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03 Dez 2006

Os Cristãos Adoram o Sofrimento?

Escrito por 
Na verdade, o cristão não adora o sofrimento. Apenas reconhece que ele existe.

Já faz um bom tempo que não acesso o Orkut. A bem da verdade, tenho o deixado de lado porque percebi que, embora o ambiente de lá seja bem aberto, a extrema heterogeneidade dos participantes usualmente empobrece as discussões. Ademais, as postagens (“posts”) sempre correm no linguajar dos adolescentes, carregadas de expressões típicas da internet (abreviaturas irreconhecíveis (“tc, vc, naum”), emoticons, gargalhadas ruidosas... HUAHUAHUAAAA...) que a um homem de 37 causam uma justa repulsa.

É necessário um mínimo de acordo para começarmos um debate. Se, por exemplo, discutimos sobre o aborto e vem um sujeito e diz que ligamos demais para um feto, ainda não nascido, e de menos para uma galinha, que matamos para comer, porque é um ser vivo que mereceria os seus direitos reconhecidos, então é hora de pegar o chapéu e ir embora! Quem quiser que fique para estas palhaçadas. Ainda não tirei meu nome de lá, porque ao menos por meio daquela ferramenta é possível congratular-me com os amigos que pude fazer e promover discussões dentro de comunidades menores e mais selecionadas.

Todavia, é justamente por causa de uma destas discussões no Orkut que trago um tema para este artigo. Num destes debates sobre crianças vítimas de anencefalia, um dos participantes propôs que a visão dos cristãos era injusta, porque eles “cultuam o sofrimento como um meio para se erguer espiritualmente”. A sentença rapidamente ganhou a adesão dos simpatizantes, de modo que percebi ser infrutífera qualquer contra-argumentação, até porque já estava ficando fora do tema proposto, ou melhor, em língua orkutiana, “off-topic”.

Como se vê, na visão de muitos, os cristãos são pessoas que se devotam voluntariamente ao sofrimento, abdicando dos prazeres e da felicidade gratuitamente, por acharem que assim chegarão ao paraíso. Por outro lado, na visão de muitos cristãos é isto mesmo o que ocorre: são as pessoas que gostam de subir ladeiras de joelhos, de ir “na corda” do Círio de Nazaré, ou de pelo menos se ajoelhar sobre o milho para rezar.

Em que pese eu não ser nenhum sacerdote, aproveito a ocasião para expressar a visão de mundo de um cristão que não é adepto destas auto-flagelações, e que crê que muitos devam compartilhar de suas idéias, ainda que seja de forma não plenamente consciente.

Na verdade, o cristão não adora o sofrimento. Apenas reconhece que ele existe. O sofrimento humano é o mais universal (ou, como é moda dizer, “democrático”) fenômeno da vida; não há, neste mundo, ser que não sofra, em algum grau. No máximo, há pessoas cuja dor seja diminuída a um patamar invejável, comparado aos de outras.
O que difere o cristão (ou de qualquer outra religião ou filosofia que pregue semelhantes princípios) do ateu ou mesmo do cristão displicente é que, justamente, por reconhecer este fato, ele não tenta escapar do seu algoz, mas enfrentá-lo, muitas vezes sabendo de sacrifícios que terá de fazer.

Causa-me uma tristeza quando vejo amigos e outras pessoas conhecidas, principalmente jovens, que tentam em vão escapar do sofrimento, adotando para si uma filosofia de vida baseada na busca desenfreada de prazeres e na adoção de um comportamento tendente a escapar de compromissos. Estas pessoas, vejo como já sofrem! Sinto uma solidão a vergastar-lhes a alma, de uma tristeza indizível. A insegurança, o medo, a desconfiança rodeiam-lhe os pensamentos continuamente.

Estas pessoas têm medo de se casar (quando muito, se “juntam”), evitam filhos (quando os fazem, muitas vezes, dão para os avós criarem), freqüentemente não assumem responsabilidades pelos seus atos; e quase sempre se apavoram com os percalços da vida, dos mínimos aos maiores. Às vezes é quase impossível contar com elas para as coisas mais triviais, como simplesmente saber se elas comparecerão a algum evento para as quais foram convidadas. São tomadas por uma eterna incerteza e amealhamento de tudo e de todos.

A cada dia que passa, as mulheres estão ficando mais bonitas. A melhoria da alimentação, os avanços da Medicina e a própria inventividade da moda fazem contribuem para este resultado. Nada mal! O paraíso à la Pasargada nos conclama a experimentar o amor de todas, e isto parece ser muito bom. Mas não é nada bom ser filho de quem nem sequer se conhece, ou ser trocado por outro, quem sabe, em um momento desfavorável da vida (quem sabe, desempregado ou doente).

