Seg10212019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

26 Jul 2006

Neodogma Ambiental e Controle Social

Escrito por 
“Destruir a natureza” não é pecado, para quem não leva questões teológicas como norteadoras da vida social. Elas simplesmente não importam. Mas, destruir a natureza é, antes de mais nada, irracional.

A natureza, concordava um observador na década de 1820, era “notavelmente simples em todas suas ações, econômica em seus procedimentos e frugal em seus meios”. Poucos decênios depois, Karl Marx criticaria Charles Darwin por representar o estado selvagem do mundo animal como de livre-competição e por enxergar no mundo das plantas e dos bichos a própria sociedade inglesa, “com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, ‘invenções’, e a malthusiana ‘luta pela existência’”. Ao retratar as formas mais ferozes de competição como parte da ordem natural das coisas, Darwin se inseria na tradição daqueles numerosos autores precedentes para os quais as classes inferiores deveriam aceitar suas agruras de bom grado, pois a natureza asseguraria que tudo ocorria para o melhor. A fome e as mortes, pensava ele, eram os meios pelos quais a contínua produção de animais mais avançados era assegurada; “não se sente medo [...] a morte é em geral imediata [...] e os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobrevivem e se multiplicam”.

Keith Thomas, O Homem e o Mundo Natural


“Destruir a natureza” não é pecado, para quem não leva questões teológicas como norteadoras da vida social. Elas simplesmente não importam. Mas, destruir a natureza é, antes de mais nada, irracional. Trata-se de analisar a relação custo-benefício de uma ação sobre o meio ambiente. Custos e benefícios para a sociedade e a própria natureza, bem entendido. Já, o ambientalismo de massa é uma moda pseudo-intelectual sem reflexão sobre suas premissas, uma vez que sua crítica se direciona para uma suposta “essência da natureza” ou “o caráter intrinsecamente mau de nossa sociedade moderna”. Sua crítica deveria ser outra, a de que algo melhor poderia ser feito efetivamente para aproveitar nossos recursos de modo sustentável. E embora, os ambientalistas falem muito em sustentabilidade, sua particular concepção sobre a mesma, baseia-se na anulação da ação humana sobre os ecossistemas. O ser humano simplesmente é visto como um hóspede indesejável neste planeta. Por outro lado, tal proposição é sempre bem vinda para quem lucra com mensagens apocalípticas.

Uma palavrinha sobre a expressão “sustentável”: não me refiro aqui ao mantra ambientalista de que ela, a natureza, deve ser preservada de humanos, mas sim aproveitada de modo racional permitindo sua exploração sem extinção dos próprios recursos. E, por racional também divirjo do dogma de que só é alcançado via planificação estatal. A falta de racionalidade econômica leva, no limite, por definhar não só as espécies, mas o próprio meio abiótico que é base para a indústria extrativista. E isto deveria ser observado pelos liberais que se mantêm reticentes quanto à ecologia que, diferencio do ambientalismo de matizes socialistas.

O que lamento nisto tudo é que no afã de nos posicionarmos contra um modismo de “Nova Era”, a qual se associa o ambientalismo, ainda mais mesclado com uma retórica socialista, estejamos jogando o bebê fora com a água suja do banho. Explorar não é um problema em si, pois temos como subproduto a construção de novos ambientes reinventando a natureza, com vistas à perenidade da própria economia.  O prefixo eco desta palavra não é gratuito.

Ainda pode se objetar que a “realidade” não aponta para isto... Mas, como dizia o bom e saudoso Roberto Campos “estatística é como calcinha: mostra muito, mas esconde o essencial”. Alarmes sugestivos existem aos borbotões:

• Dois milhões de anos atrás, quando teria surgido a espécie humana, os impactos causados ao meio seriam muito menores do que hoje, com 6,2 milhões de seres humanos. Só esqueceram de comentar que, atualmente as técnicas de reciclagem e substituição de materiais também evoluíram, proporcionalmente;

• Outro dado sem muita análise diz que 40% da superfície terrestre foi alterado devido ao desmatamento, pastagens e pavimentação. Só não comentam também que o período maior de desmatamento correspondeu ao final da Idade Média e início do Renascimento, época em que se exigia maior aporte de recursos naturais e as inovações técnicas engatinhavam.

