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09 Mar 2006

A CNBB e as Orelhas de Lula

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Nosso presidente não tem preparo, mas é um homem inteligente. Quero tratar, aqui, do tal "puxão de orelhas" que lhe deu o secretário-geral da CNBB ao acusá-lo de ser incoerente com as propostas eleitorais.Não, meu caro leitor, não é o que você está pensando. Nosso presidente não tem preparo, mas é um homem inteligente. Quero tratar, aqui, do tal "puxão de orelhas" que lhe deu o secretário-geral da CNBB ao acusá-lo de ser incoerente com as propostas eleitorais. E seguiu por aí o prelado, criticando os juros, o desemprego, a má distribuição da renda e o pífio crescimento econômico.

É o que também eu penso e assino embaixo. Mas o fato de a CNBB criticar o governo de um partido que, com meu profundo desagrado, sempre contou com suas bênçãos e orações, não altera minha convicção sobre essa sempre polêmica relação entre o organismo dos bispos brasileiros e os temas da nossa vida política, social e econômica.

Cabe, aqui, distinguir os campos. Primeiro, a CNBB não é, não representa nem se confunde com a Igreja Católica. Ela é apenas um órgão de serviço ao episcopado e à Igreja Católica no Brasil. Conferências episcopais não integram a hierarquia da Igreja, que é muito simples, formada pelo Papa, os bispos, os presbíteros e os diáconos. Ponto. Depois, a Igreja, na sua relação com os fiéis, exerce um Magistério que tem duas únicas vertentes: o Papa isoladamente, e o Papa, com os bispos, em Concílio. Finalmente, organismos de serviço, membros da hierarquia, em conjunto ou isoladamente - ausente o Papa - podem opinar sobre qualquer assunto, no exercício de sua cidadania. Mas não será a Igreja que então se manifesta, nem estarão fazendo doutrina com aquilo que expressam. Será apenas opinião, tão sujeita ao contraditório quanto qualquer outra.

Por isso, sempre me desgostou quando, durante Assembléias Gerais da CNBB, determinados bispos passavam a tagarelar com a imprensa sobre temas técnicos, políticos e administrativos, sendo percebidos pela opinião pública como se fossem porta-vozes do Espírito Santo. Não é bem o caso. A Doutrina da Igreja, incluída aí a sua Doutrina Social, não detalha políticas públicas, porque elas se situam no campo autônomo da política. A Igreja apenas enuncia princípios. Portanto, quando o secretário-geral da CNBB puxa as orelhas de Lula, está dando uma opinião, como tal sujeita ao contraditório, e se expondo a levar um puxão de volta porque na política as coisas são assim. Nela há divergências sobre quase tudo e quem dá um joelhaço pode esperar um cotovelaço.

É importante que essas três coisas fiquem claras: quem formula a doutrina da Igreja, a diferença entre a CNBB e a Igreja, e a diferença entre doutrina e opinião. Não é porque alguém da CNBB, depois de umas boas duas décadas, finalmente emitiu uma opinião parecida com a minha que eu vou mudar minha posição a respeito dessas declarações que dirigentes do organismo têm o hábito de emitir sobre temas que se situam fora do campo da doutrina. Com muito maior propriedade e autoridade poderiam falar, então sim, sobre a crise moral que se abateu sobre as instituições nacionais.
Não, meu caro leitor, não é o que você está pensando. Nosso presidente não tem preparo, mas é um homem inteligente. Quero tratar, aqui, do tal "puxão de orelhas" que lhe deu o secretário-geral da CNBB ao acusá-lo de ser incoerente com as propostas eleitorais. E seguiu por aí o prelado, criticando os juros, o desemprego, a má distribuição da renda e o pífio crescimento econômico.

É o que também eu penso e assino embaixo. Mas o fato de a CNBB criticar o governo de um partido que, com meu profundo desagrado, sempre contou com suas bênçãos e orações, não altera minha convicção sobre essa sempre polêmica relação entre o organismo dos bispos brasileiros e os temas da nossa vida política, social e econômica.

Cabe, aqui, distinguir os campos. Primeiro, a CNBB não é, não representa nem se confunde com a Igreja Católica. Ela é apenas um órgão de serviço ao episcopado e à Igreja Católica no Brasil. Conferências episcopais não integram a hierarquia da Igreja, que é muito simples, formada pelo Papa, os bispos, os presbíteros e os diáconos. Ponto. Depois, a Igreja, na sua relação com os fiéis, exerce um Magistério que tem duas únicas vertentes: o Papa isoladamente, e o Papa, com os bispos, em Concílio. Finalmente, organismos de serviço, membros da hierarquia, em conjunto ou isoladamente - ausente o Papa - podem opinar sobre qualquer assunto, no exercício de sua cidadania. Mas não será a Igreja que então se manifesta, nem estarão fazendo doutrina com aquilo que expressam. Será apenas opinião, tão sujeita ao contraditório quanto qualquer outra.

Por isso, sempre me desgostou quando, durante Assembléias Gerais da CNBB, determinados bispos passavam a tagarelar com a imprensa sobre temas técnicos, políticos e administrativos, sendo percebidos pela opinião pública como se fossem porta-vozes do Espírito Santo. Não é bem o caso. A Doutrina da Igreja, incluída aí a sua Doutrina Social, não detalha políticas públicas, porque elas se situam no campo autônomo da política. A Igreja apenas enuncia princípios. Portanto, quando o secretário-geral da CNBB puxa as orelhas de Lula, está dando uma opinião, como tal sujeita ao contraditório, e se expondo a levar um puxão de volta porque na política as coisas são assim. Nela há divergências sobre quase tudo e quem dá um joelhaço pode esperar um cotovelaço.

É importante que essas três coisas fiquem claras: quem formula a doutrina da Igreja, a diferença entre a CNBB e a Igreja, e a diferença entre doutrina e opinião. Não é porque alguém da CNBB, depois de umas boas duas décadas, finalmente emitiu uma opinião parecida com a minha que eu vou mudar minha posição a respeito dessas declarações que dirigentes do organismo têm o hábito de emitir sobre temas que se situam fora do campo da doutrina. Com muito maior propriedade e autoridade poderiam falar, então sim, sobre a crise moral que se abateu sobre as instituições nacionais.
Percival Puggina

O Prof. Percival Puggina formou-se em arquitetura pela UFRGS em 1968 e atuou durante 17 anos como técnico e coordenador de projetos do grupo Montreal Engenharia e da Internacional de Engenharia AS. Em 1985 começou a se dedicar a atividades políticas. Preocupado com questões doutrinárias, criou e preside, desde 1996, a Fundação Tarso Dutra de Estudos Políticos e Administração Pública, órgão do PP/RS. Faz parte do diretório metropolitano do partido, de cuja executiva é 1º Vice-presidente, e é membro do diretório e da executiva estadual do PP e integra o diretório nacional.

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