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02 Jun 2004

Pequenas Mentiras e os Pseudo-Intelectuais

Escrito por 

Há pouco tempo, proliferavam artigos de intelectuais engajados em acabar com a imagem dos EUA, mesmo que para isto precisassem criar uma boa imagem para Saddam e o regime de Baath (seu extinto partido).

Os críticos das forças de coalizão no Iraque dizem que ainda não foram encontradas armas de destruição em massa... Mas, quem disse que o motivo tem que ser exclusivamente este? Há pouco tempo, proliferavam artigos de intelectuais engajados em acabar com a imagem dos EUA, mesmo que para isto precisassem criar uma boa imagem para Saddam e o regime de Baath (seu extinto partido). Um dos últimos que me dispus a ler foi o de Demétrio Magnoli, publicado na Folha de S. Paulo no dia 6 de junho passado, do qual tomei emprestado seu título como motivo de paródia para o meu: “A grande mentira e os intelectuais engajados”(1).

Quais são as “pequenas mentiras”? Há de vários naipes. Comecemos pela de “caráter geopolítico”, embora de geopolítica mesmo só haja a noção de um jogo de tabuleiro para infantes. Logo após, analisemos a postura dos pacifistas que dão carta branca aos genocídios e, por fim, um falso ambientalismo que grassa na sociedade servindo de máscara para órfãos socialistas.

1. Geopolítica de joguinho de War(2).

Segundo Magnoli, o ataque ao Iraque serviria para a retirada de tropas americanas da Arábia Saudita para com isto, diminuir a tensão provocada pelos wahabitas, seita à qual pertence Bin Laden. Esta é sua tese, mas quem garante que não ocorra o fortalecimento desta mesma seita a partir de um território livre dos americanos? Quem garante que as ações internacionais não se intensifiquem, especialmente num país vizinho à Arábia Saudita, como aconteceu em Riad e em tantos outros locais do mundo árabe, recentemente? Tal me parece ingênua a constatação de que a guerra serviu tão somente para uma mudança de base.

O autor acredita que o afastamento dos soldados americanos mudaria o foco dos “companheiros da al Qaeda”. Ingênuo, não? Como garantir que uma repressão mais intensa da elite saudita à al Qaeda e aos wahabitas realmente não deixe revelar algum apoio de Washington? Alguém é tão ingênuo de acreditar que isto seja suficiente? Demétrio Magnoli parece que sim. Na realidade, o autor, “especialista em geopolítica”, não passa de um apostador inconseqüente...

Da mesma forma, parece convincente para alguns que as ações de Washington no Oriente Médio, uma vez estancadas, levariam, como que por encanto, à extinção do “terror fundamentalista”(3).

Mas numa coisa concordo com Magnoli, não ver um nexo entre os atentados de 11 de setembro e a ação militar no Iraque é obra pura e simples de intelectuais terceiro-mundistas fascinados pelo terror como obra redentora, de libertação de povos oprimidos(4). Também não consigo evitar ver um maior recrudescimento do conflito entre Ocidente e Islã, mas não exclusivamente devido à orientação de “intelectuais neoconservadores da Casa Branca” e sim devido a uma estratégia que se nutre da própria miséria no Islã, um ciclo vicioso suicida.

Outro detalhe escapa ao artigo da Folha, a idéia de que a ação contra o regime de Baath no Iraque seja apenas uma vontade americana. Intencionalmente, costuma se fazer esquecer uma coalizão mundial formada por 30 países(5). “Detalhezinho corriqueiro”, esquecer que grande número de países endossa a ação anglo-americana. Analogamente, os antiamericanistas preferem criar justificativas para um possível ataque dos EUA à Síria por que esta seria para garantir uma rota de escoamento ao petróleo iraquiano e nada mais. Ou seja, a possibilidade da cúpula iraquiana ter se ocultado naquele país (e onde foi parcialmente encontrada e detida) é uma mera ficção para estes ilustres cérebros. Desconsideram que se houvesse um país que, nessa óptica, poderia ser ocupado pelas tropas anglo-americanas, este país seria a Jordânia. “Aliado volátil” dos EUA, pois foi por ali que se furou o bloqueio americano ao Iraque durante os anos 90, fazendo passar a maior parte do petróleo com destino ao “país de comedores de rãs”. Claro que o pedágio jordaniano incluía 50% do petróleo escoado por seus oleodutos. Influência de Alá, plenamente justificável, que criaria uma solidariedade árabe entre a monarquia jordaniana e a ditadura iraquiana? Não, mas a do “deus verde com George Washington impresso no centro da cédula”. As alianças árabes são tão sólidas, quanto o gelo naquele deserto...

