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14 Jul 2006

Criacionismo de Caso

Escrito por 
Outro argumento criacionista consiste em dizer que o ensino de religião nas escolas leva a restauração da “fibra moral” da nação. Isto não deixa de ser verdade, mas tal afirmação exclui o questionamento de que tipo de moral.

Mostre-me um relativista cultural a trinta mil pés de altura e eu te mostrarei um hipócrita. Aviões são construídos de acordo com princípios científicos e funcionam. Eles se mantêm no ar e te levam a um destino escolhido. Aviões construídos por especificações tribais ou mitológicas como as imagens de aviões dos cultos de Cargo em clareiras na selva ou asas de cera de Ícaro não.

Richard Dawkins

Se a ciência como sugerem alguns críticos criacionistas, não passa de uma outra religião, decorre que a religião pode ser vista como uma outra ciência. Se isto for reconhecido publicamente por alguma autoridade, o próximo passo é obrigar o ensino público de religião, tal como se faz com a biologia e outras disciplinas.
O Instituto da Ciência Criacionista, através de Phillip Johnson, mantém a posição de que a ciência é próxima da religião. Sendo assim, as escolas públicas deveriam ensinar religião. Isto não passa de um sofisma, pois se formos admitir todos os preceitos de outras épocas como sendo eminentemente atuais, então a afirmação de Locke, no século XVII, de que os ateus deveriam ser mortos também poderia ser considerada como válida para nós. Claro que qualquer liberal caricato que se esquece que o próprio Locke afinava com Hobbes antes de se voltar contra este, também não gostará de admitir que a religião se fundamenta em dogmas passíveis de relativização histórica conforme sua compreensão atual. Casos de anacronismo intelectual como estes não compreendem o conceito de evolução na natureza, tampouco compreendem a própria evolução do conhecimento. Se fossemos adotar uma premissa destas, estaríamos justificando outra posição análoga: a de que teístas e religiosos deveriam ser mortos, caso alguma “constelação de forças” assim o permitisse. Nem hoje, nem nunca e o mesmo vale para aqueles que mantêm qualquer fé. E, por mais irracional que uma determinada fé possa parecer aos dias de hoje, ela tem seu direito à existência. O que deve ser condenado, obviamente, são práticas, científicas e religiosas tanto faz, que atentem contra o direito individual. Sejam estas em nome de deus, da raça, de um “bem maior” qualquer.
Pior do que esta confusão, uma vez que ciência se faz com evidências, comprovações e, sobretudo, refutações e religião com fé é que, o espírito do que se convencionou chamar ciência não admite imposições desta natureza e é hilário que um instituto que traz “ciência” no nome faça este tipo de apologia.
Outro argumento criacionista consiste em dizer que o ensino (obrigatório, sempre é bom lembrar) de religião nas escolas leva a restauração da “fibra moral” da nação. Isto não deixa de ser verdade, mas tal afirmação exclui o questionamento de que tipo de moral. Parte-se da premissa de que a única moral viável seja a religiosa, de que não haja moral ou conduta baseada em direitos e deveres a partir do indivíduo em relação à sociedade ou comunidade. Não é estranho que alguns criacionistas sejam os próprios críticos conservadores que tanto bradam contra as ideologias coletivistas, justamente os que se utilizam de premissas morais anti-individualistas, logo coletivistas?
Argumentar que o criacionismo é tão “científico” quanto a teoria da evolução, por exemplo, de modo meramente tautológico, consiste em uma estratégia para minar a percepção social da ciência. Malgrado, os EUA de hoje parecem um campo propício para tal tipo de experimento que conduz, por lógica, à aproximação entre religião e estado, cujas conseqüências nefastas conhecemos em países muçulmanos governados por teocracias. Reiterando o que disse, a religião não trabalha com questionamentos, confrontações, conjecturas, refutações, testes, comprovações, previsões baseadas em possibilidades e/ou probabilidades, pesquisas que coloquem premissas em cheques, tampouco se preocupa com novas descobertas. Isto pode até ocorrer no debate do campo teológico, mas o ensino de religião, por seu turno, busca asseverar seus dogmas que devem ser respeitados dentro do próprio âmbito religioso. No entanto, estes não devem se estender, compulsoriamente, a uma sociedade laica.
Um exemplo disto é a simples menção de que, em tempos bíblicos, seria possível andar sobre o gelo com uma fina camada de água sobreposta no chamado “Mar da Galiléia”, atual Lago Kinneret. Tal exemplo é suficiente para que religiosos achem que se trata de um ataque frontal a sua fé, especificamente um dos milagres de Cristo. Qualquer estudo que verse sobre dados bíblicos pode ser tomado como afronta à ortodoxia cristã, mesmo que não seja esta a intenção, pelo simples fato de que relativiza informações obtidas e repassadas há milhares de anos. Se for, é por que sua fé é fraca e só adquire força sem divergências e controvérsias.
Uma crítica comum dos criacionistas para advogarem o ensino religioso é que a civilização cristã mundial está decaindo devido ao “materialismo crescente” de nossas sociedades. Dois pontos a objetar: em primeiro lugar, nossa civilização não é essencialmente cristã, é baseada nos moldes de uma sociedade aberta, isto é, aceita e acata diferentes perspectivas cosmológicas e éticas desde que se adaptem aos seus princípios gerais prescritos nas várias constituições nacionais.
 
