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17 Abr 2006

O Pecar

Escrito por 
É curioso como no correr da modernidade a consciência humana foi gradativamente sendo “libertada” da idéia do pecar colocando-se essa categoria como se fosse uma construção moral danosa para a constituição do livre pensar humano.É curioso como no correr da modernidade a consciência humana foi gradativamente sendo “libertada” da idéia do pecar colocando-se essa categoria como se fosse uma construção moral danosa para a constituição do livre pensar humano. Deste modo, o sentimento de culpa que tal concepção traria à consciência individual seria algo inadmissível para os mais variados projetos de modernidade que foram gestados a partir do século XVIII, visto que, o sentimento de culpa, segundo os pensadores modernos, seria apenas uma concepção usual e preconceituosa que a sociedade nos investiria para assim poder nos dominar com maior facilidade.
 
         Entretanto, o que torna tudo isso algo mais interessante, é o fato de, ao mesmo tempo, que se atira pela janela da alma a concepção do pecado, joga-se junto a própria consciência humana. Isso mesmo. Desde o materialismo histórico, passando pela psicanálise e caindo no buraco doloso do existencialismo sartreano passando pelo pós-estruturalismo foucoultiano o que nós temos sistematicamente é a negação da individualidade humana, onde a visão do humano se restringiria a apenas uma massa orgânica determinada por um amontoado de “múltiplas determinantes” que acabam dando forma ao que somos e nada mais.
 
E quanto ao livre-arbítrio? Bem, seria, segundo eles, outra invenção usada para nos dominar, como a idéia de pecar, pois, a partir dessas concepções, a responsabilidade pelos nossos atos deveriam ser assumidas por nós e não depositada nas costas da sociedade, do sistema ou do raio que nos parta, como querem tanto os pensadores modernos.
 
Todavia, cabe aqui lembrarmos que tal posição de negação do pecar e do livre-arbítrio trouxe para a nossa sociedade algumas características que acabaram por tornar a vida em sociedade cada vez mais em um universo instável. Afirmamos isso devido ao seguinte fato: sociedade, sistema, Estado, em si, são meras abstrações e nada mais. O que lhes dá sentido e existência são apenas as relações de interdependência que são edificadas entre os indivíduos e não uma determinação externa e etérea as relações humanas.
 
E, quando acabamos por depositar a responsabilidade pela sorte humana a categorias abstratas em si, acabamos por libertar toda e qualquer responsabilidade pelos nossos atos, e aí, todos os delitos passam a ter uma “boa” justificativa em um suposto “trauma” sofrido na infância ou na “adolescência”, ou na “exclusão” da sociedade ou na pouca atenção que a sociedade nos oferta pela nossa carência de grandes dotes.
 
Bem, mas é justamente aí que a porca torce o rabo. Se todo o pensar humano é condicionado e controlado, os intelectuais que afirmam poder se libertar de todas essas lorotas socialmente estabelecidas podem apenas ser “seres iluminados”, não é mesmo? Pois, segundo suas “idéias”, todo ser humano é apenas um condicionamento, não mesmo? Ou não seriam eles pessoas extremamente confusas com sua própria existência que, não estando satisfeitos em estar perdidos e desesperados, procuram arrastar uma multidão junto de suas idéias para assim, não se sentirem tão só? Francamente, isso não passa de colóquio flácido para boi dormir.
 
E mais! Segundo o filósofo Olavo de Carvalho: “Na Bíblia, esses dois erros fatais da inteligência humana já estavam anunciados com muita precisão. A ilusão de julgar o mundo enquanto se está dentro dele é o “conhecimento do bem e do mal” que a serpente promete a Eva. O muro que veda o acesso à transcendência é a “insensatez” que limita a visão da existência à esfera do imediatamente acessível.[...] O primeiro promete a posse de um conhecimento impossível; o segundo inibe e frustra a aquisição de um conhecimento possível. Correspondem a dois nomes do demônio: Lúcifer e Satã. O demônio da falsa luz e o demônio das trevas falsamente triunfantes. O demônio do conhecimento errado e o demônio da ignorância soberba”. O demônio da negação do erro e o que nega a própria consciência individual.
 
Mas Carvalho é um filho de nossa época, brazuca, contemporâneo nosso. Aí não vale, que pena!
 