Outro argumento reside na possibilidade de se criar uma rota alternativa ao escoamento de petróleo, daí a necessidade da hipotética ocupação da Síria: ao invés de mandar o petróleo pela aliada Jordânia e Israel, os americanos prefeririam gastar outros bilhões para domina-la. Pouco capitalista para um país como os EUA, não? Mas o que seria do argumento terceiro-mundista, antiamericanista se não fosse a proliferação dessas teorias conspiratórias? Bem, às favas com a lógica, diriam os admiradores de Saddam, Osama, Che e Fidel(6).

Mas qualquer fato pode ser distorcido de uma análise correta na mente doentia dos terceiro-mundistas. Depois da vitória anglo-americana no Iraque, manifestações de rua puderam ser verificadas naquele país, graças aos direitos civis instaurados. Eram grupos liderados por imãs, mulás e ayatolás querendo instaurar uma república islâmica. Nos tempos da ditadura Baath, eles não tinham vez. Agora, o que um leitor do reciclável periódico Caros Amigos interpretaria? Como uma manifestação pró-Saddam, ora bolas!

Alguém acha que manifestações exigindo que se retirem as tropas anglo-americanas, realmente, consiga criar um regime baseado na ordem e respeito ao Estado de Direito? Quantos apostariam contra o recrudescimento dos conflitos entre sunitas e xiitas tão logo os soldados vitoriosos debandassem?

"Não à América, não ao Estado secular, sim ao Estado islâmico" é o único sentido do que propõem e que só pode ser obtido naquela região à custa de ferro, fogo e sangue.

Aliás, qual a percentagem que representa os manifestantes antiamericanistas perante 24 milhões de iraquianos? Será que os leitores da Caros Amigos têm noção de percentual? Dada sua postura, notadamente antidemocrática, suponho que não...

Oh! Ia me esquecendo: e as armas de destruição em massa não foram encontradas. Sim, sim, então tudo não passou de invenção, não foi? Será que milhares de curdos mortos por gás venenoso diriam isto?

Outra questão que o idiotizado raciocínio terceiro-mundista costuma se furtar: se a questão toda gira em torno do petróleo, por que boicota-lo durante toda a década de 90? Para depois gastar mais alguns bilhões de dólares numa gigantesca operação militar para obtê-lo novamente? Não seria mais cômodo e barato importa-lo durante uma década inteira?

Percentuais, lógica, são itens ausentes no cérebro terceiro-mundista. Será que a ditadura de Baath proporia uma constituição na qual o Iraque deva ser democrático? Onde o governo não deve ser baseado em identidade comunitária? Onde os próprios iraquianos devem escolher seus líderes? Onde a violência política deve ser rejeitada? Onde os iraquianos devem se mobilizar para a reconstrução do país? Onde o Iraque e a coalizão anglo-americana devem trabalhar juntos para restaurar a segurança? Onde o partido Baath de Saddam deve ser dissolvido e seus efeitos na sociedade eliminados(7)?

A existência das armas de destruição em massa podem ter sido pretexto ao ataque ao Iraque? Sim, mas o que realmente importa para mim, é que um ditador sanguinário foi tirado do poder(8).