E, mesmo revistas de divulgação científica como a National Geographic (2002) comparam a ação humana a das placas tectônicas ou a New Scientist (2001) a um meteoro que, supostamente, teria extinguido os dinossauros. Bem entendido que são revistas de “divulgação científica” e não revistas acadêmicas que trabalham com menos certezas e mais probabilidades. Mas, há dois “detalhes” curiosos que atestam a falta de compreensão da natureza pelos próprios ambientalistas:

• Se não fosse pelas próprias placas tectônicas a se mover na crosta terrestre não teríamos a elevação de terrenos por orogênese (formação de montanhas) e epirogênese (soerguimento de superfície) e, sendo assim, não teríamos rios, nem vida no interior continental. Por acaso, os ambientalistas das revistas advogam um mundo plano como uma bola de bilhar?

• Se os ambientalistas realmente endossam os avanços científicos de uma teoria da evolução, a extinção dos dinossauros, seja qual for o motivo, não é um mal em si, mas prova evolutiva, de melhoria e adaptação das espécies. O exemplo foi péssimo, pois se quantitativamente tem algum sentido, qualitativamente é o contrário do que querem dizer.

O que mais temos são meras suposições e, a partir delas, o mainstream catastrofista vende imagens apocalípticas, bem ao gosto de fiéis em busca de novos dogmas. Além disto, ser radical é in, é chique, é bacana, o que é reflexo de um comportamento de grupo a que o jovem sem leitura e com péssimos professores é facilmente sugestionado.

Vejamos este claro exemplo de desinformação citado por Lomborg no já clássico O Ambientalista Cético: segundo Pimentel , a estimativa de erosão do solo, posteriormente generalizada para o mundo inteiro (!) por diversos outros “cientistas” e divulgadores, é de 17ton/hectare ao ano. Não é aterrador? Do jeito que vai, ficaremos “sem chão”... O “detalhe” é que este famoso estudo se baseou em uma única pesquisa de um lote de 0,11 hac na Bélgica. Apesar de o autor advertir contra generalizações, tais ocorreram abundantemente. Sem contar a internet, que favoreceu as comunicações mundiais, sem dúvida, mas também em medida maior, os famosos hoax ou pulhas virtuais que disseminam desinformações e exageros convenientes às agendas sectárias de nossos “verdes” e “vermelhos”.

Daí para ouvirmos com insistência que a população mundial não para de crescer; que a questão ambiental só pode ser resolvida pela redução da desigualdade social, i.e., por políticas de redistribuição de renda; que nós desapareceremos junto com toda a vida na Terra (para breve!) é um passo, preconceituosamente, lógico.

Não é isto que ocorre. Os problemas mundiais não estão aumentando, mas diminuindo. Segundo o mesmo Lomborg, em 1915, 75% dos jovens em países pobres era de analfabetos, hoje (1997-2001) são 16%; em 1970, apenas 30% da população do mundo subdesenvolvido tinha acesso à água potável, hoje são 80%.

É claro que apesar desta melhora, isto não significa que tenhamos atingido um estágio suficientemente bom. O ótimo é inimigo do bom... Mas, se não atentarmos para esta evolução positiva e, acreditarmos em visões dogmaticamente catastróficas, seremos úteis para o jogo dos que propõem maior controle estatal sobre os recursos e, sobre todo o mercado.

Controlando o meio abiótico, a livre-iniciativa, por que também não iriam almejar o controle da imprensa, dos meios de comunicação, da formulação de políticas e supressão do livre-arbítrio?

[1] Em Teoria da crise e a verdadeira escassez, apresento uma digressão à respeito.