Então, recorramos ao Doutor Angélico, Sto. Tomás de Aquino. Segundo o Aquinate, os vícios capitais seriam a vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia (preguiça). Todos eles se fundamentariam em algum desejo natural e o homem, ao seguir qualquer desejo natural, tende à semelhança divina, pois todo bem naturalmente desejado é uma certa semelhança com a bondade divina. Deste modo, o pecado seria o desvio da reta apropriação de um bem, como muito bem nos explica o filósofo Jean Lauand. E, continua Lauand, se a busca da própria excelência é um bem, a desordem, é o desvio dessa busca, é a soberba que, assim, se encontra em qualquer pecado: seja por recusar a superioridade de Deus que dá uma norma, norma esta recusada pelo pecado.
 
Deste modo, poderíamos com grande franqueza afirmar que a humanidade na modernidade carece por demais cultivar o que poderíamos denominar por consciência do pecar (dos erros) para assim curar a ressaca de tanta “consciência [supostamente] crítica” que tanto nega a responsabilidade do indivíduo que, essa mesma consciência afirma não existir.
 
Provavelmente se estivéssemos munidos de uma visão clara de nossos pecados, com toda certeza os pesares que recaíram sob a humanidade na centúria que findou, pesares estes, que continuam a nos acompanhar neste milênio, não seriam da magnitude que são, visto o fato de que, cada um de nós, ao invés de estarmos a procura de um bode expiatório para as nossas faltas estaríamos cada qual abraçando o nosso fardo e seguindo o nosso caminho, construindo o nosso destino.
 
Mas, como todos nós temos um certo pavor de sentirmo-nos culpados de algo, seguimos muitas vezes a via espúria da hipotética libertação em nosso esforço de negação da responsabilidade individual em detrimento da culpa coletiva simbolizada em alguma entidade abstrata que todos passamos a vitimar para assim nos sentirmos mais aliviados, sem, todavia, deixarmos de sermos culpados e responsáveis pela nossa tragédia existencial.
 
De mais a mais, quem a de nos julgar não é um mane como o que vos escreve, mas apenas Aquele que É, que tanto tentamos imitar pelos nossos desvios travestidos de suposta decência moderninha.
É curioso como no correr da modernidade a consciência humana foi gradativamente sendo “libertada” da idéia do pecar colocando-se essa categoria como se fosse uma construção moral danosa para a constituição do livre pensar humano. Deste modo, o sentimento de culpa que tal concepção traria à consciência individual seria algo inadmissível para os mais variados projetos de modernidade que foram gestados a partir do século XVIII, visto que, o sentimento de culpa, segundo os pensadores modernos, seria apenas uma concepção usual e preconceituosa que a sociedade nos investiria para assim poder nos dominar com maior facilidade.
 
         Entretanto, o que torna tudo isso algo mais interessante, é o fato de, ao mesmo tempo, que se atira pela janela da alma a concepção do pecado, joga-se junto a própria consciência humana. Isso mesmo. Desde o materialismo histórico, passando pela psicanálise e caindo no buraco doloso do existencialismo sartreano passando pelo pós-estruturalismo foucoultiano o que nós temos sistematicamente é a negação da individualidade humana, onde a visão do humano se restringiria a apenas uma massa orgânica determinada por um amontoado de “múltiplas determinantes” que acabam dando forma ao que somos e nada mais.
 
E quanto ao livre-arbítrio? Bem, seria, segundo eles, outra invenção usada para nos dominar, como a idéia de pecar, pois, a partir dessas concepções, a responsabilidade pelos nossos atos deveriam ser assumidas por nós e não depositada nas costas da sociedade, do sistema ou do raio que nos parta, como querem tanto os pensadores modernos.
 
Todavia, cabe aqui lembrarmos que tal posição de negação do pecar e do livre-arbítrio trouxe para a nossa sociedade algumas características que acabaram por tornar a vida em sociedade cada vez mais em um universo instável. Afirmamos isso devido ao seguinte fato: sociedade, sistema, Estado, em si, são meras abstrações e nada mais. O que lhes dá sentido e existência são apenas as relações de interdependência que são edificadas entre os indivíduos e não uma determinação externa e etérea as relações humanas.
 
