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02 Jun 2004

As Origens do Nazismo - I

Escrito por 

O economista Ludwig von Mises resgata as origens históricas do coletivismo nacional-socialista, ou nazismo.

1. O Ancien Regime e o Liberalismo

É uma falha fundamental acreditar que o nazismo é um renascimento ou uma continuação das políticas e mentalidades do ancien régime ou uma exibição do "espírito prussiano”. Nada no nazismo adota a corrente de idéias e  instituições da antiga história alemã. Nem o nazismo nem o pan-germanismo, do qual o nazismo provém e de quem a conseqüente evolução representa, é derivado do prussianismo de Frederico Guilherme I ou Frederico II, chamado o Grande. O pan-germanismo e o nazismo nunca pretenderam restabelecer a política dos eleitores de Brandenburg e dos quatro primeiros reinos da Prússia. Algumas vezes eles têm retratado a volta do paraíso perdido da antiga Prússia como o objetivo de seus esforços; mas isso foi mera conversa propagandista para o consumo de um público que venera os heróis de dias passados. O programa do nazismo não aponta para a restauração de algo passado mas para o estabelecimento de algo novo e sem precedente.

O antigo Estado prussiano da casa dos Hohenzollern foi completamente destruído pela França no campo de batalha de Jena e Auerstädt (1806). O exército prussiano se rendeu em Prenzlau e Ratkau, as forças militares da mais importante cidadela e fortaleza renderam-se sem dispararem um tiro. O rei se refugiou com o czar, cuja mediação permitiu a preservação de seu reino. Mas o antigo Estado prussiano estava internamente quebrado muito antes dessa derrota militar; já estava por muito tempo se tornando decomposto e podre, quando Napoleão deu o golpe final. Pois a ideologia na qual era baseada perdeu todo seu poder; foi desintegrado pelo assalto das novas idéias do liberalismo.

Como todos os outros príncipes e duques que estabeleceram seus governos soberanos sobre os escombros do Sacro Império Romano Germânico, os Hohenzollerns também consideraram seu território como um Estado familiar cujas fronteiras tentaram expandir por meio de violência, artimanha, e acordos familiares. Pessoas vivendo sem suas propriedades estavam sujeitas a obedecer ordens. Elas se utilizavam da terra e da propriedade  do governante, que tinha o direito de repartir com elas ad libitum. Sua felicidade e bem-estar não importavam.

É claro, o rei se interessava pelo bem-estar material de seus subordinados. Mas esse interesse não estava fundamentado na crença de que o propósito do governo civil é tornar as pessoas prósperas. Tais idéias eram consideradas absurdas na Alemanha do século XVIII. O rei ansiava por aumentar as propriedades dos camponeses e dos habitantes das cidades pois era de seus rendimentos que derivada sua renda. Ele não estava interessado no indivíduo mas no  pagador de impostos. Ele queria extrair de sua  administração do país os meios de aumentar seu poder e seu esplendor. Os príncipes alemães enviaram as riquezas da Europa Ocidental, que provia os reis da França e da Grã-Bretanha com fundos para a manutenção de muitos exércitos e marinhas. Eles encorajavam comércio, trabalho, mineração e agricultura a fim de elevar a renda pública. Os subordinados, no entanto, eram simplesmente peças no jogo dos  governantes.

Mas a postura desses subordinados mudou consideravelmente no final no século XVIII. Novas idéias vindas da Europa Ocidental começaram a penetrar na Alemanha. O povo, acostumado a obedecer cegamente a autoridade dada por Deus aos príncipes, ouviram pela primeira vez as palavras liberdade, auto-determinação, direitos do homem, parlamento, constituição. Os alemães aprenderam a captar o significado das idéias de  tais perigosas palavras.

Nenhum alemão contribuiu para a elaboração do grande sistema de pensamento liberal, que tem transformado a estrutura da sociedade e substituído o governo de reis e rainhas pelo governo do povo. Os filósofos,  economistas e sociólogos que o desenvolveram pensaram e escreveram em inglês e francês.

