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05 Abr 2004

Propaganda Mentirosa

Escrito por 

É politicamente correto o uso de eufemismos para suavizar palavras ou expressões. Por exemplo, é mais confortador dizer países emergentes do que países subdesenvolvidos; mais atenuado falar em ocupação de terras no lugar de invasão de terras; menos rude mencionar propaganda enganosa ao invés de propaganda mentirosa.

É politicamente correto o uso de eufemismos para suavizar palavras ou expressões. Por exemplo, é mais confortador dizer países emergentes do que países subdesenvolvidos; mais atenuado falar em ocupação de terras no lugar de invasão de terras; menos rude mencionar propaganda enganosa ao invés de propaganda mentirosa.

Na realidade, se por um lado alcançamos razoável desenvolvimento em certos setores produtivos e em algumas regiões do país, por outro mantemos características do subdesenvolvimento, verificadas através de indicadores sociais.

Para piorar, no ano passado, segundo noticiado no O Estado de S.Paulo (01/04/04), “o IBGE anunciou que o Produto Interno Bruto (PIB) do país ficou em R$ 1,515 trilhão em 2003, o que representou queda de 0,2% ante o ano anterior. Descontada a inflação, a perda real foi de R$ 3 bilhões. Pelos cálculos da GlobalInvest, o PIB brasileiro caiu no ano passado da 12ª para a 15ª posição no ranking mundial. Também segundo o IBGE, a renda per capita do brasileiro foi de R$ 8.565,00 em 2003, uma queda real de 1,5%”. Portanto, acentuou-se o subdesenvolvimento e poderíamos ser chamados não de país emergente, mas imergente.

Quanto a mencionar invasões como sendo ocupações, tem o mesmo falso teor que é utilizado para classificar o MST como movimento social pertencente aos pobres deserdados da terra e vocacionados para as lides do campo. Na verdade o MST é um movimento revolucionário que utiliza a violência e o esbulho em suas invasões, muitas realizadas em terras produtivas.

O caráter político do MST pode ser claramente percebido no Curso de Capacitação de Militantes de Base do Cone Sul que, em finais de maio de 1999, foi ministrado pelo MST e pela Coordenadora Latino-Americana de Organizações do Campo – CLOC, em Sidrolândia (MS). Vejamos algumas conclusões do Curso que aparecem num texto-base:

“O MST se empenha para que as organizações sociais e políticas de esquerda retomem o trabalho de formação de militantes, com uma nova concepção: a de que é possível implantar o socialismo”.

“A reforma agrária ganhou outra dimensão e já não deve ser feita por razões econômicas como no passado e, sim, por razões políticas ou, se quisermos, por razões ideológicas”.

“Apenas ocupar a terra para trabalhar é uma posição já superada; esta posição se esgotou na luta pela conquista da terra vivenciada pelo MST na década passada”. (O Estado de S. Paulo, 02/06/99).

Desse modo, quando João Pedro Stédile, o mentor do MST, prometeu “infernizar” e transformar este abril num mês vermelho, ele não estava brincando, ainda que depois, no Senado, moderasse o tom e dissesse com jeito manso humilde que queria ter dito (o eufemismo) “azucrinar” no lugar de “infernizar”. Na realidade, infernizar é sua especialidade faz tempo e ele sabe, inclusive, que põe o governo de joelhos na hora que quiser para barbarizar do jeito que lhe aprouver através de seus comandados de foice e martelo, facão e revólver.

Com relação à propaganda, lembremos de que a palavra enganosa é sinônima de mentirosa, de fraudulenta, de falsa. Assim, foi mentira cabeluda a propaganda produzida sob a coordenação da agência de Duda Mendonça, que utilizou uma grande propriedade rural da região de Cotia (Grande São Paulo), pertencente ao proprietário rural Mário Ribeiro, como se estivesse mostrando ações e investimentos do governo destinados à agricultura familiar e agricultores de baixa renda. No mesmo tipo de propaganda incluí-se o presidente inaugurando na miserável Itinga (MG) a ponte que leva seu nome, mas que foi doação particular.

De fato o governo se transformou numa constante campanha eleitoral recheada de eufemismos, numa enorme propaganda mentirosa. O Programa Fome Zero era só propaganda e dele não se ouve mais falar; o Primeiro Emprego deu resultados pífios, o “maior projeto social do mundo” a ser feito por um superministro parece estar longe de acontecer; o espetáculo do crescimento não saiu do anúncio; e o escândalo Waldomiro Diniz, que agora sofre os efeitos da propaganda, só falta transformar o homem que pedia dinheiro ao bicheiro para campanha do PT e para si próprio em José Serra de peruca, flagrado numa trama diabólica para atingir José Dirceu e derrubar o presidente. Algo sensacional a ser transmitido em capítulos eletrizantes durante o Jornal Nacional da Rede Globo que tem atrás e si a generosidade do BNDS.   

De eufemismo em eufemismo o tempo passa e continuamos um país imergente, uma grande propaganda mentirosa que poderia ser um grande país, mas que continua um país grande por obra e graça de seus próprios eleitores.

Maria Lucia Victor Barbosa é socióloga e articulista.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:34
Maria Lúcia V. Barbosa

Graduada em Sociologia e Política e Administração Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Ciência Política pela UnB. É professora da Universidade Estadual de Londrina/PR. Articulista de vários jornais e sites brasileiros. É membro da Academia de Ciências, Artes e Letras de Londrina e premiada na área acadêmica com trabalhos como "Breve Ensaio sobre o Poder" e "A Favor de Nicolau Maquiavel Florentino".
E-mail: mlucia@sercomtel.com.br

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