Em segundo, a idéia de materialismo e idealismo como um par dicotomizado paga um tributo à influência marxiana do século XIX, embora muitos de seus apologistas se digam críticos de Marx. Sei que tal separação entre “matéria” e “idéia” é bem anterior ao próprio Marx, mas disseminou-se amplamente após ele. Autores marxistas, na sua maioria, admitem que o “campo das idéias” é um mero reflexo da base, ou seja, a relação estrutural entre relações de produção e forças produtivas chamando toda cultura, ideologia e política de superestrutura. Ou seja, um mero reflexo.
 
Sei também que o “materialismo crescente” que acusam os religiosos é o ético, enquanto que o materialismo de Marx é o “histórico e dialético”. Enquanto que o primeiro caso seria uma tendência nefasta, o segundo é uma metodologia de análise social. Mas, para além destas distinções há um ponto comum: ambos, conservadores religiosos e revolucionários marxistas partem do mesmo pressuposto que é a separação entre matéria e idéia e que, no caso, poderíamos atualizar como economia e cultura.*
 
Joguemos intencionalmente com a palavra “matéria”... precisamente para mostrar como, em contexto diferente, o mesmo nome pode significar algo distinto. Se admitirmos as idéias, cultura, pensamentos como influenciadores, por que não haveriam de serem “materiais”, no sentido de terem respaldo em ações sociais e fatos da vida cotidiana? Se Marx não achava assim, é por que excluía uma parte significativa da vida social em sua filosofia. Mesmo por que se admitisse a primeira, teria que reformular a segunda.
 
Por outro lado, o materialismo que acusam os religiosos existe mesmo, ou apenas os ideais e a espiritualidade que advogam é buscada em outros “ambientes”? Lembre-se que com a urbanização, a pacata vida rural que tinha a paróquia como centro de manifestação cultural, com suas festas, quermesses etc., foi sendo substituída, por outros centros de lazer e (por que não?) reflexão. Sendo assim, fica fácil e, grotescamente equivocado, admitir que a fonte de espiritualidade encontra-se somente em alguma religião institucionalizada. Podemos tê-la nos teatros, cinemas, bibliotecas, na internet ou, “dependendo da alma”, nos bulevares, praças etc. No fundo, os conservadores religiosos ao não admitirem outros “pólos de inspiração espiritualista” querem, igualmente, o monopólio de toda e qualquer manifestação espiritual.
 
Recapitulando: se a civilização não é só, ou principalmente, cristã, mas tem relações e origem (parcial) no Cristianismo e a acusação de “materialismo” como causa de alguma decadência também é ficção, a crítica religiosa e o apelo ao criacionismo não se justificam. Além de tudo, o que fica patente perceber é que enquanto para religiosos o diagnóstico e cura para alguma mazela social já está pronto, já tem sua “receitinha de bolo”, para quem realmente quer discutir o tema em bases científicas, a discussão está apenas começando.
 
Se religiosos querem criar caso, agora têm que se expor à crítica de não religiosos, sejam eles teístas ou ateus.
 


*Para refutar este tipo de filosofia, Weber é de grande valia. O sociólogo dava um peso tão grande à cultura que, após ele e seu Economia e Sociedade, qualquer outro pensador que não afirme que a cultura seja “algo material”, i.e., com práticas e efeitos concretos sobre a realidade social, simplesmente não é levado a sério.
 
Admitir a capacidade de influenciar das idéias e da cultura em geral implica em aceitar que elas, assim como a economia, o ambiente, a genética determinam, mas não sob uma única lógica causal, isto é, uma determinação em última instância. Como diria Weber, são múltiplas determinações que acabam anulando, no mais das vezes, qualquer tentativa de hierarquização. O máximo que podemos ter neste sentido são modelos, tipos ideais na linguagem weberiana. Tais modelos são “estados puros”, não encontrados empiricamente, quando postos à verificação. São modelos que são utilizados como “redes” para captar justamente a variação de casos que constitui a própria realidade.