No século XVIII os alemães não conseguiram nem obter traduções legíveis desses autores ingleses, escoceses e franceses. O que filósofos idealistas alemães produziram nesta área é realmente pobre quando comparado com o pensamento inglês e francês contemporâneo. Mas os intelectuais alemães receberam as idéias ocidentais de liberdade e de direitos dos homens com entusiasmo. A literatura clássica alemã está imbuído deles, e os grandes compositores alemães compuseram músicas que enalteciam a liberdade. Os poemas, peças e outros manuscritos de Frederico Schiller foram do início ao fim um hino para a liberdade. Cada palavra escrita por Schiller foi um golpe no antigo sistema político da Alemanha; seus trabalhos foram calorosamente recebidos por quase todos os alemães que liam livros ou freqüentavam teatro. Esses intelectuais, é claro, eram uma minoria. Para as massas, livros e teatros lhes eram desconhecidos. Eles eram os pobres servos em províncias orientais, habitantes de países católicos, que apenas lentamente conseguiam libertar a si mesmos das amarras apertadas da Contra-Reforma. Mesmo nas mais avançadas regiões ocidentais e nas cidades ainda existiam muitos analfabetos e semi-analfabetos. Essa massa não se interessava em assuntos políticos; eles obedeciam cegamente, pois viviam com medo do castigo no inferno, com que a igreja os ameaçava, e ainda com um terrível medo da polícia. Eles estavam à margem da civilização e da vida cultural alemãs; sabiam apenas seu dialeto regional e mal podiam conversar com um homem que falava apenas a língua literária alemã ou um outro dialeto.

Mas o tamanho desse povo atrasado estava constantemente diminuindo. Prosperidade econômica e educação propagavam-se ano após ano. Mais e mais pessoas alcançavam um padrão de vida que os permitia cuidar de outras coisas além de comida e abrigo, e utilizar seu tempo livre em algo mais que bebida. Quem quer que se erguesse da miséria e se juntasse à comunidade de homens civilizados tornava-se um liberal. Com exceção do pequeno grupo de príncipes e de seus aristocráticos servos, praticamente todos interessados em assuntos políticos eram liberais. Na Alemanha daqueles dias havia apenas homens liberais e homens indiferentes; mas o número de indiferentes continuava a diminuir, enquanto o número de liberais aumentava.

Todos os intelectuais simpatizavam com a Revolução Francesa. Eles desdenhavam o terrorismo dos jacobinos, mas aprovavam lealmente a grande reforma.  Eles viam em Napoleão o homem que guardaria e completaria essas reformas e – como Beethoven—tornara-se antipáticos a ele assim que traiu a liberdade e proclamou-se imperador.

Nunca antes houve qualquer movimento espiritual que tomasse conta de todo o povo alemão, e nunca antes haviam se unido em seus sentimentos e idéias. De fato o povo, que falava alemão e fora subordinados a príncipes de impérios,  prelados, condes e aristocratas urbanos, tornou-se uma nação, a nação alemã, por meio da recepção a novas idéias vindas do Ocidente. Só então o povo se envolveu em algo que nunca existira: uma opinião pública alemã, um povo alemão, uma literatura alemã, uma pátria alemã. Os alemães agora começaram a entender o sentido dos antigos autores que eles tinham lido na escola. Eles agora conceberam a história de sua nação como algo mais que lutas de príncipes por terra e renda. Os subordinados de centenas de pequenos senhores tornaram-se alemães através da aceitação de idéias ocidentais.

Este novo espírito abalou as fundações nas quais príncipes construíram seus tronos—a tradicional lealdade e subserviência dos indivíduos que eram preparados para submeterem-se ao governo despótico de um grupo de famílias privilegiadas. Os alemães sonhavam agora com um novo Estado alemão, com governo parlamentar e com direitos humanos. Eles não se importavam com o atual Estado alemão. Aqueles alemães que se auto intitularam “patriotas”, o novo termo da moda importado da França, desprezaram esses lugares de anarquia e abuso ditatoriais. Eles odiavam o ditador. E eles odiaram ainda mais a Prússia, pois pareceu-lhes ainda mais poderosa e por isso ainda mais ameaçadora à liberdade alemã.

