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20 Set 2006

Assembléia dos Inconscientes

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Por isso, sinceramente, acreditamos que uma boa dose de valores aristocráticos poderia revitalizar a nossa democracia. Chega de analfabeto funcional como legislador e como chefe do executivo.

A democracia é tida como sendo o melhor regime político possível para as sociedades modernas. Eis aí uma fala repetida a exaustão por inúmeras pessoas, para não dizer uma que é uma fala da maioria absoluta. Todavia, como muito bem nos lembrava o finado Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é..., por isso, como já é da natureza dessa coluna ser politicamente incorreta, aqui seremos mais uma vez obrigados, volvendo nossa pena para a direção desta que é tida como sendo redentora e salutar para o progresso da liberdade e da prosperidade da humanidade, que é a dita democracia.

Primeiramente apenas reflitamos sobre a forma como este regime político se adapta a cultura política de uma nação. Isso mesmo. Muitas das vezes ficamos a bradar bravatas contra tudo o que julgamos não ser uma democracia por efetuarmos a nossa “análise” dos fatos a partir de um conceito idealizado de democracia que não existe em lugar algum a não ser em nossa imaginação delirante e que, por sua vez, tornar-se-ia inaplicável mesmo em relação as posturas tomadas por nós mesmos em relação as pessoas que são próximas de nós.

Olha, esse trololó de que um “verdadeiro” regime democrático seria tão só aquele em que todos seriam plenamente iguais não passa de uma quimera. Nem mesmo no berço da democracia, a cidade grega de Atenas, não se estendia o título de cidadãos a todos as pessoas, restringindo a participação na vida pública a apenas uma parcela da sociedade. Devemos lembrar também que nos regimes políticos que se auto-intitulam como sendo uma “democracia-popular”, foram e são justamente os regimes que mais tiranicamente governaram e governam o tal do povo e que mais cinicamente legitimam a desigualdade em nome do mesmo tal.

Ora, em todas as sociedades sempre temos, via de regra, a construção de um conceito de membro honrado da comunidade, conceito este que em nossa sociedade corresponde a alcunha de cidadão. Entretanto, o “ser cidadão” não é, do mesmo modo que a democracia, um conceito que pode ser compreendido de modo abstrato. Sua clara compreensão apenas se dá de modo satisfatório quando somos capazes de contextualizá-lo em sua realidade vivida, pois, este sempre será um conceito normativo que implicará em uma classificação dos atos dos indivíduos enquanto aceitáveis ou não pela comunidade. Ou seja, sempre o “ser cidadão” nada mais seria que um conjunto de atitudes que a comunidade espera que sejam realizadas na seara pública e bem como no universo cotidiano.

É sabido e clarividente que muitas vezes tais valores não se encontram redigidos em um documento oficial que normatize tais práticas, mas, encontram-se descritos de modo deveras evidente em nossa forma de nos relacionarmos com o nosso voto, com os poderes instituídos, com os nossos pares e com nossa consciência. Por isso que acho curioso que em nossa mídia muito se fala dos corruptos, mas pouco ou nada dos corruptores e suas ligações com os corruptos. Nós, meu caro, fazemos parte deste segundo grupo. Ou seja, compreende-se claramente o caráter de um regime democrático a partir do momento que paramos para refletir sobre os valores que norteiam a vida cotidiana das pessoas, ditas cidadãs, de uma dada sociedade, correto?

Por exemplo, o cidadão ateniense, segundo as palavras de Eduardo Mansano Bauman, “optando pela democracia, a exercia, também, de forma bastante diferente da encontrada atualmente. O ato da consciência política do cidadão ateniense não se restringia à legitimação de representantes que fariam, em outras instâncias, as opções que realmente importavam. O ateniense, em seu ato, deliberava diretamente acerca dos assuntos relevantes à vida da POLIS, significando que sua participação era direta e efetiva, e não apenas representativa, o que molda de forma absolutamente diversa a estrutura política daquela sociedade”.

Outro ponto relevante para darmos continuidade as nossas considerações é o fato de que na democracia ateniense havia um conjunto de valores claros para que um indivíduo pudesse integrar a vida política. Ora, vivia-se na polis de Atenas uma democracia fortemente acentuada por valores aristocráticos o que, ao nosso ver, tornava esse modelo originário bastante interessante quando pensamos em nossa “democracia patrimonialista”.

