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25 Set 2006

O Valoroso e Audaz Protetor dos Ratinhos Brancos

Escrito por 
Uma síntese do Brasil dos dias de hoje: Lula, Paulo Coelho e Seu Creyson.

Como todo mundo sabe, depois que o filósofo australiano Peter Singer (nenhum parentesco com Paul Singer, economista orgânico do PT) desfechou sua cruzada internacional em defesa irracional dos animais da mesma categoria, chegou mesmo a inaugurar um novo campo do Direito: o “Direito dos Animais Irracionais”. Só falta agora os levarmos pro banco dos réus, tal como na Idade Média! Não foram poucos em todo este admirável mundo pós-moderno que, na esteira de Singer, assumiram uma firme posição contra o especismo.*

Dentre seus mais fervorosos acólitos e prosélitos - mesmo que nunca tenha ouvido falar em “Sínguer” – está o vereador Claudio Cavalcanti (PFL-RJ), aquele que criou uma lei estabelecendo aposentadoria remunerada de cavalos puxadores de carroças, entre outras leis sempre visando sempre ao animal welfare (tradução: bem-estar do animal, para os não-iniciados). E eis que agora o nobre vereador já conseguiu elaborar uma nova lei, que foi aprovada pela Câmara, porém sabiamente vetada por nosso prefeito César Maia (PFL-RJ), um homem que tem seus dois pés no chão (diferentemente d’outros que têm todos os quatro). Mas ainda nutro a firme esperança e faço votos que a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro - possuída por um desses laivos de sensatez que a todos os homens sói ocorrer ao menos uma vez na vida - não derrube o veto pelo voto.

Em síntese, o projeto de lei 325/2005 proíbe que animais sejam utilizados em vivissecações e experimentos científicos no campo da farmacologia. Caso entre em vigor tal lei, terá uma conseqüência imediata: a FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) e o CCS (Centro de Ciências da Saúde da UFRJ) - dois dos mais qualificados institutos de pesquisa do país – não poderiam mais produzir vacinas e kits de diagnósticos, bem como seriam abortadas pesquisas em andamento sobre hipertensão arterial, doença de Chagas e Síndrome de Deficiência Imunológica Adquirida [SIDA, como se diz corretamente em Portugal, não AIDS como dicen los macaquitos sin saber lo que dicen].
Indagado pelo recém-lançado Jornal da UFRJ, se ele não temia a paralisação de pesquisas estratégicas para as políticas públicas nacionais na área da saúde, o nobre vereador e ex-ator de teatro e cinema, Cláudio Cavalcanti, provavelmente o mais votado pela esquerda ecológica ipanemense e arredores, alegou: “Temo bem mais, digo mesmo, temo com horror, que persistindo no modelo animal continuemos a fazer mais vítimas humanas” (Jornal da UFRJ, julho de 2006).

A questão é: Para o progresso da farmacologia – e eu sou daqueles que, diferentemente d’alguns filósofos e políticos, acredito firmemente no progresso da ciência e da tecnologia - têm de ser impreterivelmente sacrificados cobaias em experimentos. Diante dessa circunstância inevitável, que devemos fazer? Devemos aceitar o sacrifício desses animais em nome da ciência e do bem-estar do animal racional ou substituí-los por cobaias humanos em nome da nesciência e do bem-estar dos animais irracionais? Não podemos esquecer jamais que est’última foi justamente a alternativa adotada pelos nazistas em suas “pesquisas”. Vide o caso do tal de Mengele, que acabou morrendo afogado numa praia de Santa Catarina. Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá?!

Não estou insinuando de nenhum modo que o nobre vereador seja simpatizante do nacional socialismo, i.e. nazismo: ele é tão-somente um amigo dos animais irracionais e um inimigo do animal racional. Mas quem é amigo de x não tem necessariamente de ser inimigo de y, a menos que substituamos x por “PT” e y por “incompetência e desonestidade”.

Do episódio sucintamente narrado, duas não-irrelevantes inferências transcendentais podem ser extraídas sem precisar usar o boticão. Coberto de razões estava René Descartes quando asseverou que, de todas as coisas neste vasto mundo, o bom senso era a mais bem compartilhada pelos homens. O referido vereador serve bem à guisa de exemplo. Coberto de razões estava Immanuel Kant quando asseverou que - no curso de nossas ações neste vasto mundo - não devemos levar em consideração o contexto em que agimos, nem muito menos as conseqüências de nossas ações. E disto o referido vereador é também excelente exemplo.