E, quando acabamos por depositar a responsabilidade pela sorte humana a categorias abstratas em si, acabamos por libertar toda e qualquer responsabilidade pelos nossos atos, e aí, todos os delitos passam a ter uma “boa” justificativa em um suposto “trauma” sofrido na infância ou na “adolescência”, ou na “exclusão” da sociedade ou na pouca atenção que a sociedade nos oferta pela nossa carência de grandes dotes.
 
Bem, mas é justamente aí que a porca torce o rabo. Se todo o pensar humano é condicionado e controlado, os intelectuais que afirmam poder se libertar de todas essas lorotas socialmente estabelecidas podem apenas ser “seres iluminados”, não é mesmo? Pois, segundo suas “idéias”, todo ser humano é apenas um condicionamento, não mesmo? Ou não seriam eles pessoas extremamente confusas com sua própria existência que, não estando satisfeitos em estar perdidos e desesperados, procuram arrastar uma multidão junto de suas idéias para assim, não se sentirem tão só? Francamente, isso não passa de colóquio flácido para boi dormir.
 
E mais! Segundo o filósofo Olavo de Carvalho: “Na Bíblia, esses dois erros fatais da inteligência humana já estavam anunciados com muita precisão. A ilusão de julgar o mundo enquanto se está dentro dele é o “conhecimento do bem e do mal” que a serpente promete a Eva. O muro que veda o acesso à transcendência é a “insensatez” que limita a visão da existência à esfera do imediatamente acessível.[...] O primeiro promete a posse de um conhecimento impossível; o segundo inibe e frustra a aquisição de um conhecimento possível. Correspondem a dois nomes do demônio: Lúcifer e Satã. O demônio da falsa luz e o demônio das trevas falsamente triunfantes. O demônio do conhecimento errado e o demônio da ignorância soberba”. O demônio da negação do erro e o que nega a própria consciência individual.
 
Mas Carvalho é um filho de nossa época, brazuca, contemporâneo nosso. Aí não vale, que pena!
 
Então, recorramos ao Doutor Angélico, Sto. Tomás de Aquino. Segundo o Aquinate, os vícios capitais seriam a vaidade, avareza, inveja, ira, luxúria, gula e acídia (preguiça). Todos eles se fundamentariam em algum desejo natural e o homem, ao seguir qualquer desejo natural, tende à semelhança divina, pois todo bem naturalmente desejado é uma certa semelhança com a bondade divina. Deste modo, o pecado seria o desvio da reta apropriação de um bem, como muito bem nos explica o filósofo Jean Lauand. E, continua Lauand, se a busca da própria excelência é um bem, a desordem, é o desvio dessa busca, é a soberba que, assim, se encontra em qualquer pecado: seja por recusar a superioridade de Deus que dá uma norma, norma esta recusada pelo pecado.
 
Deste modo, poderíamos com grande franqueza afirmar que a humanidade na modernidade carece por demais cultivar o que poderíamos denominar por consciência do pecar (dos erros) para assim curar a ressaca de tanta “consciência [supostamente] crítica” que tanto nega a responsabilidade do indivíduo que, essa mesma consciência afirma não existir.
 
Provavelmente se estivéssemos munidos de uma visão clara de nossos pecados, com toda certeza os pesares que recaíram sob a humanidade na centúria que findou, pesares estes, que continuam a nos acompanhar neste milênio, não seriam da magnitude que são, visto o fato de que, cada um de nós, ao invés de estarmos a procura de um bode expiatório para as nossas faltas estaríamos cada qual abraçando o nosso fardo e seguindo o nosso caminho, construindo o nosso destino.
 
Mas, como todos nós temos um certo pavor de sentirmo-nos culpados de algo, seguimos muitas vezes a via espúria da hipotética libertação em nosso esforço de negação da responsabilidade individual em detrimento da culpa coletiva simbolizada em alguma entidade abstrata que todos passamos a vitimar para assim nos sentirmos mais aliviados, sem, todavia, deixarmos de sermos culpados e responsáveis pela nossa tragédia existencial.
 
De mais a mais, quem a de nos julgar não é um mane como o que vos escreve, mas apenas Aquele que É, que tanto tentamos imitar pelos nossos desvios travestidos de suposta decência moderninha.
Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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