Falta-nos, de modo urgente, um conjunto de valores políticos, éticos e mesmo intelectuais para qualificar o que seria um cidadão em nossa pátria que, a cada dia, mais se assemelha a uma mediocracia. Falta-nos uma boa dose de valores aristocráticos para combater a organização oligárquica de nossa democracia (ou nossa democrática organização de nossas oligarquias).

Isso mesmo meu caro, vamos parar de nhenhenhé e trololó. Nossa patética democracia é apenas isso: um belíssimo arranjo para legitimar a distribuição do poder entre grupelhos que se assenhoram do poder em nossas comunidades locais, nos Estados e em nossa governança Federal e nada mais.

E o pior! Somos nós que tolamente legitimamos isso tudo com nossa participação sonsa na vida política de nossa sociedade. Olha, chega até ser engraçado muitos carros arretamados com adesivos de fulano ou cicrano. Fico a me indagar sobre as razões que levam um mané “enfeitar” o seu carro com a face caricato de outro mané. Passada essa euforia qual atitude que fica de nossa parte além de nosso olhar de moscas tontas frente a melequinha que ficou dos adesivos em nossos veículos e frente a imundice espalhada pelas ruas na forma de santinhos, qual? Alias, nominho mais infeliz para estes pedacinhos de papel, impossível, não é mesmo?

Por isso, sinceramente, acreditamos que uma boa dose de valores aristocráticos poderia revitalizar a nossa democracia. Chega de analfabeto funcional como legislador e como chefe do executivo. Chega de vermos pessoas fazerem da vida pública profissão encastelando-se no poder de modo perene. Chega desta circularidade de oligarquias no poder. Sejamos mais aristocráticos em nossas ponderações como os helenos de Atenas para, pelo menos, elevarmos a nossa via democrática e, gradativamente, abolirmos o mandonismo dos tiranetes populistas de nossa nação se assim desejarmos.

Obviamente que tal ação não se realiza em um ou dois pleitos e muito menos se resolve com a criação de uma nova LEI. Ela ocorrerá apenas a partir do momento em que nós mudarmos a nossa atitude frente o que somos e frente a conseqüência de nosso ser. Sem isso, continuaremos a zanzar nesta assembléia de inconscientes, marionetes do oportunismo alheio por sermos escravos de nossa fome irascível por vantagens pessoais.

A democracia é tida como sendo o melhor regime político possível para as sociedades modernas. Eis aí uma fala repetida a exaustão por inúmeras pessoas, para não dizer uma que é uma fala da maioria absoluta. Todavia, como muito bem nos lembrava o finado Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é..., por isso, como já é da natureza dessa coluna ser politicamente incorreta, aqui seremos mais uma vez obrigados, volvendo nossa pena para a direção desta que é tida como sendo redentora e salutar para o progresso da liberdade e da prosperidade da humanidade, que é a dita democracia.

Primeiramente apenas reflitamos sobre a forma como este regime político se adapta a cultura política de uma nação. Isso mesmo. Muitas das vezes ficamos a bradar bravatas contra tudo o que julgamos não ser uma democracia por efetuarmos a nossa “análise” dos fatos a partir de um conceito idealizado de democracia que não existe em lugar algum a não ser em nossa imaginação delirante e que, por sua vez, tornar-se-ia inaplicável mesmo em relação as posturas tomadas por nós mesmos em relação as pessoas que são próximas de nós.

Olha, esse trololó de que um “verdadeiro” regime democrático seria tão só aquele em que todos seriam plenamente iguais não passa de uma quimera. Nem mesmo no berço da democracia, a cidade grega de Atenas, não se estendia o título de cidadãos a todos as pessoas, restringindo a participação na vida pública a apenas uma parcela da sociedade. Devemos lembrar também que nos regimes políticos que se auto-intitulam como sendo uma “democracia-popular”, foram e são justamente os regimes que mais tiranicamente governaram e governam o tal do povo e que mais cinicamente legitimam a desigualdade em nome do mesmo tal.

Ora, em todas as sociedades sempre temos, via de regra, a construção de um conceito de membro honrado da comunidade, conceito este que em nossa sociedade corresponde a alcunha de cidadão. Entretanto, o “ser cidadão” não é, do mesmo modo que a democracia, um conceito que pode ser compreendido de modo abstrato. Sua clara compreensão apenas se dá de modo satisfatório quando somos capazes de contextualizá-lo em sua realidade vivida, pois, este sempre será um conceito normativo que implicará em uma classificação dos atos dos indivíduos enquanto aceitáveis ou não pela comunidade. Ou seja, sempre o “ser cidadão” nada mais seria que um conjunto de atitudes que a comunidade espera que sejam realizadas na seara pública e bem como no universo cotidiano.