Mostre-me um relativista cultural a trinta mil pés de altura e eu te mostrarei um hipócrita. Aviões são construídos de acordo com princípios científicos e funcionam. Eles se mantêm no ar e te levam a um destino escolhido. Aviões construídos por especificações tribais ou mitológicas como as imagens de aviões dos cultos de Cargo em clareiras na selva ou asas de cera de Ícaro não.

Richard Dawkins

Se a ciência como sugerem alguns críticos criacionistas, não passa de uma outra religião, decorre que a religião pode ser vista como uma outra ciência. Se isto for reconhecido publicamente por alguma autoridade, o próximo passo é obrigar o ensino público de religião, tal como se faz com a biologia e outras disciplinas.
O Instituto da Ciência Criacionista, através de Phillip Johnson, mantém a posição de que a ciência é próxima da religião. Sendo assim, as escolas públicas deveriam ensinar religião. Isto não passa de um sofisma, pois se formos admitir todos os preceitos de outras épocas como sendo eminentemente atuais, então a afirmação de Locke, no século XVII, de que os ateus deveriam ser mortos também poderia ser considerada como válida para nós. Claro que qualquer liberal caricato que se esquece que o próprio Locke afinava com Hobbes antes de se voltar contra este, também não gostará de admitir que a religião se fundamenta em dogmas passíveis de relativização histórica conforme sua compreensão atual. Casos de anacronismo intelectual como estes não compreendem o conceito de evolução na natureza, tampouco compreendem a própria evolução do conhecimento. Se fossemos adotar uma premissa destas, estaríamos justificando outra posição análoga: a de que teístas e religiosos deveriam ser mortos, caso alguma “constelação de forças” assim o permitisse. Nem hoje, nem nunca e o mesmo vale para aqueles que mantêm qualquer fé. E, por mais irracional que uma determinada fé possa parecer aos dias de hoje, ela tem seu direito à existência. O que deve ser condenado, obviamente, são práticas, científicas e religiosas tanto faz, que atentem contra o direito individual. Sejam estas em nome de deus, da raça, de um “bem maior” qualquer.
Pior do que esta confusão, uma vez que ciência se faz com evidências, comprovações e, sobretudo, refutações e religião com fé é que, o espírito do que se convencionou chamar ciência não admite imposições desta natureza e é hilário que um instituto que traz “ciência” no nome faça este tipo de apologia.
Outro argumento criacionista consiste em dizer que o ensino (obrigatório, sempre é bom lembrar) de religião nas escolas leva a restauração da “fibra moral” da nação. Isto não deixa de ser verdade, mas tal afirmação exclui o questionamento de que tipo de moral. Parte-se da premissa de que a única moral viável seja a religiosa, de que não haja moral ou conduta baseada em direitos e deveres a partir do indivíduo em relação à sociedade ou comunidade. Não é estranho que alguns criacionistas sejam os próprios críticos conservadores que tanto bradam contra as ideologias coletivistas, justamente os que se utilizam de premissas morais anti-individualistas, logo coletivistas?
Argumentar que o criacionismo é tão “científico” quanto a teoria da evolução, por exemplo, de modo meramente tautológico, consiste em uma estratégia para minar a percepção social da ciência. Malgrado, os EUA de hoje parecem um campo propício para tal tipo de experimento que conduz, por lógica, à aproximação entre religião e estado, cujas conseqüências nefastas conhecemos em países muçulmanos governados por teocracias. Reiterando o que disse, a religião não trabalha com questionamentos, confrontações, conjecturas, refutações, testes, comprovações, previsões baseadas em possibilidades e/ou probabilidades, pesquisas que coloquem premissas em cheques, tampouco se preocupa com novas descobertas. Isto pode até ocorrer no debate do campo teológico, mas o ensino de religião, por seu turno, busca asseverar seus dogmas que devem ser respeitados dentro do próprio âmbito religioso. No entanto, estes não devem se estender, compulsoriamente, a uma sociedade laica.
Um exemplo disto é a simples menção de que, em tempos bíblicos, seria possível andar sobre o gelo com uma fina camada de água sobreposta no chamado “Mar da Galiléia”, atual Lago Kinneret. Tal exemplo é suficiente para que religiosos achem que se trata de um ataque frontal a sua fé, especificamente um dos milagres de Cristo. Qualquer estudo que verse sobre dados bíblicos pode ser tomado como afronta à ortodoxia cristã, mesmo que não seja esta a intenção, pelo simples fato de que relativiza informações obtidas e repassadas há milhares de anos. Se for, é por que sua fé é fraca e só adquire força sem divergências e controvérsias.
Uma crítica comum dos criacionistas para advogarem o ensino religioso é que a civilização cristã mundial está decaindo devido ao “materialismo crescente” de nossas sociedades. Dois pontos a objetar: em primeiro lugar, nossa civilização não é essencialmente cristã, é baseada nos moldes de uma sociedade aberta, isto é, aceita e acata diferentes perspectivas cosmológicas e éticas desde que se adaptem aos seus princípios gerais prescritos nas várias constituições nacionais.
 
