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31 Mai 2004

Violência e Desinformação

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Dessa maneira, a mentira não só é justificável, mas necessária para a superação da realidade, meta que só se concretiza totalmente através da revolução.

No dia 8 de abril de 1971, o então presidente chileno Salvador Isabelino Allende Gossens discursou na abertura da Primeira Assembléia Nacional de Jornalistas de Esquerda. Na ocasião, disse que “a objetividade não deveria existir no jornalismo”, pois “o dever supremo do jornalista de esquerda não é servir à verdade, mas à revolução” (CLAVEL, 2001). Durante o seu discurso, Allende delineou algumas estratégias a serem seguidas para o sucesso da revolução em curso: elevar a consciência política dos setores populares, intensificar a mobilização das massas para obter apoio às mudanças estruturais do programa da Unidade Popular e transformar em cooperativas as empresas de difusão jornalística (ALLENDE, 1971). Na declaração final da Assembléia, exortou-se à “Operação Verdade”, que tinha por objetivo combater as campanhas informativas da burguesia através da defesa do Governo Popular, do estabelecimento de uma maior vinculação dos jornalistas com o processo histórico vivido pelo país e da luta ideológica como elemento essencial no combate à oposição.

Sob o prisma de Allende e seus seguidores, o terreno das informações faz parte do processo de enfrentamento de classes. A objetividade, portanto, não existe. O que existe são construções que visam perpetuar uma relação histórica de dominação de uma classe sobre a outra. Dessa maneira, a mentira não só é justificável, mas necessária para a superação da realidade, meta que só se concretiza totalmente através da revolução.

A imagem amplamente difundida acerca de Salvador Allende é que ele foi um líder humanista e pacifista, eleito pelo povo através do voto democrático e violentamente derrubado pelas elites que viram seus interesses ameaçados pelas transformações sociais que ele promoveu no Chile. O que não se conta é que a violência política esteve presente nas resoluções do Partido Socialista chileno desde antes da eleição de Allende e que, durante o período de 1960 a 1973, o crime e o terror foram utilizados como meios contínuos de ação revolucionária, visando desestabilizar as “estruturas burguesas” (CLAVEL, RAMÍREZ e DEL VILLAR, 2003). São palavras do próprio Salvador Allende, no dia 29 de junho de 1973:

“Convoco o povo para que ocupe todas as indústrias, todas as empresas, para que esteja alerta; que se volte para o centro da cidade, mas não para ser vitimado; que o povo saia às ruas, mas não para ser metralhado; que o faça com prudência e com todo e qualquer elemento que tenha em suas mãos [...] Quando o momento chegar, o povo terá armas.”

Violência e desinformação não são distorções isoladas de certas tentativas de implantação de regimes socialistas. São, na verdade, elementos que andam de mãos dadas nas diretrizes doutrinárias da esquerda, utilizados de forma sistemática no caminho para a transformação social que os adeptos do marxismo apregoam.

Shultz e Godson, dois pesquisadores norte-americanos, especialistas em política internacional e assuntos estratégicos, realizaram estudos sobre as medidas ativas soviéticas, isto é, ações abertas e dissimuladas que objetivavam influenciar eventos e comportamentos nos países estrangeiros, para o fortalecimento da política internacional da União Soviética e o enfraquecimento de seus opositores. Segundo esses autores, os fins da política externa soviética eram identificados através de considerações de ordem doutrinária, isto é, por uma visão dinâmica e dialética da história, com ênfase nos conflitos como propulsionadores de interação política e mudanças (SHULTZ e GODSON, 1987).

Devemos perguntar-nos: por que nossas sociedades aceitam a mentira com tanta passividade? Será que se trata meramente de uma predisposição emocional, isto é, de uma tendência a aceitarmos argumentos mais pelo seu apelo emotivo do que pela sua precisão e consistência? Um discurso recheado de palavras belas como fraternidade, solidariedade, igualdade, justiça social e assim por diante é suficiente para camuflar décadas de opressão, torturas, seqüestros e genocídios?

Acredito que não. A tática da mentira requer um terreno fértil para se propagar e alcançar a plenitude de seus efeitos. Há que minar o senso crítico das pessoas, destruindo referências de cunho moral e colocando em dúvida a possibilidade de alcançarmos o conhecimento seguro através do exercício da razão. Em suma, para maximizar a eficiência da desinformação, há que relativizar. É pela relativização que se destróem os marcos para toda e qualquer comparação crítica.

Não adianta combater a desinformação com informação. Vivemos sob a hegemonia de um imperialismo ideológico que escraviza a humanidade e contra o qual não basta apresentarmos fatos e argumentos firmes. Após décadas de lavagem cerebral perpetrada por grande parte da mídia e dos centros acadêmicos, as pessoas não aceitam e muito menos assimilam quaisquer informações que contestem os mitos que foram inculcados em suas mentes com método e cuidado. Assim, para obtermos algum resultado, devemos antes de mais nada buscar o resgate consciente, nas sociedades, de valores sólidos que possam nortear os nossos objetivos.
 
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Referências:

ALLENDE, S. Discurso a la Primera Asamblea de Periodistas de Izquierda. La Nación, Santiago, 10 abr. 1971.

CLAVEL, P. (ed.). Los orígenes de la violencia política en Chile: 1960 – 1973. Santiago de Chile: Universidad Finis Terrae, Fundación Libertad y Desarrollo, 2001. 211 p.

CLAVEL, P.; RAMÍREZ, M.; DEL VILLAR, S. Los hechos de la violencia en Chile: del discurso a la acción. Santiago de Chile: Universidad Finis Terrae, Fundación Libertad y Desarrollo, 2003. Disponível em: http://www.lyd.cl/biblioteca/libros/ebook/hechos_violencia.pdf> Acesso em: 31 mai. 2004.

SHULTZ, R. H.;  GODSON, R. Desinformação: medidas ativas na estratégia soviética. Rio de Janeiro: Nordica, 1987. 188 p.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:27
Claudio A. Téllez

Claudio Andrés Téllez é cidadão chileno, mas mora no Brasil desde 1979. Cursou o Bacharelado em Matemática Aplicada na PUC-Rio e atualmente está cursando Relações Internacionais no Centro Universitário da Cidade (Rio de Janeiro). Escreve no Mídia Sem Máscara desde setembro de 2003.

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