À noite, os bares e as baladas nos chamam com as suas seduções. Sair para beber e dançar é muito bom. Não há nenhum problema em se divertir. Mas não é nada bom estar pregado a uma cama de hospital, sem ter alguém para prestar companhia ou ajudar a comer um mingau ou a urinar.

Como eu gostaria de tratar a minha filha com presentes, todos os dias; dar-lhe uma vida de princesa, tais como as suas fantasias infantis aspiram. Ganhar presentes é muito bom. Não há nada de mal nisto. Mas dia a dia, tenho de obrigar-lhe a escovar os dentes, acompanhar a sua lição de casa e reprimir-lhe os maus modos.

Há inúmeros outros exemplos mais dos que estes, simples e singelos, que atestam uma verdade incontestável: ninguém escapa do sofrimento! Mesmo o homem que se pense mais forte, mesmo a mulher que se sinta a mais linda e resolvida do momento, em algum momento da vida, vão sofrer, tanto física como espiritualmente.

Esta é a essência do Cristianismo, e das fórmulas que ele encontrou para que não vivêssemos errantes e assustados como as feras. Foi assim que a mulher ganhou segurança e respeito para poder respirar o ar puro, sem ter medo que algum macho que a agarrasse de súbito e a possuísse à luz do dia; foi assim que as crianças, inocentes e dependentes, ganharam lares com carinho e proteção; foi assim que os velhos puderam encontrar abrigo e cuidados. Foi assim que a longevidade tem aumentado progressivamente na espécie humana.

O cristão consciente de sua crença entende que fugir do sofrimento freqüentemente causa muito mais dor do que os sacrifícios necessários para enfrentá-lo. E descobre no companheirismo, no compromisso firmado na promessa solene e sincera, na perseverança em estar ao lado de alguém, sob sol ou chuva, com todos os seus defeitos, os melhores meios para viver melhor. Isto é o que, pelo menos, este cristão, pensa sobre o sofrimento.

Já faz um bom tempo que não acesso o Orkut. A bem da verdade, tenho o deixado de lado porque percebi que, embora o ambiente de lá seja bem aberto, a extrema heterogeneidade dos participantes usualmente empobrece as discussões. Ademais, as postagens (“posts”) sempre correm no linguajar dos adolescentes, carregadas de expressões típicas da internet (abreviaturas irreconhecíveis (“tc, vc, naum”), emoticons, gargalhadas ruidosas... HUAHUAHUAAAA...) que a um homem de 37 causam uma justa repulsa.

É necessário um mínimo de acordo para começarmos um debate. Se, por exemplo, discutimos sobre o aborto e vem um sujeito e diz que ligamos demais para um feto, ainda não nascido, e de menos para uma galinha, que matamos para comer, porque é um ser vivo que mereceria os seus direitos reconhecidos, então é hora de pegar o chapéu e ir embora! Quem quiser que fique para estas palhaçadas. Ainda não tirei meu nome de lá, porque ao menos por meio daquela ferramenta é possível congratular-me com os amigos que pude fazer e promover discussões dentro de comunidades menores e mais selecionadas.

Todavia, é justamente por causa de uma destas discussões no Orkut que trago um tema para este artigo. Num destes debates sobre crianças vítimas de anencefalia, um dos participantes propôs que a visão dos cristãos era injusta, porque eles “cultuam o sofrimento como um meio para se erguer espiritualmente”. A sentença rapidamente ganhou a adesão dos simpatizantes, de modo que percebi ser infrutífera qualquer contra-argumentação, até porque já estava ficando fora do tema proposto, ou melhor, em língua orkutiana, “off-topic”.

Como se vê, na visão de muitos, os cristãos são pessoas que se devotam voluntariamente ao sofrimento, abdicando dos prazeres e da felicidade gratuitamente, por acharem que assim chegarão ao paraíso. Por outro lado, na visão de muitos cristãos é isto mesmo o que ocorre: são as pessoas que gostam de subir ladeiras de joelhos, de ir “na corda” do Círio de Nazaré, ou de pelo menos se ajoelhar sobre o milho para rezar.

Em que pese eu não ser nenhum sacerdote, aproveito a ocasião para expressar a visão de mundo de um cristão que não é adepto destas auto-flagelações, e que crê que muitos devam compartilhar de suas idéias, ainda que seja de forma não plenamente consciente.