[2] Pimentel et al. “Environmental and economic costs of soil erosion and conservation benefits.” Science 267:1, 117-23.

 

 

A natureza, concordava um observador na década de 1820, era “notavelmente simples em todas suas ações, econômica em seus procedimentos e frugal em seus meios”. Poucos decênios depois, Karl Marx criticaria Charles Darwin por representar o estado selvagem do mundo animal como de livre-competição e por enxergar no mundo das plantas e dos bichos a própria sociedade inglesa, “com sua divisão de trabalho, competição, abertura de novos mercados, ‘invenções’, e a malthusiana ‘luta pela existência’”. Ao retratar as formas mais ferozes de competição como parte da ordem natural das coisas, Darwin se inseria na tradição daqueles numerosos autores precedentes para os quais as classes inferiores deveriam aceitar suas agruras de bom grado, pois a natureza asseguraria que tudo ocorria para o melhor. A fome e as mortes, pensava ele, eram os meios pelos quais a contínua produção de animais mais avançados era assegurada; “não se sente medo [...] a morte é em geral imediata [...] e os vigorosos, os saudáveis e os felizes sobrevivem e se multiplicam”.

Keith Thomas, O Homem e o Mundo Natural


“Destruir a natureza” não é pecado, para quem não leva questões teológicas como norteadoras da vida social. Elas simplesmente não importam. Mas, destruir a natureza é, antes de mais nada, irracional. Trata-se de analisar a relação custo-benefício de uma ação sobre o meio ambiente. Custos e benefícios para a sociedade e a própria natureza, bem entendido. Já, o ambientalismo de massa é uma moda pseudo-intelectual sem reflexão sobre suas premissas, uma vez que sua crítica se direciona para uma suposta “essência da natureza” ou “o caráter intrinsecamente mau de nossa sociedade moderna”. Sua crítica deveria ser outra, a de que algo melhor poderia ser feito efetivamente para aproveitar nossos recursos de modo sustentável. E embora, os ambientalistas falem muito em sustentabilidade, sua particular concepção sobre a mesma, baseia-se na anulação da ação humana sobre os ecossistemas. O ser humano simplesmente é visto como um hóspede indesejável neste planeta. Por outro lado, tal proposição é sempre bem vinda para quem lucra com mensagens apocalípticas.

Uma palavrinha sobre a expressão “sustentável”: não me refiro aqui ao mantra ambientalista de que ela, a natureza, deve ser preservada de humanos, mas sim aproveitada de modo racional permitindo sua exploração sem extinção dos próprios recursos. E, por racional também divirjo do dogma de que só é alcançado via planificação estatal. A falta de racionalidade econômica leva, no limite, por definhar não só as espécies, mas o próprio meio abiótico que é base para a indústria extrativista. E isto deveria ser observado pelos liberais que se mantêm reticentes quanto à ecologia que, diferencio do ambientalismo de matizes socialistas.

O que lamento nisto tudo é que no afã de nos posicionarmos contra um modismo de “Nova Era”, a qual se associa o ambientalismo, ainda mais mesclado com uma retórica socialista, estejamos jogando o bebê fora com a água suja do banho. Explorar não é um problema em si, pois temos como subproduto a construção de novos ambientes reinventando a natureza, com vistas à perenidade da própria economia.  O prefixo eco desta palavra não é gratuito.

Ainda pode se objetar que a “realidade” não aponta para isto... Mas, como dizia o bom e saudoso Roberto Campos “estatística é como calcinha: mostra muito, mas esconde o essencial”. Alarmes sugestivos existem aos borbotões:

• Dois milhões de anos atrás, quando teria surgido a espécie humana, os impactos causados ao meio seriam muito menores do que hoje, com 6,2 milhões de seres humanos. Só esqueceram de comentar que, atualmente as técnicas de reciclagem e substituição de materiais também evoluíram, proporcionalmente;

• Outro dado sem muita análise diz que 40% da superfície terrestre foi alterado devido ao desmatamento, pastagens e pavimentação. Só não comentam também que o período maior de desmatamento correspondeu ao final da Idade Média e início do Renascimento, época em que se exigia maior aporte de recursos naturais e as inovações técnicas engatinhavam.

