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13 Jun 2004

Reforma Moral

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Na verdade, o que se precisa nesse País é de uma urgente reforma moral. A começar por aquela feita na consciência de cada brasileiro.

Quantos brasileiros lêem jornais? Talvez muito poucos em proporção aos 179 milhões que povoam esse país continental. E dos que lêem, quantos se debruçam sobre notícias políticas? Confesso que não sei responder com estatísticas a tais perguntas, mas é certo que a grande massa passa o tempo entretida com programações televisivas nas quais, entre banalidades e folhetins, se diverte com a propaganda enganosa que jorra abundantemente do marketing governamental. Assim, o povo assiste embevecido o lançamento e o relançamento de programas sociais doados pela magnanimidade de um pai todo-poderoso, que promete transformar essa terra de contrastes numa Canaã onde jorrará um dia leite e mel. Se os programas sociais não existem na realidade, não importa, desde que se diga que são milagres em funcionamento. Esta é a lei ou a mágica malandra da propaganda enganosa, e é através dela que se engambela os incautos e se ganha eleições.

Nos jornais, o número restrito de eleitores pode perceber o que de fato acontece: profunda deterioração moral na condução da coisa pública com o aumento da corrupção, desorganização generalizada no modo de governar, incompetência que avança a passos largos, impunidade alarmante, aprofundamento das diferenças sociais, alheamento da cúpula do Executivo com relação à realidade, deslumbramento cada vez maior do presidente e de seus assessores diretos com relação ao poder de que desfrutam.

Paralelamente, o poder semicaótico vai conquistando trunfos através da política macroeconomia, e segue macaqueando o governo anterior. Ciente desse fortalecimento, o PT já faz projeções para ficar no mínimo por no mínimo dez anos. Para tanto, ainda são ainda utilizados além propaganda intensiva que contempla o culto da personalidade, a seguinte tática autoritária: reforço do Executivo, ou seja, do PT no poder, através do domínio do Legislativo e do Judiciário.

Com relação ao Legislativo, o que se lê nos jornais é que o então candidato Lula, que tanto criticava as medidas provisórias, como presidente só governa através delas, já tendo batido todos os recordes de edições das mesmas. Pouco fez o Congresso do ano passado para cá a não ser dizer sim senhor ao Executivo, votando tais medidas em meio à aquisição de privilégios e benefícios que choveram sobre a base aliada. Somente o resultado das eleições municipais, especialmente nas grandes capitais, indicará se a oposição que agora se esboça, especialmente através do PSDB e do PFL, poderá fazer frente ao poderio montado pelo PT.

No tocante ao Judiciário, bombardeado com críticas acerbas da parte do presidente da República desde o ano anterior, não se pode deixar de notar que Executivo ganhou reforço com a entrada na presidência do Supremo Tribunal Federal (STF) do ministro Nelson Jobim, no lugar do ministro Maurício Corrêa. Isto, apesar de Jobim ter sido indicado como ministro pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e ter sido apelidado pelo PT, durante a gestão anterior, de líder do govwrno, “por causa de votos que supostamente beneficiariam Fernando Henrique” (Folha de S. Paulo, 4 de junho de 2004).

Segundo ainda a Folha de S. Paulo do mesmo dia, o presidente do STF “encerrou sua cerimônia de posse deixando claro que Lula contará, nos próximos dois anos com uma espécie de aliado político no principal cargo do judiciário. Ele pregou um acordo entre os três Poderes, defendeu que os tribunais não devem interferir nas políticas públicas e respondeu às críticas da OAB ao governo”. No dia anterior, no mesmo jornal, podia-se ler que o ministro Nelson Jobim dissera que “O Ministério Público não deve ter o poder de conduzir investigações criminais”, tese semelhante a do ministro José Dirceu. Isto em que pese “os representantes do Ministério Público terem dito que a restrição ao poder de atuação da instituição implicará um grande golpe no combate à corrupção”.

Parecendo desconhecer o que se passa ou não querendo conhecer, o presidente da República agora se preocupa com uma reforma no Palácio da Alvorada e chama empresários para pagar a conta. Muda o enfoque de Fome Zero para cano de banheiro com mau funcionamento zero. E esse programa certamente vai operar às mil maravilhas ao contrário do outro.

Na verdade, o que se precisa nesse País é de uma urgente reforma moral. A começar por aquela feita na consciência de cada brasileiro. Só assim seremos menos influenciados pela propaganda e mais capazes de nos indignarmos.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:25
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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