É sabido e clarividente que muitas vezes tais valores não se encontram redigidos em um documento oficial que normatize tais práticas, mas, encontram-se descritos de modo deveras evidente em nossa forma de nos relacionarmos com o nosso voto, com os poderes instituídos, com os nossos pares e com nossa consciência. Por isso que acho curioso que em nossa mídia muito se fala dos corruptos, mas pouco ou nada dos corruptores e suas ligações com os corruptos. Nós, meu caro, fazemos parte deste segundo grupo. Ou seja, compreende-se claramente o caráter de um regime democrático a partir do momento que paramos para refletir sobre os valores que norteiam a vida cotidiana das pessoas, ditas cidadãs, de uma dada sociedade, correto?

Por exemplo, o cidadão ateniense, segundo as palavras de Eduardo Mansano Bauman, “optando pela democracia, a exercia, também, de forma bastante diferente da encontrada atualmente. O ato da consciência política do cidadão ateniense não se restringia à legitimação de representantes que fariam, em outras instâncias, as opções que realmente importavam. O ateniense, em seu ato, deliberava diretamente acerca dos assuntos relevantes à vida da POLIS, significando que sua participação era direta e efetiva, e não apenas representativa, o que molda de forma absolutamente diversa a estrutura política daquela sociedade”.

Outro ponto relevante para darmos continuidade as nossas considerações é o fato de que na democracia ateniense havia um conjunto de valores claros para que um indivíduo pudesse integrar a vida política. Ora, vivia-se na polis de Atenas uma democracia fortemente acentuada por valores aristocráticos o que, ao nosso ver, tornava esse modelo originário bastante interessante quando pensamos em nossa “democracia patrimonialista”.

Falta-nos, de modo urgente, um conjunto de valores políticos, éticos e mesmo intelectuais para qualificar o que seria um cidadão em nossa pátria que, a cada dia, mais se assemelha a uma mediocracia. Falta-nos uma boa dose de valores aristocráticos para combater a organização oligárquica de nossa democracia (ou nossa democrática organização de nossas oligarquias).

Isso mesmo meu caro, vamos parar de nhenhenhé e trololó. Nossa patética democracia é apenas isso: um belíssimo arranjo para legitimar a distribuição do poder entre grupelhos que se assenhoram do poder em nossas comunidades locais, nos Estados e em nossa governança Federal e nada mais.

E o pior! Somos nós que tolamente legitimamos isso tudo com nossa participação sonsa na vida política de nossa sociedade. Olha, chega até ser engraçado muitos carros arretamados com adesivos de fulano ou cicrano. Fico a me indagar sobre as razões que levam um mané “enfeitar” o seu carro com a face caricato de outro mané. Passada essa euforia qual atitude que fica de nossa parte além de nosso olhar de moscas tontas frente a melequinha que ficou dos adesivos em nossos veículos e frente a imundice espalhada pelas ruas na forma de santinhos, qual? Alias, nominho mais infeliz para estes pedacinhos de papel, impossível, não é mesmo?

Por isso, sinceramente, acreditamos que uma boa dose de valores aristocráticos poderia revitalizar a nossa democracia. Chega de analfabeto funcional como legislador e como chefe do executivo. Chega de vermos pessoas fazerem da vida pública profissão encastelando-se no poder de modo perene. Chega desta circularidade de oligarquias no poder. Sejamos mais aristocráticos em nossas ponderações como os helenos de Atenas para, pelo menos, elevarmos a nossa via democrática e, gradativamente, abolirmos o mandonismo dos tiranetes populistas de nossa nação se assim desejarmos.

Obviamente que tal ação não se realiza em um ou dois pleitos e muito menos se resolve com a criação de uma nova LEI. Ela ocorrerá apenas a partir do momento em que nós mudarmos a nossa atitude frente o que somos e frente a conseqüência de nosso ser. Sem isso, continuaremos a zanzar nesta assembléia de inconscientes, marionetes do oportunismo alheio por sermos escravos de nossa fome irascível por vantagens pessoais.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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