Seg10212019

Last updateDom, 01 Set 2013 9am

04 Jun 2004

Jornalismo ou Propaganda Enganosa?

Escrito por 

Olavo de Carvalho responde aos questionamentos de um leitor do jornal Folha de S. Paulo sobre o artigo "Arma de guerra".

1) Carta do leitor Zenon Lotuffo Júnior à Folha de S. Paulo:

"Leitor da Folha há mais de cinqüenta anos, agora fiquei sabendo, pelo ilustre jornalista Olavo de Carvalho ("Arma de guerra", "Tendências/Debates", 20/5), que as informações que tenho recebido lendo esse jornal provêem de "espertalhões conscientes" e "idiotas úteis que não têm idéia da origem remota de suas opiniões". Adverte também o preclaro senhor Carvalho que "a ocupação mais constante e regular" desse jornal, como integrante da grande mídia, é a "desinformação". Sou, por isso, exposto, ainda segundo o jornalista, a um "perigo monstruoso que não diminuirá" enquanto não houver um tribunal que fiscalize a Folha e outros órgãos da mídia, estabelecendo o que eles devem ou não publicar. Diante desse "perigo monstruoso", estou sem saber o que fazer: devo parar de ler jornais enquanto a solução salvadora proposta não ocorrer?".
Zenon Lotufo Júnior (São Paulo, SP).

2) Resposta de Olavo de Carvalho:
Prezado leitor,
Se o senhor lê a Folha há cinqüenta anos e essa é a sua única fonte de informação, nada posso fazer pelo seu caso. Se ao menos o senhor lesse livros, eu lhe recomendaria “Bias” e “Arrogance” de Bernard Goldberg, “Coloring the News” de William McGowan e “Slander” de Ann Coulter, nos quais o senhor aprenderia porque a constante fiscalização crítica da mídia é uma condição essencial da democracia, idéia que, no momento, lhe soa tão absurda e escandalosa. Nas presentes condições, seria utópico da minha parte esperar que o senhor fosse mesmo além da leitura de livros, pesquisando direto nas fontes, conferindo a diferença entre o que as pessoas disseram (ou fizeram) e o que saiu na mídia, hábito de precaução que poderia adquirir, por exemplo, no site www.mediaresearch.org. Temo que a sugestão de fazer isso lhe pareça insultuosa, já que o senhor se escandaliza tão profundamente com a simples hipótese de que o seu jornal diário não seja a voz de Deus.

Quanto à idéia de um tribunal especial, é de sua própria invenção e, ao mostrar-se indignado com ela, o senhor debate apenas consigo mesmo. Já estou bastante acostumado com esse tipo de discutidores que, nada tendo a objetar de sério ao que digo, projetam sobre as minhas palavras as absurdidades que brotam de sua própria mente e em seguida se jogam de cabeça na parede acreditando me atingir na boca do estômago.

Da minha parte, nada sugeri além da utilização dos recursos jurídicos já existentes, mais do que bastantes para coibir os abusos da mídia. O primeiro desses recursos é o Código de Proteção ao Consumidor. O jornal que anuncia cobertura idônea e depois privilegia umas fontes em detrimento de outras que as desmintam comete, é claro, delito de propaganda enganosa e deve pagar por isso. O fato de que a Folha publique de vez em quando meus artigos, dissolvidos aliás num oceano de desinformação esquerdista, não a torna de maneira alguma uma exceção, e eu não me sinto puxa-saco o bastante para comprar espaço na mídia em troca de mentiras lisonjeiras. Seja dito, em honra do sr. Otávio Frias Filho, que ele nunca exigiu de mim semelhante baixexa. Mas, entre um jornal ser honesto e simplesmente ter um diretor honesto, a diferença é imensurável. Qualquer leitor que se dê o trabalho de ir direto às fontes verificará, por exemplo, que a Folha dá muito mais destaque a humilhações incruentas sofridas por uns poucos prisioneiros iraquianos do que a incessantes e desesperadas denúncias que há décadas lhe chegam sobre atrocidades e torturas strictu senso sofridas por prisioneiros de consciência em Cuba, na China, na Coréia do Norte, no Vietnã, na Líbia e no Sudão. Uma das fontes que o senhor pode cotejar com o noticiário da Folha (e do restante da mídia nacional) é, por exemplo, o relatório “The Worst of the Worst. The World’s Most Repressive Societies 2004”, que a Freedom House, uma famosa ONG humanitária de Nova York, apresentou à 60ª. Sessão da Comissão de Direitos Humanos da ONU. A Freedom House, é claro, protestou contra os abusos cometidos contra os iraquianos.

Mas nunca os considerou mais dignos de preocupação do que, por exemplo, os casos de crueldades físicas sofridas na prisão por dezenas de montanheses cristãos vietnamitas nas últimas semanas, ou do que o recente assassinato de um jovem cristão paquistanês por duas dezenas de militantes muçulmanos que o torturaram durante dois dias seguidos, quebrando-lhe dedo por dedo e estourando-lhe os tímpanos com choques elétricos. Notícias como essas nunca saem no Brasil. Pelo critério da Folha e dos outros jornais deste país, a prática habitual da tortura e dos homicídios nas prisões políticas comunistas e muçulmanas é menos revoltante do que despir uns quantos iraquianos e humilhá-los com piadas de mau gosto sem tocar num único fio de cabelo das suas cabeças.

Essa diferença no tratamento dado às notícias por jornais que alardeiam cobertura honesta configura nitidamente propaganda enganosa. O que o leitor deve fazer nesses casos é, simplesmente, encaminhar queixa à Delegacia de Proteção ao Consumidor.

Se essa idéia lhe parece tão repugnante que chega a confundir-se com a instauração de um tribunal censório de estilo soviético ou nazista, é porque o senhor, com todos os seus cinqüenta anos de crença devota no jornal que lê, conseguiu com isso impedir-se de chegar à maturidade intelectual necessária para compreender o que seja a democracia. Mário Vargas Llosa já dizia que a mídia é uma máquina onde entra um homem e sai um hambúrguer. Na carta que enviou à Folha, o senhor defende bravamente o seu direito de ser um hambúrguer, mas, da minha parte, se o senhor me permite, tenho outras prioridades.

Olavo de Carvalho

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:27
Olavo de Carvalho

Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, estado de São Paulo, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros. A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia "científica". Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um formulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica.

Deixe um comentário

Informações marcadas com (*) são obrigatórias. Código HTML básico é permitido.

  • Copyright © 2007. www.rplib.com.br . Todos os direitos reservados.

    Republicação ou redistribuição do conteúdo do site RPLIB é permitido desde que citada a fonte. O site RPLIB não se responsabiliza por opiniões, informações, dados e conceitos emitidos em artigos e colunas assinados e nos textos em que é citada a fonte.