Sex03222019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

07 Jun 2004

Os Limites da Política Econômica

Escrito por 

Como a prometida autonomia do Banco Central foi para as calendas, o jogo continua sendo disputado como sempre o foi, sob condições de subordinação da equipe econômica aos ditames do setor político.

Nem sempre os piores cegos são os daquele ditado - os que não querem ver -, mas os que acreditam que enxergam mais do que os outros... Alguns críticos da política monetária atual não merecem, sequer, atenção, dado que se limitam à velha tática de tentar desqualificar os adversários, acusando-os, sem que sequer os conheçam, de “defenderem os juros altos” por viverem de supostos ganhos nos mercados financeiros; outros revelam apenas interesses eleitoreiros, nas linhas e entrelinhas do que dizem ou escrevem; mas há os bem intencionados, em consideração aos quais cabem alguns esclarecimentos.

Como as atividades econômicas se realizam sempre em ambiente de maior ou menor incerteza, podem ser tratadas como um jogo,  com três participantes: a “equipe econômica” (Fazenda e Banco Central), a “equipe política” (demais ministros e base de apoio no Congresso) e o conjunto dos demais agentes econômicos e sociais. O referido jogo deve ser cooperativo (tal como no futebol), mas pode ser não cooperativo (como no boxe), pela ausência de coordenação entre as ações da equipe econômica e as da equipe política, exatamente o que vem ocorrendo no Brasil, governo após governo, esperança após esperança, frustração após frustração. Com efeito, poucos se dão conta de que as atribuições da equipe econômica esgotam-se nas medidas de curto prazo, conjunturais, já que providências estruturais, que possam alterar os regimes monetário e fiscal, dependem, nas democracias, da equipe política e das instituições.

No atual governo, a falta de coordenação pode ser assim resumida: enquanto a ala política defende, mesmo com algum pudor de fazê-lo explicitamente, o anacronismo de um Estado interventor, burocrático e posto a serviço do partido que ocupa o poder, a econômica – guiada pelo bom senso de não cair na velha tentação de inflacionar - é levada a adotar medidas antipáticas, para garantir a indispensável responsabilidade fiscal e monetária. Como a prometida autonomia do Banco Central foi para as calendas, o jogo continua sendo disputado como sempre o foi, sob condições de subordinação da equipe econômica aos ditames do setor político. O resultado é que, face à falta de determinação – e, no caso dos partidos ditos de “esquerda”, da absoluta falta de convicção - de que a estrutura e o valor presente dos gastos e da arrecadação precisam ser drasticamente alterados, pondo o Estado a serviço dos cidadãos, a Fazenda e o Banco Central vêem-se forçados a adotar políticas permanentemente duras.

Se a Economia está longe de ser uma ciência exata, é inegável que conseguiu construir, ao longo de muitos anos de tentativas e erros, em um processo cumulativo de aprendizado, um corpo de conhecimentos que não pode ser desqualificado e nem ficar sujeito a meros palpites de leigos ou, mesmo, de economistas despreparados. Não há qualquer sabedoria em defender a queda da taxa de juros, antes que a equipe política dê o suporte necessário para que o aperto fossa ser afrouxado! Dizer o oposto é defender o caos, especialmente quando quem o faz assume ares de quem enxerga muito mais do que consegue.

A política econômica tem limites.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:26
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.