Talvez, para os antiamericanistas, seja válido defender alguém que é acusado de assassinar o próprio professor e um primo quando, ainda adolescente; um psicótico recusado pelas forças armadas do próprio país, antes de atingir o poder através da política; alguém acusado de cumplicidade no assassinato do primeiro ministro iraquiano em 1958; alguém que institui o aparato de "segurança" (repressão ditatorial) no Iraque em 1968; alguém que no mesmo ano, leva ao exílio o secretário de defesa e primeiro ministro do país, afastando assim seus rivais políticos; alguém que, ainda em 1968, aprisiona, tortura e leva a execução, rivais do Partido Baath do poder, inclusive funcionários de carreira; além da prisão e tortura de adversários do regime, Saddam se empenha em fazer crescer cada vez mais a influência dos órgãos de segurança dentro do estado iraquiano, sob a acusação contumaz de que seus opositores praticavam "espionagem"; desde 1969. Portanto, bem antes de qualquer influência americana, Saddam já massacrava curdos, como ocorreu em Dakan, Mosul; em 1969, continuam as torturas e assassinatos sob a alegação genérica dos acusados prestarem "serviços ao sionismo"; além das perseguições à etnia curda, em 1972 começa a primeira onda de repatriações de árabes, turcos e, inclusive, árabes; em 1974, 8.000 curdos desaparecem “misteriosamente” da vila de Barzan; em 1977, mais uma gigantesca onda de expulsões de iraquianos do país, bem como o roubo de suas propriedades e sumiço em seus filhos: quantos expulsões e desaparecimentos neste episódio? 200.000; entre 1978 e 1979, o assassinato de 7.000 militantes comunistas iraquianos; na estratégia de consolidação de seu poder, em 1979, e seguindo o exemplo do maior assassino da história, Josef Stalin (déspota que inspirou a formação do PCdoB), Saddam expurga e assassina oficiais ligados ao seu próprio regime; em 1980, já sob a aliança com vários países, não somente os EUA, o Iraque ataca o Irã(9); em 1982, mais uma execução de outro membro do governo de Saddam; em 1987 e 1988, começa o mais amplo programa de despovoamento do Curdistão, 4.000 vilas destruídas, totalizando 180.000 mortos! Em 1988, 5.000 pessoas foram assassinadas com gás em Halabja e mais 10.000 feridos; em agosto de 1988, continuou, contaminando mais vilas curdas e turcas; e em 1990, o Iraque declara o Kuwait, tratando-o como se fosse uma “província rebelde iraquiana”(10).

2. Socialistas disfarçados de ambientalistas (ou ecologismo fajuto)

Na esteira do movimento antiglobalização mundial(11) que, no fundo não passa de um antiamericanismo doentio temos os ecologistas (que pouco ou nada entendem de ecologia...), se posicionando contra a guerra devido aos seus danos ambientais. Muito bem, esta seria uma nobre causa, não fosse fundada em princípios incorretos.

Dentre as manifestações contra a guerra ao Iraque destacam-se algumas ONGs, como o Greenpeace que enfatiza os danos ambientais decorrentes de uma ação militar desta magnitude. Mas, Saddam não foi um dos principais destruidores do ecossistema em que viviam os xiitas? Antiamericanistas dirão que isto se trata de contra-informação do governo Bush, dos EUA, do Ocidente capitalista...

Mas, não parece que seja dessas fontes. Que tal ouvirmos os próprios iraquianos? Saddam se empenhou numa guerra interna pela supremacia de seu clã e submissão dos xiitas (majoritários no Iraque) através da destruição dos pântanos mesopotâmicos. Nada mais, nada menos que a extinção da ligação de seu meio de subsistência às raízes de sua civilização com 5.000 anos de herança cultural; extinção de uma série de espécies endêmicas, animais e vegetais que têm nos pântanos seu habitat; desaparecimento de um ecossistema para descanso temporário para aves migratórias, com efeitos adversos para outros continentes como a Europa e África; elevação da salinidade no litoral de Shatt al-Arab, causando perda de pescado no Golfo Pérsico; alto índice de salinidade nos pântanos e áreas adjacentes, desprovendo o Iraque de grande parte das áreas agricultáveis necessárias; diminuição considerável de suprimentos agrícolas e alimentícios de todo Iraque meridional, especialmente lacticínios, peixe e arroz; desertificação de mais de 20.000 km2 e impactos climáticos indiretos e adversos às áreas adjacentes; e deslocamento da população de Ma’dan (mais de 300.000), forçados a deixar os pântanos e se tornarem refugiados no Irã ou como sem-terras no próprio Iraque.

Disto, nossa mídia ambientalmente correta não comenta. Nem os militantes do Greenpeace nada comentam. Neste caso, seria chamá-lo de “greenwar”. Estes, pelo contrário, têm se empenhado em fazer parecer o conflito como sendo uma mera questão de apropriação das reservas petrolíferas(12).

