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17 Out 2006

Apagão Moral

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Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população.

Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população. Prova disso é a indiferença de grande parte dos eleitores com relação aos copiosos escândalos prodigalizados pelos companheiros da alta hierarquia do PT. Tudo começou com o episódio do até agora impune Waldomiro Diniz, homem de confiança do então todo-poderoso “primeiro-ministro”, José Dirceu, sendo que os crimes e as aberrações das condutas governamentais vêm se acumulando velozmente nesta gestão presidencial, sem seja afetada a intenção de votos em Sua Excelência. Pelo menos é o que indicam os institutos de pesquisa, e mesmo que todos eles venham errando fragorosamente, só o fato do candidato e presidente ter passado para o segundo turno indica a aquiescência popular com relação a imoralidade pública que chegou a níveis nunca antes havidos na história do Brasil.

Num passado recente havia alguma capacidade de indignação no País, que podia ser sentida nas urnas. Como exemplo disto, recordo o debate que contribuiu para derrotar LILS, em que pese estar ciente, é claro, de que não foi este o único fator que contou para o fracasso do candidato petista em sua primeira campanha.

Em 1989, Lula enfrentou Fernando Collor de Mello e muitos outros candidatos, e as pesquisas indicavam o petista como favorito. Este era apoiado pelos chamados movimentos sociais, pelos intelectuais, por parte da Igreja Católica, todos de esquerda. Collor, então, usando uma estratégia que na época foi muito criticada pelo PT, levou na TV Globo a senhora Lurdes, que teve com Lula a filha de nome Lurian. Lurdes, que disse cobras e lagartos, contou, inclusive, que Lula mandou que ela abortasse a criança.

Antes do debate em que o petista teria que enfrentar Collor na poderosa Rede Globo, correu o boato que Lurdes também compareceria e que Collor levaria um dossiê com mais acusações de teor moral sobre o preferido das esquerdas. Nada disso aconteceu, mas o que se viu na TV foi um Lula tenso, acuado, apavorado, acovardado diante do vibrante e seguro “caçador de marajás”.

Mesmo com esse contratempo, às vésperas da decisão do segundo turno a euforia tomou conta dos petistas e das esquerdas brasileiras. Conforme registrei em um dos meus livros, América Latina – Em busca do Paraíso Perdido:

“Na revista Istoé Senhor, um longo artigo analisava uma pesquisa e, em determinado trecho, apontava para a direção do êxito do candidato petista. Segundo a matéria, baseada em dados colhidos a partir da mais rigorosa técnica metodológica, ‘a hipótese da vitória de Lula se configura, se continuar no mesmo ritmo, a tendência verificada no final de novembro para cá. A sangria da candidatura Collor e o crescimento de Lula indicam que há tempo para a virada” (Istoé Senhor, 20/11/1989, p.42).

Na mesma revista Leonel Brizola, derrotado por escassos quatrocentos mil votos na corrida do primeiro turno, afirmava: “Lula vai vencer, essa é minha convicção”. Logo em seguida, traçava um perfil nada favorável de Collor, ao qual se aliaria, pelo menos aparentemente, em 1992.

No dia 17 de dezembro, Lula beijou a cédula na hora de votar e fez declarações de vitória. Nas ruas seus eleitores e adeptos festejaram prematuramente, sacudindo as bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”. Toda euforia, porém, se transformou em frustração, em amargura, em luto petista diante do resultado final. Collor vencera.

O resto da estória todos conhecem: as acusações de Pedro Collor, nunca comprovadas. As manifestações públicas, verdadeiros carnavais cívicos. A idéia do impeachment, levantada por Lula, que desde a humilhação passada no debate e na derrota sofrida, tinha acessos de revanchismo. A rapidez do julgamento do Congresso, contrastando com sua habitual lentidão. O impeachment.

Agora Lula e Collor se elogiam e se apóiam. Em campanha, o PT, sem nenhum escrúpulo, empreende uma guerra suja: acusa sem provas, difama, calunia, espalha inverdades, tenta demolir a reputação de Geraldo Alckmin, agride com baixarias sua família. Enquanto isso, institutos de pesquisa continuam a manter o petista cada vez mais acima do adversário. Até o resultado das enquetes sobre o debate na Band, quando Alckmin demonstrou preparo, autoridade e inequívoca superioridade sobre um Lula perdido entre papéis, acuado, amedrontado, acovardado, dão o petista como vencedor. Erraram de novo os institutos, ou esse resultado é fruto do apagão moral brasileiro? Só as urnas dirão a verdade em 29 de outubro.

Tivesse eu a oportunidade, faria como cidadã brasileira as seguintes perguntas ao candidato e presidente: O senhor é a favor ou contra o aborto? Quem matou Celso Daniel e Toninho do PT? Por que não mostra o gasto com os cartões institucionais? De onde veio o dinheiro para pagar o dossiê Vedoin, que incriminaria José Serra? O senhor não sabia mesmo de todos os crimes e maracutaias dos seus companheiros mais chegados?