E, mesmo revistas de divulgação científica como a National Geographic (2002) comparam a ação humana a das placas tectônicas ou a New Scientist (2001) a um meteoro que, supostamente, teria extinguido os dinossauros. Bem entendido que são revistas de “divulgação científica” e não revistas acadêmicas que trabalham com menos certezas e mais probabilidades. Mas, há dois “detalhes” curiosos que atestam a falta de compreensão da natureza pelos próprios ambientalistas:

• Se não fosse pelas próprias placas tectônicas a se mover na crosta terrestre não teríamos a elevação de terrenos por orogênese (formação de montanhas) e epirogênese (soerguimento de superfície) e, sendo assim, não teríamos rios, nem vida no interior continental. Por acaso, os ambientalistas das revistas advogam um mundo plano como uma bola de bilhar?

• Se os ambientalistas realmente endossam os avanços científicos de uma teoria da evolução, a extinção dos dinossauros, seja qual for o motivo, não é um mal em si, mas prova evolutiva, de melhoria e adaptação das espécies. O exemplo foi péssimo, pois se quantitativamente tem algum sentido, qualitativamente é o contrário do que querem dizer.

O que mais temos são meras suposições e, a partir delas, o mainstream catastrofista vende imagens apocalípticas, bem ao gosto de fiéis em busca de novos dogmas. Além disto, ser radical é in, é chique, é bacana, o que é reflexo de um comportamento de grupo a que o jovem sem leitura e com péssimos professores é facilmente sugestionado.

Vejamos este claro exemplo de desinformação citado por Lomborg no já clássico O Ambientalista Cético: segundo Pimentel , a estimativa de erosão do solo, posteriormente generalizada para o mundo inteiro (!) por diversos outros “cientistas” e divulgadores, é de 17ton/hectare ao ano. Não é aterrador? Do jeito que vai, ficaremos “sem chão”... O “detalhe” é que este famoso estudo se baseou em uma única pesquisa de um lote de 0,11 hac na Bélgica. Apesar de o autor advertir contra generalizações, tais ocorreram abundantemente. Sem contar a internet, que favoreceu as comunicações mundiais, sem dúvida, mas também em medida maior, os famosos hoax ou pulhas virtuais que disseminam desinformações e exageros convenientes às agendas sectárias de nossos “verdes” e “vermelhos”.

Daí para ouvirmos com insistência que a população mundial não para de crescer; que a questão ambiental só pode ser resolvida pela redução da desigualdade social, i.e., por políticas de redistribuição de renda; que nós desapareceremos junto com toda a vida na Terra (para breve!) é um passo, preconceituosamente, lógico.

Não é isto que ocorre. Os problemas mundiais não estão aumentando, mas diminuindo. Segundo o mesmo Lomborg, em 1915, 75% dos jovens em países pobres era de analfabetos, hoje (1997-2001) são 16%; em 1970, apenas 30% da população do mundo subdesenvolvido tinha acesso à água potável, hoje são 80%.

É claro que apesar desta melhora, isto não significa que tenhamos atingido um estágio suficientemente bom. O ótimo é inimigo do bom... Mas, se não atentarmos para esta evolução positiva e, acreditarmos em visões dogmaticamente catastróficas, seremos úteis para o jogo dos que propõem maior controle estatal sobre os recursos e, sobre todo o mercado.

Controlando o meio abiótico, a livre-iniciativa, por que também não iriam almejar o controle da imprensa, dos meios de comunicação, da formulação de políticas e supressão do livre-arbítrio?

[1] Em Teoria da crise e a verdadeira escassez, apresento uma digressão à respeito.

[2] Pimentel et al. “Environmental and economic costs of soil erosion and conservation benefits.” Science 267:1, 117-23.

 

 

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.