A organização Iraq Foundation tem um projeto de restauração de seus pântanos, o Eden Again, pois eles foram alvo de destruição pela ditadura de Saddam Hussein em meados dos anos noventa. A campanha militar iraquiana destruiu seu ambiente, queimando vilarejos, deslocando centenas de milhares de nativos Ma’dan para o exílio ou o desterro interno. Portanto, mais do que sua abrangência ambiental, o projeto de recuperação tem um significativo impacto humano e histórico.

A drenagem das áreas pantanosas, executada pelo regime de Saddam só teve fim com a Guerra do Golfo em 1991, após a vitória dos aliados capitaneada pelos Estados Unidos. Local de estudos bíblicos de importância histórica inquestionável, este santuário passa agora por um projeto de reestruturação da Iraq Foundation apoiada pelo Departamento de Estado americano.

Por que entidades como o Greenpeace se calam a respeito? Quem é, efetivamente, contra o meio ambiente? Em que pese à posição da atual administração estadunidense em favor da guerra, por que o Greenpeace insiste em associar os Estados Unidos e seus aliados como os verdadeiros, senão os únicos agressores ambientais? Mesmo que se insistisse no argumento ao dizer que o governo dos Estados Unidos falha principalmente na questão do respeito aos direitos humanos de outras nacionalidades, mais que na preservação do meio ambiente, o argumento também não é convincente por que não evoca os acertos dos EUA na questão. Acertos, especialmente quando se pressupõe que a preservação dos pântanos meridionais da bacia mesopotâmica subjaz o respeito e consideração do modo de vida da etnia local. Lar de 250.000 habitantes, os pântanos meridionais do Iraque, são habitados por apenas 20.000 residentes hoje, “graças” à sofisticação genocida de Saddam Hussein. Sofisticação esta que não recebeu repúdio internacional de agremiações politicamente corretas como o Greenpeace. Desta etnia, muitos foram presos, torturados e executados pelo governo de Saddam em 1990. A estratégia de Saddam era, ou melhor, ainda é eliminar ou enfraquecer a população xiita (majoritária no Iraque). Saddam Hussein tentou acabar com um povo e um ambiente de 5.000 anos de história, simplesmente isso. Especialmente por que os xiitas no caso, dependiam essencialmente desse ecossistema para sua subsistência. Comentários do Greenpeace? Não, só silêncio...

Relatório da Human Rights Watch em dezembro de 2002, já assinalava o genocídio aos curdos no norte do país, com o uso de armas químicas, que dizimou 100.000 seres humanos. Comentários do Greenpeace? Silêncio, o livro do destino se cala para nós(13).

A razão da drenagem dos pântanos é por que eles constituíam em refúgios às perseguições político-religiosas de Saddam e são reconhecidos como ricos em depósitos petrolíferos. Mas a argumentação de ONGs como o Greenpeace é que o que interessa ao Bush é só o petróleo. E o que interessava a Saddam? Alguma sugestão do Greenpeace? Há baleias no Iraque? Não, então eles nada teriam nada a dizer....

Como de praxe, o Conselho de Segurança da ONU foi inepto a agir contra o Iraque de Saddam Hussein, se limitando a um ineficiente embargo da importação petrolífera que tem sido, inclusive, acusado de corrupção com favorecimento dos altos escalões da ONU através de um programa posterior “Óleo por comida”(14). Por sua vez, a coalizão de 30 países liderada pelos Estados Unidos, através da Operação Tempestade no Deserto, põe fim à ocupação do Kuwait em apenas dois meses de janeiro a fevereiro de 1991. Foi esta mesma coalizão que criou a zona de exclusão aérea no sul do Iraque e outra zona curda ao norte. “Dividir para dominar”, geralmente funciona. Bem ou mal, se criou uma ordem com certa estabilidade no país e o que fez a ONU com a tão propalada criação de um fundo de ajuda para reconstrução das zonas afetadas do país? Nada. Portanto, o que esperar do Conselho de Segurança?

