Filho”. São inúmeros os teólogos que eram do mesmo aviso. Mas os cristãos gregos não conseguiam aceitar a polêmica conjunção, o e (que, em latim). O caldo engrossou quando o Concílio de Toledo, em 589, oficializou o símbolo da fé com o filioque, e considerou anátema a recusa da crença de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. Não bastasse o absurdo conceito do três-em-um – inteligível se levamos em conta a preocupação de fugir ao politeísmo – discutia-se agora a relação de um com os outros dois. Pensamento dogmático é assim mesmo. O debate percorreu os séculos. As comunidades se cindiram em 1054 e até hoje não chegaram um acordo sobre esta questão literalmente bizantina. Ainda recentemente, em 1995, João Paulo II tentava esclarecer a questão do filioque com o patriarca Bartolomeu I, numa tentativa de melhorar as relações com os orientais.

Na semana passada, Bento XVI viajou ao país que sediou a cisão milenar. Mas não foi lá para discutir o filioque. Antes fosse. Papa penitente, Bento foi em verdade desculpar-se junto aos muçulmanos pela gafe cometida ao citar Manuel 2º, imperador cristão ortodoxo que na Idade Média dominava Bizâncio, área que compreende a atual Turquia. "Mostre-me tudo o que Maomé trouxe de novidade, e encontrarás apenas coisas más e desumanas, como sua ordem de espalhar com a espada a fé que ele pregava", disse o Manuel. Cá entre nós, dou toda razão ao imperador e o citaria com gosto. Ocorre que não sou o guia espiritual de uma religião, hoje em conflito aberto com o Islã. Um papa, a meu ver, deveria medir melhor as conseqüências de suas palavras.

“Estou feliz de vir à terra da antiga cultura islâmica”,disse o papa. Que tenha elogiado o país que o recebe, por que não? Daí a dizer que gostaria de ver a Turquia na União Européia é imiscuir-se nas questões seculares do continente. Os muçulmanos constituem hoje uma séria ameaça à Europa e aos valores dela oriundos, como democracia, livre expressão de pensamento, liberdade de imprensa, liberdade de crença, direitos humanos. Defender a inclusão da Turquia no continente é levar mais dezenas de milhões de inimigos para dormir em casa. Sem falar que o pontífice parece não mais lembrar seus dias de cardeal Ratzinger, quando se opunha com firmeza à entrada da Turquia na comunidade européia. Junto com o múfti Ali Bardakoglu, o papa leu declarações previamente redigidas, enfatizando a necessidade de conciliação entre as duas religiões. Pior ainda, Bento rezou voltado para Meca, como rezam os muçulmanos. Os muçulmanos já rezaram, é verdade, voltados para Israel. Mas não espere nenhum ocidental que um imã ore voltado para Roma.

Ora, é mais fácil decidir se o Espírito Santo procede apenas do Pai ou se procede do Pai e do Filho que esperar que as duas religiões se conciliem. Cristianismo e islamismo geraram culturas antagônicas. Se o cristianismo já aceita Estados laicos, os muçulmanos só admitem Estados teocráticos. Se no Ocidente vige o conceito de democracia, no Oriente só encontramos ditaduras. Se no Ocidente as mulheres são donas do próprio nariz e trabalham ombro a ombro com o homem, no mundo islâmico a mulher é uma espécie de escrava de luxo, que sequer tem o direito de escolher marido. Se entre nós a mulher é dona de seu corpo e não abdica do direito a uma vida sexual livre, nas culturas muçulmanas tem de submeter-se à excisão do clitóris e infibulação da vagina.

As duas religiões são irreconciliáveis, como irreconciliáveis são as culturas por elas geradas. Convidar brutos para um bom convívio é como oferecer o pescoço à espada do inimigo. A viagem de Bento XVI à Turquia seria bem mais produtiva – ou pelo menos não tão prejudicial ao Ocidente – se se reunisse com os ortodoxos e decidisse de vez a gravíssima questão do filioque. Discussões bizantinas são menos nocivas à humanidade que rendições incondicionais.

Janer Cristaldo

O escritor e jornalista Janer Cristaldo nasceu em Santana do Livramento, Rio Grande do Sul. Formou-se em Direito e Filosofia e doutorou-se em Letras Francesas e Comparadas pela Université de la Sorbonne Nouvelle (Paris III). Morou na Suécia, França e Espanha. Lecionou Literatura Comparada e Brasileira na Universidade Federal de Santa Catarina e trabalhou como redator de Internacional nos jornais Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Faleceu no dia 18 de Outubro de 2014.

1 Comentário

  • Link do comentário Kvetoslava Hlavackova da Silva Campos Quarta, 16 Fevereiro 2011 22:15 postado por Kvetoslava Hlavackova da Silva Campos

    Aplausos!!! Excelente!!!!
    já cansei de procurar a resposta nos tratados teológicos tanto ortodoxos ( mais claros) como católicos ( bem nevoados) sobre o cisma. Finalmente achei uma resposta clara !
    Como é difícil encontrar alguém quem diz algo concreto.

    Há páginas e páginas onde nada de substancial está apresentado. Aliás, deve ser um talento extra de falar e escrever nada dizendo.

    Agradeço muito- Que Deus te abençoe e te faça feliz!!!

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