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18 Jun 2006

Muito Além do Gramado

Escrito por 
Futebol é diversão que dá lucro. Sigam seu exemplo, exportem-se, vendam-se, sejam seus próprios agenciadores por que existe mercado esperando pelos seus gols no campo e nos laboratórios. Sejam artilheiros com seus próprios regulamentos.

Conheci um sujeito que cursara escola técnica, passara no ITA em São José dos Campos, mas em épocas de pré-Embraer reavivada, achou que ganharia mais dinheiro como médico. Estudou, passou no vestibular e foi fazer medicina na USP de Ribeirão Preto. Desiludido com os percalços de sua profissão e com as tramóias que muitos profissionais da saúde fazem para gerar renda, deixou sua vocação guiá-lo novamente e se dedicou à pesquisa médica na área oftalmológica. Como bolsista, com muito esforço conseguiu participar de um congresso em Miami.

Alguns detalhes curiosos: esse sujeito tinha duas paixões, seu violão e o futebol. Apesar de fazer concessões a um Beatles ou outra coisa, tocava muita MPB mesmo, o que era um detalhe de seu nacionalismo estético: era do tipo que não dizia “e-mail”, mas “correio eletrônico”. Haja paciência...

Sempre falava que nunca abandonaria o país, que jamais sairia daqui por que amava demais esta terra e etc. etc. e etc. Bem, a vida é irônica. Na Flórida, foi descoberto por um japonês que se interessou por sua pesquisa, um método não invasivo de leitura dos olhos com uma câmera associada a um programa desenvolvido por ele. O pesquisador conseguiu-lhe um contato em Chicago que conseguiu outro em Tünbigen, onde foi parar fazendo pesquisas para o sistema de saúde alemão. Ele está lá até hoje fazendo seu pós-doutorado e não dá sinais de voltar. Querer voltar pode até querer, mas seu trabalho não encontra guarida aqui, no way... ôôps! Perdoe-me pelo anglicismo, mate!

O que quero dizer com esta história? Nosso país é bom naquilo que não tem medo de competir. Não se questiona que o futebol não é genuinamente nacional, não foi criado aqui ou outra bobagem destas. Ele foi incorporado e isto é mais importante, por que é praticado. Nossa matéria-prima são os milhões de jovens que o praticam sem ingerência estatal como as escolas têm do MEC. Por isto a qualidade de nosso futebol é inversamente proporcional a de nossa educação pública. Isto está além de qualquer ideologia de “esquerda”, de “direita” ou qualquer coisa. É algo que emana do povo, é genuíno.

Sei, sei, também detesto o ufanismo forçado que o cerca, mas isto ocorre por que é um dos poucos espaços que sobram a nossa livre iniciativa. Um país que exige de seus empresários mais de 150 dias para montar uma empresa não permite que se façam muitos “gols” em outras áreas. Portanto, sobra a área dos gramados, mas seu efeito vai além da goleira. O exemplo deste jovem que citei é de muitos que têm no exterior uma chance. É aí que nosso futebol e um “nacionalismo ativo” que interage com a globalização faz o país crescer. Viva os ronaldos por que eles não tiveram o pesar de serem cerceados em alguma escolinha pública de futebol. Aprenderam na marra e soltaram sua criatividade. Malgrado, nossa desorganização institucional e peso tributário exportam mais empregos neste setor, mas pelo menos geram empregos. Antes isto do que nada.

São os barcelonas, reais madris que lucram mais com eles. Que seja! Também, logo estaremos importando a tecnologia alemã na óptica feita por um brasileiro que não teve crédito no próprio Brasil.

Futebol não é para “mudar o país”. Quem achava que era uma espécie de “ópio do povo brasileiro”, eram os comunistas. Será que uma “direita impaciente” também não segue seus mesmos passos? Jogar bola é criar, como se criou um sincretismo religioso no Brasil para desgosto de uma ortodoxia católica. Contra esse conservadorismo estético, tome boas doses de anarquismo cultural.

Futebol é diversão que dá lucro. Sigam seu exemplo, exportem-se, vendam-se, sejam seus próprios agenciadores por que existe mercado esperando pelos seus gols no campo e nos laboratórios. Sejam artilheiros com seus próprios regulamentos.

Ah, sim! Meu camarada ainda contou-me que para se entrosar no referido congresso de Miami, procurou o time de médicos brasileiros que nunca tinham perdido uma “copa de futebol” nos congressos internacionais de oftalmologia. Como o time estava completo e diziam, era bom, não havia lugar para iniciantes como ele. Desconsolado, teve que apelar para os “perebas” escoceses.