A discriminação aos xiitas que representam até 65% da população iraquiana tem raízes históricas. Desde a Revolução Islâmica no Irã que cerca de meio milhão de xiitas (assim como a maioria dos muçulmanos iranianos) tem sido expulso do Iraque durante os anos 80, sob a alegação oficial de que sua origem é externa (iraniana). Mulheres, crianças e velhos inclusos nesta suposta “repatriação”. Também se criou a pena de morte retroativa às lideranças do grupo de oposição xiita “Chamado Islâmico” (al-Da’wa al-Islamiyya). Claro que se inclui a prisão e assassinato de líderes religiosos e estudantes e a demolição de mesquitas, livrarias e centros de instrução religiosa (hussainiyas).

Insisto: por que o obsequioso silêncio dos “pacifistas verdes” e pacifistas em geral à ação iraquiana levando a uma catástrofe ambiental dos pântanos meridionais? Por que não contar como uma vitória o fim desta ação criminosa em 1991? Qual era o objetivo econômico (já que o ambiental era nulo), senão exclusivamente genocida do genocídio aprimorado de Saddam?

Após a invasão do Kuwait pelas forças de Saddam Hussein, sucedeu-se a construção de represas, diques e canais que bloquearam o fluxo das águas do Tigre e Eufrates para os pântanos a fim de facilitar a entrada de suas forças armadas na área. Em menos de uma década, o maior ecossistema de terras úmidas do Oriente Médio foi quase que totalmente destruído. Segundo um estudo ambiental feito pela U.N. Environment Program (UNEP) em 2001, revelou a extensão da destruição. Outro estudo feito pela U.S.’s National Aeronautics and Space Administration (NASA) com imagens de satélite tiradas entre 1992 e 2000, confirmaram a destruição de 90% da área.

Cabe observar que, apesar da expulsão das forças de Saddam do sul do Iraque a partir de 1991, a drenagem continuou, pois o controle da bacia hidrográfica no centro desta ainda ficou com o governo iraquiano. Represando as águas na secção intermediária dos rios, seus cursos inferiores começaram a secar. Acho que o Greenpeace não deve se interessar por rios para desconsiderar de seus protestos tamanha destruição ecológica...

Um estudo antropológico estimava a população de Ma’dan em 400.000 nos anos 50. A migração entre os anos 60 e 80 reduziu esta população para 250.000 por volta de 1991, sendo que a população rural ficou em apenas 200.000. Hoje, se considera que apenas 20.000 tenham permanecido em sua área original. O restante migrou para o Irã e áreas próximas, enquanto que pelo menos 100.000 estão desterrados no próprio Iraque.

A drenagem simplesmente acabou com a estrutura ambiental que permitia a subsistência econômica dos nativos. Sem mais condições para sua pesca, cultivo, criação de búfalos e colheita de cana (que envolvia uma indústria correlata), o êxodo rural tornou-se uma conseqüência inevitável. Nada disto foi sem intenção explícita e calculada. Tratou-se de um claro método para o despovoamento étnico. Paralelamente, serviços sociais como educação e saúde, assim como, os sistemas legais e administrativos iraquianos, só eram acessíveis para aqueles que viviam na orla dos pântanos, não em seu interior(15).

Acho que o Greenpeace não tem nenhuma preocupação com estes seres humanos, talvez só com os pântanos. Talvez, para eles, quanto mais despovoados, melhor... Afinal de contas, não foram isto que propuseram, recentemente, para a população da Grã-Bretanha? Sua redução para a resolução de problemas ambientais?

De modo mais acurado, Saddam se mostrou um mestre superior ao sérvio Milosevic em agressão e limpeza étnicas.

E o mais impressionante: consegue passar uma imagem de “vítima” para muitos militantes de “causas pacificistas”.