Redondamente equivocados estão, pois, aqueles que adotam duas idéias do liberalismo clássico: a de que o bom senso - malgrado extremamente apreciável - é uma das virtudes mais escassas neste vasto mundo e que devemos levar sempre em consideração o contexto em que os agentes agem, bem como as conseqüências pretendidas e as não-pretendidas das suas ações.

Quanto a est’último tópico, recuso-me peremptoriamente a acreditar que o vereador Claudio Cavalcanti (nenhum parentesco que se saiba com o ex-deputado federal Severino Cavalcanti), tivesse a intenção de, com sua lei, fechar a FIOCRUZ e o CCS da UFRJ. Caso os referidos centros de pesquisa tenham relmente que fechar suas portas e se mudar para São Paulo (SP) – como tantas coisas já mudaram – quem perde é nossa querida São Sebastião do Rio de Janeiro. E embora tal evento não terá sido resultado da intenção do nobre vereador, certamente terá sido um resultado da ação do mesmo, ou seja: uma conseqüência não-pretendida. Na melhor das hipóteses formulada esta sob o espírito da aplicação de o benefício da dúvida.

* Especismo=df. “Um ‘ismo’ criado pelo filósofo contemporâneo Peter Singer, tendo como finalidade denominar uma tendência peculiar ao Homo sapiens de só se preocupar com a sua própria espécie”.Realmente há de fato a referida tendência, só discordo que a mesma seja “peculiar ao Homo sapiens”. Por acaso os cavalos, as borboletas, os macacos, os lagartos, os sapos et allia não se preocupam tão-somente com os interesses de suas respectivas espécie? Ou o instinto de sobrevivência da espécie não passa de uma fantasia gerada pela mente extremamente imaginativa de Charles Darwin?

APÊNDICE I: REFLEXO CONDICIONADO

Pontualidade britânica: o carrilhão emite 9 badaladas e o compenetrado Ivan Pavlov penetra no laboratório. Um dos ratinhos se volta para o outro e solta: “Hi, cara, lá vem aquele sujeito de branco, que está condicionado a dar um queijinho maneiro pra gente todo dia a esta hora”.

APÊNDICE II: EXTRAINDO CONSEQÜÊNCIAS INDESEJÁVEIS

Admitindo que todo sujeito de direitos também o é sujeito de deveres – exceção feita ao embrião que é um atual sujeito de direitos e potencial sujeito de deveres – caso sejam concedidos direitos aos animais, não se terá também de atribuir deveres aos mesmos? E como todo e qualquer dever comporta sempre as possibilidades de seu cumprimento ou de seu descumprimento (implicando algum tipo de sanção), pergunta-se: que faremos se seu pit-bull arrancar a batata da perna de seu vizinho ou se o gato siamês do vizinho produzir graves arranhões em seu filho pequeno? Levaremos ambos, gato e cachorro, ao banco dos réus, como aliás foi prática corrente na Idade Média?! O my dog!

APÊNDICE III: OS TRÊS MOSQUITEIROS BRASILEIROS

Uma síntese do Brasil dos dias de hoje: Lula, Paulo Coelho e Seu Creyson. O primeiro é um torneiro mecânico aposentado que se tornou Im(presidente) do Brasil. Não preside xongas, nada sabe e de nada sabe (e o povo acredita piamente!). O segundo conseguiu vender milhões de livros, em mais de 60 línguas, sem saber escrever nem ao menos em uma (o que foi para mim a maior prova de que a incultura não é só brasileira: goza de universalidade e universidade). Entrou para a ABL, apesar dos veementes protestos de Machado de Assis no além-túmulo (e o povo aplaude empolgadamente!). O tercêirico é o mais brilhantio oradôrico do Oiapoque a Chauí (e o povo só não vota nele, porque ele não pode se candidatar!) E depois não gostam quando digo que o Brasil é o paraíso dos apedeutas e o inferno dos propedeutas.