Na verdade, o cristão não adora o sofrimento. Apenas reconhece que ele existe. O sofrimento humano é o mais universal (ou, como é moda dizer, “democrático”) fenômeno da vida; não há, neste mundo, ser que não sofra, em algum grau. No máximo, há pessoas cuja dor seja diminuída a um patamar invejável, comparado aos de outras.
O que difere o cristão (ou de qualquer outra religião ou filosofia que pregue semelhantes princípios) do ateu ou mesmo do cristão displicente é que, justamente, por reconhecer este fato, ele não tenta escapar do seu algoz, mas enfrentá-lo, muitas vezes sabendo de sacrifícios que terá de fazer.

Causa-me uma tristeza quando vejo amigos e outras pessoas conhecidas, principalmente jovens, que tentam em vão escapar do sofrimento, adotando para si uma filosofia de vida baseada na busca desenfreada de prazeres e na adoção de um comportamento tendente a escapar de compromissos. Estas pessoas, vejo como já sofrem! Sinto uma solidão a vergastar-lhes a alma, de uma tristeza indizível. A insegurança, o medo, a desconfiança rodeiam-lhe os pensamentos continuamente.

Estas pessoas têm medo de se casar (quando muito, se “juntam”), evitam filhos (quando os fazem, muitas vezes, dão para os avós criarem), freqüentemente não assumem responsabilidades pelos seus atos; e quase sempre se apavoram com os percalços da vida, dos mínimos aos maiores. Às vezes é quase impossível contar com elas para as coisas mais triviais, como simplesmente saber se elas comparecerão a algum evento para as quais foram convidadas. São tomadas por uma eterna incerteza e amealhamento de tudo e de todos.

A cada dia que passa, as mulheres estão ficando mais bonitas. A melhoria da alimentação, os avanços da Medicina e a própria inventividade da moda fazem contribuem para este resultado. Nada mal! O paraíso à la Pasargada nos conclama a experimentar o amor de todas, e isto parece ser muito bom. Mas não é nada bom ser filho de quem nem sequer se conhece, ou ser trocado por outro, quem sabe, em um momento desfavorável da vida (quem sabe, desempregado ou doente).

À noite, os bares e as baladas nos chamam com as suas seduções. Sair para beber e dançar é muito bom. Não há nenhum problema em se divertir. Mas não é nada bom estar pregado a uma cama de hospital, sem ter alguém para prestar companhia ou ajudar a comer um mingau ou a urinar.

Como eu gostaria de tratar a minha filha com presentes, todos os dias; dar-lhe uma vida de princesa, tais como as suas fantasias infantis aspiram. Ganhar presentes é muito bom. Não há nada de mal nisto. Mas dia a dia, tenho de obrigar-lhe a escovar os dentes, acompanhar a sua lição de casa e reprimir-lhe os maus modos.

Há inúmeros outros exemplos mais dos que estes, simples e singelos, que atestam uma verdade incontestável: ninguém escapa do sofrimento! Mesmo o homem que se pense mais forte, mesmo a mulher que se sinta a mais linda e resolvida do momento, em algum momento da vida, vão sofrer, tanto física como espiritualmente.

Esta é a essência do Cristianismo, e das fórmulas que ele encontrou para que não vivêssemos errantes e assustados como as feras. Foi assim que a mulher ganhou segurança e respeito para poder respirar o ar puro, sem ter medo que algum macho que a agarrasse de súbito e a possuísse à luz do dia; foi assim que as crianças, inocentes e dependentes, ganharam lares com carinho e proteção; foi assim que os velhos puderam encontrar abrigo e cuidados. Foi assim que a longevidade tem aumentado progressivamente na espécie humana.

O cristão consciente de sua crença entende que fugir do sofrimento freqüentemente causa muito mais dor do que os sacrifícios necessários para enfrentá-lo. E descobre no companheirismo, no compromisso firmado na promessa solene e sincera, na perseverança em estar ao lado de alguém, sob sol ou chuva, com todos os seus defeitos, os melhores meios para viver melhor. Isto é o que, pelo menos, este cristão, pensa sobre o sofrimento.

Klauber C. Pires

Analista Tributário, formado como bacharel em Ciências Náuticas, e especialista em Direito Tributário. Já exerceu cargo de chefia na Administração Pública Federal em gerência de administração de recursos materiais e humanos e planejamento. Possui vários cursos de gestão, planejamento, orçamento e licitações e contratos. Em 2006 foi condecorado com como Colaborador Emérito do Exército, título concedido pelo Comando Militar da Amazônia. Dedicado ao estudo autoditada da doutrina do liberalismo, especialmente o liberalismo austríaco. Atualmente escreve para sites como o Causa Liberal, Manausonline.com, O Estadual.com, Parlata, Diego Casagrande, e Instituto Liberdade. Também mantém os Blogs Coligados, que reúne cerca de 40 blogueiros de todo o Brasil, e seu próprio blog, Libertatum .

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