3. Pacifistas que dão de ombros ao genocídio

Mas ainda há os que procuram uma certa ordem internacional na qual possam basear seu julgamento, como a legitimidade do Conselho de Segurança da ONU. Ora, se não é por ignorância, é pura má fé mesmo. Como atribuir legitimidade a um órgão que tem como integrantes China e Rússia, países que não primam pelas mesmas orientações que pretendem dar aos EE.UU. Cobram de Washington o que não se ousa cobrar moralmente de Pequim ou Moscou. Por que é fácil cobrar sobre os maus-tratos aos presos iraquianos se, por outro lado, nada se diz sobre o massacre da Chechênia perpetrado pela Rússia a partir de 1994? Que é isto? Como tais países podem exigir algum procedimento de Washington se os mesmos não seguem o que pregam? Faça o que eu digo, não faça o que eu faço? Da mesma forma por que será que nossa ilustre imprensa chama a atenção e critica a formação do Estado de Israel, mas não dá o mesmo tratamento ao governo chinês que invadiu um país livre, o Tibet, em 1950?(16)

Outros, de análise mais desbaratada como Günter Graas acusam Bush de ser um dos autores de uma decadência moral americana ao utilizar a mesma linguagem do agressor se igualando a ele(17)... Pelo contrário, o que o autor de “O Tambor” e “A Ratazana” esquece é que o presidente Bush representa uma moralização da sociedade americana. Não, não, meu caro Nobel de literatura, não é Bush quem colabora ao antiamericanismo (essa é boa...). São milhares de insanos, socialistas, ecologistas (diferentes de ecólogos), anarco-punks e toda uma fauna sociopata que inventaria qualquer outra desculpa para queimar a bandeira de 13 listras e 50 estrelas. A oposição simplória aos EUA significa uma oposição ao sistema liberal-capitalista e sua hegemonia através da globalização. Esta ameaça a mamata da transferência indireta do provedor welfare-state europeu da qual vivem os segurados europeus. Estes, geralmente, são jovens desempregados, os próprios incentivadores da falta de capacidade de geração de empregos pela estagnação econômica do continente, liderado que são por partidos da esquerda européia.

Grass não consegue ocultar seu nacionalismo alemão que, tentando exorcizar a histórica culpa alemã pelas guerras mundiais se opõe a qualquer legítima manifestação de defesa dos EUA. O “comportamento imaturo” de que acusa Bush é, em realidade, o seu próprio que pretende tratar com pacifismo, estados armados até os dentes(18).

Graas lembra uma outra América, a do Plano Marshall, mas desconsidera que o mesmo não teria atingido seus objetivos não fosse a implantação da Otan. No fundo, o escritor tenta exorcizar a imagem que os alemães construíram para si durante as guerras mundiais, clama por um EUA generoso, mas despreza a cobrança pelos recursos. Ele quer o bônus, sem o ônus.

Grass esquece que a liberdade de expressão continua tão irrenunciável nos EUA que até mesmo alguém que escreva leviandades como escreveu poderia atracar naquele país. Se fosse possível, eu perguntaria ao Nobel de literatura se ele conseguiria o mesmo no Iraque, Rússia ou China?

Onde está a legitimidade de atacar outro país? Esta me parece a questão fundamental, nem sempre fácil de responder. Mas, de outro lado, não é um legítimo interesse político garantir que dezenas de milhares de curdos, sunitas e xiitas não sejam assassinados?
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NOTAS
1. Em tempo, conferir a matéria de Paulo Leite no Mídia Sem Máscara, “Barriga é pouco”, na qual o mal entendido (ou falta de profissionalismo) de grande parte da mídia brasileira que, como o caso de Magnoli, se baseia numa deturpação das palavras de Wolfowitz que não teria dito "(...) o petróleo tinha sido a principal razão para a guerra contra o Iraque [mas sim que a] ‘diferença entre a Coréia do Norte e o Iraque é que nós não tínhamos virtualmente nenhuma opção econômica contra o Iraque, porque o país flutua num mar de petróleo. No caso da Coréia do Norte, o país está à beira do colapso econômico e eu creio que esse é um grande ponto de alavancagem apesar do quadro militar ser muito diferente daquele do Iraque.' O sentido era claramente o de que os EUA não tinham opções econômicas através das quais conseguir seus objetivos, não que o valor econômico do petróleo motivou a guerra."
Podemos analisar a postura de Magnoli como total falta de profissionalismo de checar as fontes das notícias que avalia, mesclada com um poderoso wishful thinking que tenciona sempre que possível acusar os EUA por todos os problemas nas relações externas mundiais. Este é o quilate de nossos experts em geopolítica... (retorna)

2. Com todo respeito a esse jogo da Grow que embalou as tardes chuvosas (e, em muitos casos, as ensolaradas também) de nossa infância e adolescência, não se justifica, no entanto que a análise dos processos reais da política externa se atenha à eleição aleatória de umas poucas variáveis, como o faz Magnoli. (retorna)