[Obs. Se você não sabe o que querem dizer estas duas palavras, vá direto ao pai dos burros informático: o Google, que sabe até o que só Deus sabe].

Como todo mundo sabe, depois que o filósofo australiano Peter Singer (nenhum parentesco com Paul Singer, economista orgânico do PT) desfechou sua cruzada internacional em defesa irracional dos animais da mesma categoria, chegou mesmo a inaugurar um novo campo do Direito: o “Direito dos Animais Irracionais”. Só falta agora os levarmos pro banco dos réus, tal como na Idade Média! Não foram poucos em todo este admirável mundo pós-moderno que, na esteira de Singer, assumiram uma firme posição contra o especismo.*

Dentre seus mais fervorosos acólitos e prosélitos - mesmo que nunca tenha ouvido falar em “Sínguer” – está o vereador Claudio Cavalcanti (PFL-RJ), aquele que criou uma lei estabelecendo aposentadoria remunerada de cavalos puxadores de carroças, entre outras leis sempre visando sempre ao animal welfare (tradução: bem-estar do animal, para os não-iniciados). E eis que agora o nobre vereador já conseguiu elaborar uma nova lei, que foi aprovada pela Câmara, porém sabiamente vetada por nosso prefeito César Maia (PFL-RJ), um homem que tem seus dois pés no chão (diferentemente d’outros que têm todos os quatro). Mas ainda nutro a firme esperança e faço votos que a Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro - possuída por um desses laivos de sensatez que a todos os homens sói ocorrer ao menos uma vez na vida - não derrube o veto pelo voto.

Em síntese, o projeto de lei 325/2005 proíbe que animais sejam utilizados em vivissecações e experimentos científicos no campo da farmacologia. Caso entre em vigor tal lei, terá uma conseqüência imediata: a FIOCRUZ (Fundação Oswaldo Cruz) e o CCS (Centro de Ciências da Saúde da UFRJ) - dois dos mais qualificados institutos de pesquisa do país – não poderiam mais produzir vacinas e kits de diagnósticos, bem como seriam abortadas pesquisas em andamento sobre hipertensão arterial, doença de Chagas e Síndrome de Deficiência Imunológica Adquirida [SIDA, como se diz corretamente em Portugal, não AIDS como dicen los macaquitos sin saber lo que dicen].
Indagado pelo recém-lançado Jornal da UFRJ, se ele não temia a paralisação de pesquisas estratégicas para as políticas públicas nacionais na área da saúde, o nobre vereador e ex-ator de teatro e cinema, Cláudio Cavalcanti, provavelmente o mais votado pela esquerda ecológica ipanemense e arredores, alegou: “Temo bem mais, digo mesmo, temo com horror, que persistindo no modelo animal continuemos a fazer mais vítimas humanas” (Jornal da UFRJ, julho de 2006).

A questão é: Para o progresso da farmacologia – e eu sou daqueles que, diferentemente d’alguns filósofos e políticos, acredito firmemente no progresso da ciência e da tecnologia - têm de ser impreterivelmente sacrificados cobaias em experimentos. Diante dessa circunstância inevitável, que devemos fazer? Devemos aceitar o sacrifício desses animais em nome da ciência e do bem-estar do animal racional ou substituí-los por cobaias humanos em nome da nesciência e do bem-estar dos animais irracionais? Não podemos esquecer jamais que est’última foi justamente a alternativa adotada pelos nazistas em suas “pesquisas”. Vide o caso do tal de Mengele, que acabou morrendo afogado numa praia de Santa Catarina. Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá?!

Não estou insinuando de nenhum modo que o nobre vereador seja simpatizante do nacional socialismo, i.e. nazismo: ele é tão-somente um amigo dos animais irracionais e um inimigo do animal racional. Mas quem é amigo de x não tem necessariamente de ser inimigo de y, a menos que substituamos x por “PT” e y por “incompetência e desonestidade”.

Do episódio sucintamente narrado, duas não-irrelevantes inferências transcendentais podem ser extraídas sem precisar usar o boticão. Coberto de razões estava René Descartes quando asseverou que, de todas as coisas neste vasto mundo, o bom senso era a mais bem compartilhada pelos homens. O referido vereador serve bem à guisa de exemplo. Coberto de razões estava Immanuel Kant quando asseverou que - no curso de nossas ações neste vasto mundo - não devemos levar em consideração o contexto em que agimos, nem muito menos as conseqüências de nossas ações. E disto o referido vereador é também excelente exemplo.