O mito prussiano, que historiadores prussianos do século XIX criaram com uma arrojada distorção de fatos, teria nos feito acreditar que Frederico II foi visto por seus contemporâneos como eles mesmos o descrevem—como um defensor da grandeza alemã, protagonista na ascensão da Alemanha para a unidade e o poder, o herói da nação. Nada poderia estar mais distante da verdade. As campanhas militares sobre o rei-guerreiro foram, para seus contemporâneos, lutas para aumentar os bens da casa dos Brandenburg, que preocupava-se apenas com a dinastia. Eles admiravam seu talento estratégico, mas detestavam as brutalidades do sistema prussiano. Quem elogiou Frederico dentro das fronteiras de seu reino o fez por necessidade, para esquivar-se da indignação de um príncipe que derramou severa vingança em todo os inimigos. Enquanto pessoas de fora da Prússia o elogiavam, eles mascararam críticas sobre seus próprios governantes. Os subordinados de pequenos príncipes entendiam que tal ironia era a forma menos perigosa de menosprezar seus pequenos Neros e Borgias. Eles elogiavam realizações militares, mas diziam que estavam felizes, pois não estavam à mercê de seus caprichos e crueldades.  Eles apenas aprovaram Frederico no poder até que ele combateu seus ditadores internos.

No final do século XVIII, a opinião pública alemã era tão unanimemente contra o ancien régime quanto a França o era pouco antes da Revolução. O povo alemão testemunhou com indiferença a anexação francesa da margem esquerda do Reno, a derrota da Áustria e da Prússia, o desmoronamento do Sacro Império e o estabelecimento da Confederação do Reno. O povo saudou as reformas, pressionado pelo predomínio das idéias francesas. Eles admiraram Napoleão como um grande general e governador assim como anteriormente tinham admirado Frederico da Prússia. Os alemães começaram a odiar a França apenas quando—como os subordinados franceses do imperador—finalmente se cansaram das intermináveis e fatigantes guerras. Quando o Grande Exército foi destruído na Rússia, o povo interessou-se pelas campanhas que acabaram com Napoleão, mas apenas porque eles esperavam que sua queda resultaria no estabelecimento do governo parlamentar. Mais tarde, eventos dissiparam essa ilusão, e lá lentamente cresceu o revolucionário espírito que levou à revolta de 1848.

Dizem que a origem do nacionalismo e do nazismo deverá ser encontrada em manuscritos dos românticos, em peças de Heinrich von Kleist e em canções políticas que acompanham a luta final contra Napoleão. Isto também é um erro. Os sofisticados trabalhos dos românticos, as pervertidas emoções das peças de Kleist e a patriótica poesia das guerras de libertação não eram apreciadas pelo público; e os ensaios filosóficos e sociológicos desses autores que recomendavam o retorno às instituições medievais eram consideradas abstrusas. O povo não estava interessado na Idade Média mas nas atividades parlamentares do Ocidente. Eles leram os livros de Goethe e Schiller, não os livros dos românticos; foram às peças de Schiller, não nas de Kleist. Schiller tornou-se o poeta preferido da nação; em sua entusiástica devoção à liberdade os alemães encontraram seu ideal político.  A celebração do centésimo aniversário de Schiller (em 1859) foi a mais impressionante demonstração política que já ocorrera na Alemanha. A nação alemã foi unida em sua participação nas idéias de Schiller, nas idéias liberais.

Todo os esforços para fazer o povo alemão abandonar a causa da liberdade falharam. Os ensinamentos de seus adversários não surtiram efeito. A polícia de Metternich combateu em vão a crescente maré do liberalismo.

Apenas nas últimas décadas do século XIX a influência liberal foi abalada. Ela foi afetada pelas doutrinas do estatismo. O estatismo—trataremos disso mais tarde—é um sistema de idéias sócio-políticas que não têm contraparte em histórias mais antigas e não é associada a antigas formas de pensar, ainda que—em relação ao caráter técnico de políticas recomendadas—possa com alguma justificativa ser chamada de neo-mercantilismo.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:27
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