3. Este termo pode parecer inapropriado, pois como já disse Olavo de Carvalho em seu Guerras Santas: “Essencialmente, foi graças à moral cristã e à lei muçulmana que o universal direito à vida, revelado inicialmente aos judeus, se tornou patrimônio de todos os homens.” Ou seja, se o Islã militante de hoje, realmente, se ativesse aos seus fundamentos, não haveria base teórica para o atual terrorismo.(retorna)

4. Na intragável Carta Capital de 09 de Abril de 2003 (Ano IX - Número 235) há uma matéria em sentido diametralmente oposto ao que digo, intitulada “Santos ou demônios?”.(retorna)

5. Afeganistão, Albânia, Austrália, Azerbaidjão, Colômbia, Coréia do Sul, Dinamarca, El Salvador, Eritréia, Eslováquia, Espanha, Estônia, Etiópia, Filipinas, Geórgia, Hungria, Islândia, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Macedônia, Nicarágua, Países Baixos, Polônia, Reino Unido, República Tcheca, Romênia, Turquia e Uzbequistão.(retorna)

6. À propósito, conferir minha crítica ao editorial sem lógica e coerência da Caros Amigos – Caros Imorais –, que justifica os assassinatos em Cuba.(retorna)

7. Cf. Oposição do Iraque promete governo democrático.(retorna)

8. Embora, ainda não esteja descartada a hipótese de que as mesmas ainda venham a ser encontradas. Cf. Plano terrorista com armas químicas na Jordânia.(retorna)

9. Aí começa o erro de vários países no apoio dado ao regime baath de Saddam, inclusive os EUA. Mas, toda a culpa não pode ser tributada, única e exclusivamente, como querem os antiamericanistas a este país. Em 1979, quando a Revolução Islâmica estourava, seu fanático líder, o ayatolá Khomeini, tentou em vão, impedir que os demais países do Golfo Pérsico exportassem seus excedentes de petróleo ao colocar minas submarinas no Estreito de Ormuz que dá passagem ao Mar da Arábia. Como era de se esperar, os EUA que não se perdem em discursos vazios como a França ou a social-democracia alemã, enviou uma força tarefa para desbloquear o estreito. Neste episódio, o preço do barril chegou a mais de US$ 70,00 levando a uma recessão global. Pode se questionar que vários países, dentre eles, os EUA errassem em investir pesado no armamento iraquiano para esfriar os ânimos dos revolucionários iranianos, mas não se pode negar que a ação inicial dos EUA foi plenamente justificável e legítima, no sentido de permitir o livre-comércio.(retorna)

10. Cf. Biography of Saddam Hussein of Tikrit, do interessante site de um grupo de dissidentes e oposicionistas ao regime baath, Iraq Foundation.(retorna)

11. Vamos especificar os termos: quando endosso a globalização, me refiro aquela, estritamente, econômica pautada em acordos comerciais que ampliem o livre-comércio. A observação se faz necessária para diferenciar das propostas da ONU, que enveredam pela formação de um poder mundial centralizador, “globalista” no péssimo sentido da palavra.(retorna)

12. Para conferir a “parcialidade ambientalista” do Greenpeace, Big Oil pushes the White House for a war with Iraq.(retorna)

13. Cf. Justice For Iraq. A Human Rights Watch Policy Paper.(retorna)

14. Cf. The Oil-for-Food Scam: What Did Kofi Annan Know, and When Did He Know It? [ou] Kojo & Kofi.(retorna)

15. Cf. The Iraqi Government Assaul on the Marsh Arabs.(retorna)

16. A mesma “dupla moral” tão freqüentemente encontrada em nosso governo brasileiro hoje em dia, pode ser vista nas análises que permeiam a situação americana no Iraque do pós-guerra. Confira: Arma de guerra.(retorna)

17. “A injusta lei do mais forte.” Folha de S. Paulo, 27 de março de 2003.(retorna)

18. Armas de Destruição Maciça. National Geographic Brasil, Editora Abril: ano 3, número 31, novembro de 2002, pp. 38-62.(retorna)

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:27
Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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