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15 Mai 2006

Crise e Ironia

Escrito por 
Estão reclamando do quê? A situação da Bolívia e a crise com o Brasil já eram previstas.
Estão reclamando do quê? A situação da Bolívia e a crise com o Brasil já eram previstas.
 
Em junho do ano passado, o governo boliviano impôs um novo regime que aumentava os impostos sobre companhias petrolíferas estrangeiras e estabelecia a custódia das jazidas outorgadas mediante contratos de operação em 1996. A legislação vigente era posta em dúvida.
 
Além de um imposto direto de 32% e 18% de regalias, outros indiretos a utilidades (25%), transações (3%), complementação ao valor agregado (13%) e remessas ao exterior (12,5%) eram criados. O estado boliviano adicionou ingressos de 106%. Segundo o ministro da presidência Ivan Avilés, o decreto instruía os ministérios de Hidrocarbonetos, de Governo e Defesa a “coordenar ações com a finalidade de garantir o domínio do Estado nas jazidas de hidrocarbonetos”.
 
Também foram criadas auditorias sobre outras empresas nas áreas financeira, operacional, jurídica e técnica que visavam a ampliação dos tentáculos da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPFB).
 
O aviso foi bem dado, disto ninguém pode reclamar. Mas, é incrível que nossa mídia em peso focalize a ação boliviana como uma espécie de “crise exclusiva”, enquanto que o mesmo tipo de nacionalismo primário, leia-se protecionismo, sempre foi à base do crescimento da Petrobras. A história prega peças. O mesmo princípio que sempre beneficiou a companhia brasileira é hoje utilizado do mesmo modo ilegítimo, contra ela própria.
 
Tome, caros órfãos varguistas, segurem esta agora. Onde estão os press releases laudatórios do governo?
 
Também em junho do ano passado, o senado americano aprovava um projeto de lei que incentivava o uso de combustíveis renováveis. Objetivo: diminuir a dependência nacional do petróleo importado.
 
Se o governo brasileiro visse nisto a possibilidade de vender biodiesel ou álcool combustível facilmente para os EUA, equivocou-se. O incentivo dado é para o álcool de milho produzido localmente. Morgan Freeman está rindo à toa... o ator é dono de uma das principais companhias que tem como sócio Miguel Dabdoub, um dos principais nomes da pesquisa brasileira no setor. No entanto, a notícia não seria ruim para nós, pois o mercado deles, conforme a demanda, pode futuramente exigir maior oferta de etanol. Aí, o Brasil entra... mas, sem a Alca, não duvido que países como o México, também produtor de cana e a baixos custos não pegue esta onda enquanto tentamos içar a vela de nossa jangada.
 
Sem a Alca, o produto importado é inviável para concorrer com a produção interna que é subsidiada ou qualquer outro membro do Nafta.
 
Se existisse no Brasil uma política externa sensata, teríamos chance. As condições de armazenamento para reserva estratégica de etanol não existem no momento nos EUA. Os investimentos de curto prazo são altos, especialmente quando se sabe que a produção de álcool é só 3% do volume de gasolina consumido no país. Mas, também teríamos que nos adiantar: os americanos prevêem diminuir o consumo de petróleo em um milhão de barris por dia até 2015. O Irã e a Venezuela não perdem por esperar...
 
Quem quiser que fale mal dos EUA, mas se há algo que aquele país sabe fazer é deixar suas diferenças internas de lado quando o assunto é ganhar dinheiro. Como disse Bush “eu aplaudo o Senado por trabalhar de uma maneira bipartidária para aprovar uma lei de energia consistente com a que eu propus em 2001”. Foram 85 votos de republicanos e democratas contra 12. Quatro anos se passaram sem acordo, mas quando a situação apertou e o barril de petróleo no ano passado ultrapassou os 60 dólares, o congresso soube agir.
 
Logo teremos outras medidas para outras fontes energéticas nos EUA e logo teremos mais uma década perdida graças à nossa política externa antiglobalização, anticomércio e pró-terceiro-mundista. Viva los pobrezitos de la América! Que se enterram só até o pescoço por que não têm cabeça.
Estão reclamando do quê? A situação da Bolívia e a crise com o Brasil já eram previstas.
 