Nesta campanha, a sensação que se tem é a de que um apagão moral originado no governo petista, provocou profunda amnésia em grande parte da população. Prova disso é a indiferença de grande parte dos eleitores com relação aos copiosos escândalos prodigalizados pelos companheiros da alta hierarquia do PT. Tudo começou com o episódio do até agora impune Waldomiro Diniz, homem de confiança do então todo-poderoso “primeiro-ministro”, José Dirceu, sendo que os crimes e as aberrações das condutas governamentais vêm se acumulando velozmente nesta gestão presidencial, sem seja afetada a intenção de votos em Sua Excelência. Pelo menos é o que indicam os institutos de pesquisa, e mesmo que todos eles venham errando fragorosamente, só o fato do candidato e presidente ter passado para o segundo turno indica a aquiescência popular com relação a imoralidade pública que chegou a níveis nunca antes havidos na história do Brasil.

Num passado recente havia alguma capacidade de indignação no País, que podia ser sentida nas urnas. Como exemplo disto, recordo o debate que contribuiu para derrotar LILS, em que pese estar ciente, é claro, de que não foi este o único fator que contou para o fracasso do candidato petista em sua primeira campanha.

Em 1989, Lula enfrentou Fernando Collor de Mello e muitos outros candidatos, e as pesquisas indicavam o petista como favorito. Este era apoiado pelos chamados movimentos sociais, pelos intelectuais, por parte da Igreja Católica, todos de esquerda. Collor, então, usando uma estratégia que na época foi muito criticada pelo PT, levou na TV Globo a senhora Lurdes, que teve com Lula a filha de nome Lurian. Lurdes, que disse cobras e lagartos, contou, inclusive, que Lula mandou que ela abortasse a criança.

Antes do debate em que o petista teria que enfrentar Collor na poderosa Rede Globo, correu o boato que Lurdes também compareceria e que Collor levaria um dossiê com mais acusações de teor moral sobre o preferido das esquerdas. Nada disso aconteceu, mas o que se viu na TV foi um Lula tenso, acuado, apavorado, acovardado diante do vibrante e seguro “caçador de marajás”.

Mesmo com esse contratempo, às vésperas da decisão do segundo turno a euforia tomou conta dos petistas e das esquerdas brasileiras. Conforme registrei em um dos meus livros, América Latina – Em busca do Paraíso Perdido:

“Na revista Istoé Senhor, um longo artigo analisava uma pesquisa e, em determinado trecho, apontava para a direção do êxito do candidato petista. Segundo a matéria, baseada em dados colhidos a partir da mais rigorosa técnica metodológica, ‘a hipótese da vitória de Lula se configura, se continuar no mesmo ritmo, a tendência verificada no final de novembro para cá. A sangria da candidatura Collor e o crescimento de Lula indicam que há tempo para a virada” (Istoé Senhor, 20/11/1989, p.42).

Na mesma revista Leonel Brizola, derrotado por escassos quatrocentos mil votos na corrida do primeiro turno, afirmava: “Lula vai vencer, essa é minha convicção”. Logo em seguida, traçava um perfil nada favorável de Collor, ao qual se aliaria, pelo menos aparentemente, em 1992.

No dia 17 de dezembro, Lula beijou a cédula na hora de votar e fez declarações de vitória. Nas ruas seus eleitores e adeptos festejaram prematuramente, sacudindo as bandeiras vermelhas e emitindo o grito de guerra: “Lulalá”. Toda euforia, porém, se transformou em frustração, em amargura, em luto petista diante do resultado final. Collor vencera.

O resto da estória todos conhecem: as acusações de Pedro Collor, nunca comprovadas. As manifestações públicas, verdadeiros carnavais cívicos. A idéia do impeachment, levantada por Lula, que desde a humilhação passada no debate e na derrota sofrida, tinha acessos de revanchismo. A rapidez do julgamento do Congresso, contrastando com sua habitual lentidão. O impeachment.

Agora Lula e Collor se elogiam e se apóiam. Em campanha, o PT, sem nenhum escrúpulo, empreende uma guerra suja: acusa sem provas, difama, calunia, espalha inverdades, tenta demolir a reputação de Geraldo Alckmin, agride com baixarias sua família. Enquanto isso, institutos de pesquisa continuam a manter o petista cada vez mais acima do adversário. Até o resultado das enquetes sobre o debate na Band, quando Alckmin demonstrou preparo, autoridade e inequívoca superioridade sobre um Lula perdido entre papéis, acuado, amedrontado, acovardado, dão o petista como vencedor. Erraram de novo os institutos, ou esse resultado é fruto do apagão moral brasileiro? Só as urnas dirão a verdade em 29 de outubro.

Tivesse eu a oportunidade, faria como cidadã brasileira as seguintes perguntas ao candidato e presidente: O senhor é a favor ou contra o aborto? Quem matou Celso Daniel e Toninho do PT? Por que não mostra o gasto com os cartões institucionais? De onde veio o dinheiro para pagar o dossiê Vedoin, que incriminaria José Serra? O senhor não sabia mesmo de todos os crimes e maracutaias dos seus companheiros mais chegados?

Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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