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07 Jun 2004

Depois da Ideologia A Demagogia Chegou à Universidade

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É inegável que ingressar numa universidade pode se revestir de importante significado simbólico num país que valoriza o formal em detrimento do substancial. Mas não é garantia de nada: “muitos os chamados, poucos os escolhidos”.

Platão, o maior filósofo de todos os tempos, faz a sábia observação de que uma sociedade perfeita pressupõe uma educação perfeita e esta uma sociedade perfeita. O engano é supor que se pode ter um sistema de ensino muito melhor, em termos de propagação de virtudes cívicas e de criação de conhecimento, que a sociedade que o fornece. É fato que existe uma inequívoca relação entre nível educacional e padrão de vida. Na média, pessoas mais estudadas ganham mais e países desenvolvidos têm uma população com boa escolaridade. Isto, no entanto, não significa, como se começa a acreditar no Brasil, que distribuindo diplomas de nível superior se produzirá magicamente a melhoria da qualidade de vida da população pobre. Quem sentou por anos a fio em bancos escolares sabe que só uma pequena minoria se interessa por estudar para aprender. E é ela, e apenas ela, que vai se destacar profissionalmente tirando proveito econômico do conhecimento amealhado. A maioria freqüenta escolas e universidades enganando a si mesma, supondo que formaturas sejam ritos de passagem capazes de dotar de saber quem não o detém. Não por acaso, é muito difícil encontrar bons profissionais. Não levar isso em conta é pura hipocrisia.

É inegável que ingressar numa universidade pode se revestir de importante significado simbólico num país que valoriza o formal em detrimento do substancial. Mas não é garantia de nada: “muitos os chamados, poucos os escolhidos”. O País está cheio de desempregados de luxo, de gente que tem canudo mas não tem preparo. Há evidentemente pessoas de formação mediana que, por restrições conjunturais ou estruturais do mercado de trabalho, têm dificuldade de encontrar um lugar ao sol. A primeira coisa a reconhecer é que entrar numa universidade, per se, não assegura emprego nem bom salário. A maior escolaridade só propicia nível maior de renda aos que têm boa formação e aos se dedicam a atividades demandadas pela sociedade ou pelo mercado.Em ambientes marcados pela competição profissional o diploma por si só não significa muita coisa. Sem falar que abundam bacharéis apedeutas.

A performance profissional de qualidade, fruto de dedicação abnegada aos estudos, pode fazer a diferença. Não por acaso, na hora de recrutar mão de obra especializada - profissionais de gabarito - as empresas dão prioridade aos que se formaram em instituições prestigiosas. O sistema de cotas, que começa a se espalhar como praga, e o programa “Universidade para Todos” não levam em conta os fatos acima elencados. O “Universidade para Todos” pretende banalizar o ingresso na universidade esquecendo que, em muitos casos, uma boa formação técnica abre mais as portas do mercado de trabalho que um curso superior. O Brasil não consegue se livrar do bacharelismo, do fetichismo do diploma universitário. Só que o saber especializado não tem como ser devidamente assimilado por aqueles que apresentam sérias lacunas em sua formação escolar. A proposta de reservar 50% das vagas para alunos egressos de escolas públicas não passa, no fundo, de uma grande engambelação. Como 47% dos que freqüentam atualmente as universidades publicas vêm de escolas publicas, a medida proposta pelo governo à primeira vista parece inócua.

O problema é que desses 47% só uma minoria ingressa nos chamados cursos de elite – engenharia, medicina, odontologia, direito. Por serem extremamente disputados tendem a absorver apenas os que  freqüentaram boas escolas particulares. E não têm como ser bem acompanhados por aqueles que tiveram a desventura de estudar em escolas municipais e estaduais. Profissionais da saúde constituem, quando despreparados, uma ameaça aos que recorrem a seus serviços. Os que defendem o “protecionismo” das reservas de vagas não se socorrerão, quando tiverem problemas sérios de saúde, dos médicos que se beneficiaram das cotas e da lei discricionária. Recorrerão, caso tenham renda para tanto. a renomados profissionais.

Na verdade, a reserva de vagas só tenderá a afetar o ingresso nos cursos em que há uma acirrada disputa por vagas escassas. O que causa espécie é que a proposta de cotas encaminhada pelo governo ao Congresso assume claramente o pressuposto de que o fundamental não é a formação, e sim o ingresso. Se o ensino publico, básico e médio, não tem a qualidade mínima indispensável para credenciar alguém a ingressar numa boa universidade, proteja-se quem o recebeu facilitando seu ingresso na universidade. Se o maior contingente de pobres é de negros e pardos condenados a estudar em escolas de baixa qualidade, invoque-se o racismo para reservar vagas para eles. Assusta ver educadores defendendo cotas sem em momento algum mostrarem preocupação com a questão central da qualidade de ensino. Mandando às favas o principio da meritocracia, que é o pilar moral dos processos marcados por disputas, apóiam a monstruosidade acadêmica de avaliar concorrentes a vagas escassas na universidade sem colocar em primeiro plano o desempenho intelectual.

Sendo o primeiro e segundo graus ruins, a universidade só por milagre pode formar bons profissionais. No mundo real, poucos dos que tiverem o ingresso na universidade facilitado por “proteções legais” conseguirão fazer brilhantes carreiras. Não porque sejam intelectualmente inferiores, e sim porque a natureza não dá salto. Não se faz um bom 3o. grau sem ter feito um 1o. e 2o. graus ao menos razoáveis. Será que quando erros grosseiros começarem a ser cometidos por médicos e engenheiros mal formados, haverá severidade no julgamento ou se dirá que são vitimas de preconceito? Tudo isso é escamoteado por autoridades que, não se dispondo a abraçar a tarefa hercúlea de melhorar a escola pública brasileira, enveredam pela solução fácil de abarrotar a universidade com despreparados. Os tigres asiáticos fizeram grandes avanços sociais e econômicos quando revolucionaram seu sistema de ensino básico. Não passa de demagogia facilitar a entrada numa universidade aos que receberam um ensino de primeiro e segundo graus de baixa qualidade. O que se conseguirá com as cotas é aprofundar ainda mais o triste estado de calamidade pedagógica em que se encontra o ensino em geral no Brasil.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:25
Alberto Oliva

Filósofo, escritor e professor da UFRJ. Mestre em Comunicação e Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor-palestrante da EGN (Escola de Guerra Naval) e da ECEME (Escola de Comando e Estado-maior). Pesquisador 1-A do CNPq. É articulista do Jornal de Tarde desde 1993. Possui sigficativas publicações como "Liberdade e Conhecimento", "Ciência e Sociedade. Do Consenso à Revolução", "A Solidão da Cidadania", "Entre o Dogmatismo Arrogante e o Desespero Cético" e "Ciência e Ideologia".

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