Em segundo, a idéia de materialismo e idealismo como um par dicotomizado paga um tributo à influência marxiana do século XIX, embora muitos de seus apologistas se digam críticos de Marx. Sei que tal separação entre “matéria” e “idéia” é bem anterior ao próprio Marx, mas disseminou-se amplamente após ele. Autores marxistas, na sua maioria, admitem que o “campo das idéias” é um mero reflexo da base, ou seja, a relação estrutural entre relações de produção e forças produtivas chamando toda cultura, ideologia e política de superestrutura. Ou seja, um mero reflexo.
 
Sei também que o “materialismo crescente” que acusam os religiosos é o ético, enquanto que o materialismo de Marx é o “histórico e dialético”. Enquanto que o primeiro caso seria uma tendência nefasta, o segundo é uma metodologia de análise social. Mas, para além destas distinções há um ponto comum: ambos, conservadores religiosos e revolucionários marxistas partem do mesmo pressuposto que é a separação entre matéria e idéia e que, no caso, poderíamos atualizar como economia e cultura.*
 
Joguemos intencionalmente com a palavra “matéria”... precisamente para mostrar como, em contexto diferente, o mesmo nome pode significar algo distinto. Se admitirmos as idéias, cultura, pensamentos como influenciadores, por que não haveriam de serem “materiais”, no sentido de terem respaldo em ações sociais e fatos da vida cotidiana? Se Marx não achava assim, é por que excluía uma parte significativa da vida social em sua filosofia. Mesmo por que se admitisse a primeira, teria que reformular a segunda.
 
Por outro lado, o materialismo que acusam os religiosos existe mesmo, ou apenas os ideais e a espiritualidade que advogam é buscada em outros “ambientes”? Lembre-se que com a urbanização, a pacata vida rural que tinha a paróquia como centro de manifestação cultural, com suas festas, quermesses etc., foi sendo substituída, por outros centros de lazer e (por que não?) reflexão. Sendo assim, fica fácil e, grotescamente equivocado, admitir que a fonte de espiritualidade encontra-se somente em alguma religião institucionalizada. Podemos tê-la nos teatros, cinemas, bibliotecas, na internet ou, “dependendo da alma”, nos bulevares, praças etc. No fundo, os conservadores religiosos ao não admitirem outros “pólos de inspiração espiritualista” querem, igualmente, o monopólio de toda e qualquer manifestação espiritual.
 
Recapitulando: se a civilização não é só, ou principalmente, cristã, mas tem relações e origem (parcial) no Cristianismo e a acusação de “materialismo” como causa de alguma decadência também é ficção, a crítica religiosa e o apelo ao criacionismo não se justificam. Além de tudo, o que fica patente perceber é que enquanto para religiosos o diagnóstico e cura para alguma mazela social já está pronto, já tem sua “receitinha de bolo”, para quem realmente quer discutir o tema em bases científicas, a discussão está apenas começando.
 
Se religiosos querem criar caso, agora têm que se expor à crítica de não religiosos, sejam eles teístas ou ateus.
 


*Para refutar este tipo de filosofia, Weber é de grande valia. O sociólogo dava um peso tão grande à cultura que, após ele e seu Economia e Sociedade, qualquer outro pensador que não afirme que a cultura seja “algo material”, i.e., com práticas e efeitos concretos sobre a realidade social, simplesmente não é levado a sério.
 
Admitir a capacidade de influenciar das idéias e da cultura em geral implica em aceitar que elas, assim como a economia, o ambiente, a genética determinam, mas não sob uma única lógica causal, isto é, uma determinação em última instância. Como diria Weber, são múltiplas determinações que acabam anulando, no mais das vezes, qualquer tentativa de hierarquização. O máximo que podemos ter neste sentido são modelos, tipos ideais na linguagem weberiana. Tais modelos são “estados puros”, não encontrados empiricamente, quando postos à verificação. São modelos que são utilizados como “redes” para captar justamente a variação de casos que constitui a própria realidade.
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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