Em junho do ano passado, o governo boliviano impôs um novo regime que aumentava os impostos sobre companhias petrolíferas estrangeiras e estabelecia a custódia das jazidas outorgadas mediante contratos de operação em 1996. A legislação vigente era posta em dúvida.
 
Além de um imposto direto de 32% e 18% de regalias, outros indiretos a utilidades (25%), transações (3%), complementação ao valor agregado (13%) e remessas ao exterior (12,5%) eram criados. O estado boliviano adicionou ingressos de 106%. Segundo o ministro da presidência Ivan Avilés, o decreto instruía os ministérios de Hidrocarbonetos, de Governo e Defesa a “coordenar ações com a finalidade de garantir o domínio do Estado nas jazidas de hidrocarbonetos”.
 
Também foram criadas auditorias sobre outras empresas nas áreas financeira, operacional, jurídica e técnica que visavam a ampliação dos tentáculos da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPFB).
 
O aviso foi bem dado, disto ninguém pode reclamar. Mas, é incrível que nossa mídia em peso focalize a ação boliviana como uma espécie de “crise exclusiva”, enquanto que o mesmo tipo de nacionalismo primário, leia-se protecionismo, sempre foi à base do crescimento da Petrobras. A história prega peças. O mesmo princípio que sempre beneficiou a companhia brasileira é hoje utilizado do mesmo modo ilegítimo, contra ela própria.
 
Tome, caros órfãos varguistas, segurem esta agora. Onde estão os press releases laudatórios do governo?
 
Também em junho do ano passado, o senado americano aprovava um projeto de lei que incentivava o uso de combustíveis renováveis. Objetivo: diminuir a dependência nacional do petróleo importado.
 
Se o governo brasileiro visse nisto a possibilidade de vender biodiesel ou álcool combustível facilmente para os EUA, equivocou-se. O incentivo dado é para o álcool de milho produzido localmente. Morgan Freeman está rindo à toa... o ator é dono de uma das principais companhias que tem como sócio Miguel Dabdoub, um dos principais nomes da pesquisa brasileira no setor. No entanto, a notícia não seria ruim para nós, pois o mercado deles, conforme a demanda, pode futuramente exigir maior oferta de etanol. Aí, o Brasil entra... mas, sem a Alca, não duvido que países como o México, também produtor de cana e a baixos custos não pegue esta onda enquanto tentamos içar a vela de nossa jangada.
 
Sem a Alca, o produto importado é inviável para concorrer com a produção interna que é subsidiada ou qualquer outro membro do Nafta.
 
Se existisse no Brasil uma política externa sensata, teríamos chance. As condições de armazenamento para reserva estratégica de etanol não existem no momento nos EUA. Os investimentos de curto prazo são altos, especialmente quando se sabe que a produção de álcool é só 3% do volume de gasolina consumido no país. Mas, também teríamos que nos adiantar: os americanos prevêem diminuir o consumo de petróleo em um milhão de barris por dia até 2015. O Irã e a Venezuela não perdem por esperar...
 
Quem quiser que fale mal dos EUA, mas se há algo que aquele país sabe fazer é deixar suas diferenças internas de lado quando o assunto é ganhar dinheiro. Como disse Bush “eu aplaudo o Senado por trabalhar de uma maneira bipartidária para aprovar uma lei de energia consistente com a que eu propus em 2001”. Foram 85 votos de republicanos e democratas contra 12. Quatro anos se passaram sem acordo, mas quando a situação apertou e o barril de petróleo no ano passado ultrapassou os 60 dólares, o congresso soube agir.
 
Logo teremos outras medidas para outras fontes energéticas nos EUA e logo teremos mais uma década perdida graças à nossa política externa antiglobalização, anticomércio e pró-terceiro-mundista. Viva los pobrezitos de la América! Que se enterram só até o pescoço por que não têm cabeça.
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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