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06 Jun 2004

O Roto Falando Mal do Esfarrapado

Escrito por 

“Os gastos do governo Lula com serviços e viagens deram um salto significativo neste ano. Se comparados com o mesmo período de 2003, o pagamento de diárias, material de consumo, passagens aéreas, consultorias, serviços de pessoas físicas, entre janeiro e abril deste ano aumentaram 17%. Em números absolutos, as despesas chegaram neste ano a R$ 1,661 bilhão”.

Na vida política brasileira, uma das coisas mais raras é um governante fazer seu sucessor. Do mesmo partido, é claro, pois de outro é coisa facílima, uma vez que o povo brasileiro ainda não aprendeu a votar nulo, coisa que muitos consideram que seria o fim da democracia. Ah! Lembro-me muito bem de nosso caso paroquial aqui no Rio de Janeiro. Leonel Brizola fez um governo tão bom que elegeu Moreira Franco. Este, por sua vez, fez um governo tão bom que elegeu Leonel Brizola.

E se as coisas forem por este caminho, temo que Lulinha Paz e Amor já esteja fazendo campanha para a eleição de José Serra, e eu fique cá pensando com meus botões: Será que câncer no útero é pior do que câncer na próstata? Só posso afirmar com absoluta certeza que do primeiro mal todos os machos estão livres.

Outra característica peculiar à vida política brasileira é a entediante repetição do mesmo realejo de ceguinho: é sempre o roto da oposição falando mal do esfarrapado da situação. Por exemplo: veementes eram as críticas de Lulinha Paz e Amor a FHC, dizendo que este só queria governar com medidas provisórias, dizendo que este mesmo só queria ficar viajando “para bajular os poderosos”. Porém, se as coisas prosseguirem no ritmo em que estão indo, Lulinha Paz e Amor há de superar triunfantemente FHC em medidas provisórias. E se FHC só viajava para bajular os poderosos, Lulinha Paz e Amor só viaja para adular os mendigos. Mas que se pode fazer se o primeiro tinha uma preferência por países do Primeiro Mundo, onde podia exercitar seu belo francês uspiano, mas o segundo - monolíngüe que é - só gosta de países do Terceiro Mundo, pois não consegue  tirar da cabeça uma idéia fixa: a de ser o Rei da Cocada Preta. “Deus te livre de uma idéia fixa, caro leitor”, já dizia o velho e bom Machado. Para os não-iniciados ou desmemoriados:  refiro-me a Machado de Assis.

Mas agora que o Brasil vai mandar tropas para o Haiti, apesar de Caetano Veloso dizer que o Haiti é aqui; agora que Lulinha Paz e Amor está de volta de sua magnífica viagem à terra de Law-Fen-Shong (recentemente preso como o maior contrabandista do Brasil), não custa nada verificar quanto o vampirizado contribuinte está pagando pela gastança. E isto é bastante fácil: basta acessar o site do SIAFI (Sistema Integrado de Administração Financeira). Mas como um iternauta já se deu ao trabalho de fazer tal coisa, limito-me aqui a reproduzir os dados colhidos por ele. “Os gastos do governo Lula com serviços e viagens deram um salto significativo neste ano. Se comparados com o mesmo período de 2003, o pagamento de diárias, material de consumo, passagens aéreas, consultorias, serviços de pessoas físicas, entre janeiro e abril deste ano aumentaram 17%. Em números absolutos, as despesas chegaram neste ano a R$ 1,661 bilhão”.

É claro que tão elevada cifra não se refere somente às viagens feitas pessoalmente por Lulinha Paz e Amor e sua “entourage” no sucatão: é a soma das despesas de vôos e diárias dos membros da Nomenklatura. Vale a pena entrar em detalhes, para se ter uma idéia de quem gasta mais: “Nesses primeiros quatro meses de 2004, o Ministério da Previdência é o recordista de gastos com pagamento de diárias (R$ 10,574 milhões), seguido, de perto, pelo da Justiça, que gastou R$ 9,678 milhões. Na terceira colocação vem o Ministério da Fazenda (R$ 8,424 milhões), seguido pela Saúde (R$ 6,901 milhões) e Educação (R$ 5,293 milhões)”. “Em relação aos gastos com passagens áreas, quem ocupa a liderança é o Ministério da Saúde: R$ 12,827 milhões. Vale lembrar que foi justamente esta pasta que esteve envolvida recentemente no escândalo de desvio de R$ 2 bilhões em dinheiro público. O segundo colocado foi o Ministério da Educação (R$ 11,906 milhões), seguido pela Fazenda (R$ 5,424 milhões). A pasta da Saúde também foi campeã de despesas no quesito material de consumo, com gastos declarados de R$ 47,268 milhões”. “A pasta que pagou mais caro por consultorias foi a dos Transportes – gastou R$ 8,579 milhões. O segundo colocado foi o Ministério de Minas e Energia (R$ 2,397 milhões). Entretanto, enquanto o Ministério dos Transportes acumulou um crescimento de 106% em relação aos gastos no mesmo período de 2003, o de Minas e Energia reduziu em 40% o custo da contratação dessas empresas”.

“O Ministério das Relações Exteriores liderou o ranking das contratações de pessoas físicas de janeiro até o mês passado (R$ 40,836 milhões), seguido pelos ministérios da Educação (R$ 30,422 milhões), da Saúde (R$ 10,437 milhões) e da Fazenda (R$ 9,341 milhões)”.

Como se pode perceber, as viagens pessoais de Lulinha Paz e Amor são fichinhas perto das viagens dos membros de seu governo. Ah! Deve ser justamente por isto que o índice de desaprovação de Lula é muito menor do que o de desaprovação do Governo de Lula. Como? Mas não se trata da mesma coisa? Claro que não, prezado leitor: uma coisa é D’Artagnan, outra os Três Mosqueteiros: Athos, Porthus e Aramis.  Uma coisa é Lula, outra o governo de Lula. Mas se Lula não se identifica com o governo de Lula, com os atos praticados por ele próprio e por seus ministros no estrito exercício de suas respectivas funções, com que raio de coisa se identifica ele? Ah! Só pode ser com aquele sujeito que bate uma bolinha na Granja do Torto com a camisa do Corinthians e bonezinho dos Sem-Terra e, depois da pelada com  os amigos, entra numa boa picanha regada a cervejinha e caipirinha. Mas...

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Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:26
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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