Redondamente equivocados estão, pois, aqueles que adotam duas idéias do liberalismo clássico: a de que o bom senso - malgrado extremamente apreciável - é uma das virtudes mais escassas neste vasto mundo e que devemos levar sempre em consideração o contexto em que os agentes agem, bem como as conseqüências pretendidas e as não-pretendidas das suas ações.

Quanto a est’último tópico, recuso-me peremptoriamente a acreditar que o vereador Claudio Cavalcanti (nenhum parentesco que se saiba com o ex-deputado federal Severino Cavalcanti), tivesse a intenção de, com sua lei, fechar a FIOCRUZ e o CCS da UFRJ. Caso os referidos centros de pesquisa tenham relmente que fechar suas portas e se mudar para São Paulo (SP) – como tantas coisas já mudaram – quem perde é nossa querida São Sebastião do Rio de Janeiro. E embora tal evento não terá sido resultado da intenção do nobre vereador, certamente terá sido um resultado da ação do mesmo, ou seja: uma conseqüência não-pretendida. Na melhor das hipóteses formulada esta sob o espírito da aplicação de o benefício da dúvida.

* Especismo=df. “Um ‘ismo’ criado pelo filósofo contemporâneo Peter Singer, tendo como finalidade denominar uma tendência peculiar ao Homo sapiens de só se preocupar com a sua própria espécie”.Realmente há de fato a referida tendência, só discordo que a mesma seja “peculiar ao Homo sapiens”. Por acaso os cavalos, as borboletas, os macacos, os lagartos, os sapos et allia não se preocupam tão-somente com os interesses de suas respectivas espécie? Ou o instinto de sobrevivência da espécie não passa de uma fantasia gerada pela mente extremamente imaginativa de Charles Darwin?

APÊNDICE I: REFLEXO CONDICIONADO

Pontualidade britânica: o carrilhão emite 9 badaladas e o compenetrado Ivan Pavlov penetra no laboratório. Um dos ratinhos se volta para o outro e solta: “Hi, cara, lá vem aquele sujeito de branco, que está condicionado a dar um queijinho maneiro pra gente todo dia a esta hora”.

APÊNDICE II: EXTRAINDO CONSEQÜÊNCIAS INDESEJÁVEIS

Admitindo que todo sujeito de direitos também o é sujeito de deveres – exceção feita ao embrião que é um atual sujeito de direitos e potencial sujeito de deveres – caso sejam concedidos direitos aos animais, não se terá também de atribuir deveres aos mesmos? E como todo e qualquer dever comporta sempre as possibilidades de seu cumprimento ou de seu descumprimento (implicando algum tipo de sanção), pergunta-se: que faremos se seu pit-bull arrancar a batata da perna de seu vizinho ou se o gato siamês do vizinho produzir graves arranhões em seu filho pequeno? Levaremos ambos, gato e cachorro, ao banco dos réus, como aliás foi prática corrente na Idade Média?! O my dog!

APÊNDICE III: OS TRÊS MOSQUITEIROS BRASILEIROS

Uma síntese do Brasil dos dias de hoje: Lula, Paulo Coelho e Seu Creyson. O primeiro é um torneiro mecânico aposentado que se tornou Im(presidente) do Brasil. Não preside xongas, nada sabe e de nada sabe (e o povo acredita piamente!). O segundo conseguiu vender milhões de livros, em mais de 60 línguas, sem saber escrever nem ao menos em uma (o que foi para mim a maior prova de que a incultura não é só brasileira: goza de universalidade e universidade). Entrou para a ABL, apesar dos veementes protestos de Machado de Assis no além-túmulo (e o povo aplaude empolgadamente!). O tercêirico é o mais brilhantio oradôrico do Oiapoque a Chauí (e o povo só não vota nele, porque ele não pode se candidatar!) E depois não gostam quando digo que o Brasil é o paraíso dos apedeutas e o inferno dos propedeutas.

[Obs. Se você não sabe o que querem dizer estas duas palavras, vá direto ao pai dos burros informático: o Google, que sabe até o que só Deus sabe].

Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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