Ao final do torneio, o placar era Escócia 1 X Brasil 0. E adivinhe de quem foi o gol da vitória?

Conheci um sujeito que cursara escola técnica, passara no ITA em São José dos Campos, mas em épocas de pré-Embraer reavivada, achou que ganharia mais dinheiro como médico. Estudou, passou no vestibular e foi fazer medicina na USP de Ribeirão Preto. Desiludido com os percalços de sua profissão e com as tramóias que muitos profissionais da saúde fazem para gerar renda, deixou sua vocação guiá-lo novamente e se dedicou à pesquisa médica na área oftalmológica. Como bolsista, com muito esforço conseguiu participar de um congresso em Miami.

Alguns detalhes curiosos: esse sujeito tinha duas paixões, seu violão e o futebol. Apesar de fazer concessões a um Beatles ou outra coisa, tocava muita MPB mesmo, o que era um detalhe de seu nacionalismo estético: era do tipo que não dizia “e-mail”, mas “correio eletrônico”. Haja paciência...

Sempre falava que nunca abandonaria o país, que jamais sairia daqui por que amava demais esta terra e etc. etc. e etc. Bem, a vida é irônica. Na Flórida, foi descoberto por um japonês que se interessou por sua pesquisa, um método não invasivo de leitura dos olhos com uma câmera associada a um programa desenvolvido por ele. O pesquisador conseguiu-lhe um contato em Chicago que conseguiu outro em Tünbigen, onde foi parar fazendo pesquisas para o sistema de saúde alemão. Ele está lá até hoje fazendo seu pós-doutorado e não dá sinais de voltar. Querer voltar pode até querer, mas seu trabalho não encontra guarida aqui, no way... ôôps! Perdoe-me pelo anglicismo, mate!

O que quero dizer com esta história? Nosso país é bom naquilo que não tem medo de competir. Não se questiona que o futebol não é genuinamente nacional, não foi criado aqui ou outra bobagem destas. Ele foi incorporado e isto é mais importante, por que é praticado. Nossa matéria-prima são os milhões de jovens que o praticam sem ingerência estatal como as escolas têm do MEC. Por isto a qualidade de nosso futebol é inversamente proporcional a de nossa educação pública. Isto está além de qualquer ideologia de “esquerda”, de “direita” ou qualquer coisa. É algo que emana do povo, é genuíno.

Sei, sei, também detesto o ufanismo forçado que o cerca, mas isto ocorre por que é um dos poucos espaços que sobram a nossa livre iniciativa. Um país que exige de seus empresários mais de 150 dias para montar uma empresa não permite que se façam muitos “gols” em outras áreas. Portanto, sobra a área dos gramados, mas seu efeito vai além da goleira. O exemplo deste jovem que citei é de muitos que têm no exterior uma chance. É aí que nosso futebol e um “nacionalismo ativo” que interage com a globalização faz o país crescer. Viva os ronaldos por que eles não tiveram o pesar de serem cerceados em alguma escolinha pública de futebol. Aprenderam na marra e soltaram sua criatividade. Malgrado, nossa desorganização institucional e peso tributário exportam mais empregos neste setor, mas pelo menos geram empregos. Antes isto do que nada.

São os barcelonas, reais madris que lucram mais com eles. Que seja! Também, logo estaremos importando a tecnologia alemã na óptica feita por um brasileiro que não teve crédito no próprio Brasil.

Futebol não é para “mudar o país”. Quem achava que era uma espécie de “ópio do povo brasileiro”, eram os comunistas. Será que uma “direita impaciente” também não segue seus mesmos passos? Jogar bola é criar, como se criou um sincretismo religioso no Brasil para desgosto de uma ortodoxia católica. Contra esse conservadorismo estético, tome boas doses de anarquismo cultural.

Futebol é diversão que dá lucro. Sigam seu exemplo, exportem-se, vendam-se, sejam seus próprios agenciadores por que existe mercado esperando pelos seus gols no campo e nos laboratórios. Sejam artilheiros com seus próprios regulamentos.

Ah, sim! Meu camarada ainda contou-me que para se entrosar no referido congresso de Miami, procurou o time de médicos brasileiros que nunca tinham perdido uma “copa de futebol” nos congressos internacionais de oftalmologia. Como o time estava completo e diziam, era bom, não havia lugar para iniciantes como ele. Desconsolado, teve que apelar para os “perebas” escoceses.

Ao final do torneio, o placar era Escócia 1 X Brasil 0. E adivinhe de quem foi o gol da vitória?

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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