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31 Mai 2004

Negócio da China

Escrito por 

Está tudo muito bem, está tudo muito bom, mas a esta altura cabe indagar: Afinal de contas: Qual é o grande negócio do China?

“O Brasil tem exportado produtos de muito boa quali-dade para a China, como jogadores de futebol”.
Lin-Jian-Chao, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China

Coisas há que não são feitas propositalmente, mas, quando ocorrem, vêm bem a calhar. A viagem de Lulinha Paz e Amor já estava agendada há muito tempo – visita presidencial a país estrangeiro não se improvisa nem se faz de surpresa – mas rasgar os céus a bordo do sucatão rumo ao Império do Meio (ou do Medo?), após o lamentável epi-sódio de um gesto de truculência ditatorial, (Refiro-me à tentativa de expulsar o Larry Rohter) saiu mesmo melhor que a encomenda, como uma boa ducha fria num clima que estava ficando quente demais. 
“Isto não tem nada ver com política: é uma boa tentativa de intensificar o comércio internacional com um parceiro promissor - dirão certamente espíritos economicistas e mal informados –, pois a China não só é um grande mercado para produtos brasileiros como  o Brasil também pode ser um grande mercado para produtos chineses”. Bem, isto já é há bastante tempo, haja vista a grande quantidade de bugigangas Made in China inundando nossa economia informal, que já passou de 50% da atividade econômica. Só não pode falar em combater a pirataria industrial e impor respeito à propriedade intelectual, porque o dragão chinês se avermelha e expele fogo pelas ventas com fúria de sogra num ataque de nervos.

No entanto, isto contraria a idéia clássica de que o comércio internacional é sempre uma via de duas mãos. Se, numa das vias, a pirataria chinesa entra à vontade em Pindorama  - tal como contrabando de armas do Paraguai e de cocaína da Colômbia - na outra via os produtos brasileiros só entram formalmente na China, e isto quando não são contidos por barreiras protecionistas mais fortes do que as propostas pela ALCA (Área de “Livre” Comércio das Américas). E, além disso, não é verdade que isto nada tem a ver com política, pois o próprio Lulinha Paz e Amor declarou que o estreitamento das relações comerciais com a China era um grande passo na formação do bloco dos 20 países emergentes e insatisfeitos, contra-pondo-se tanto ao bloco americano quanto ao da Comunidade Européia. O fantasma do não-alinhamento e da tal da “política externa independente” dos insaudosos Jânio Quadros e San Thiago Dantas continua assombrando os corredores do Ministério das Relações Exte-riores, para o total desalento do lúcido embaixador Meira Penna.

E se isto não tem nada a ver com política, porque estranha razão Lulinha Paz e Amor reconheceu publicamente a opressão chinesa sobre o Tibete, sob a alegação de que era um caso de manutenção da integridade do território nacional chinês, quando sabemos que o Tibete era uma nação independente antes de ser invadida e massacrada pelos macacos do camarada Mao-Tsê-Tung, o Grande Timoneiro?! Só se fosse o da Nau dos Insensatos, pois 4 cadáveres não entram na estatística, mas 4.000.000 de mortos, cifra concorrendo com Auschwitz, já pode ser considerado genocídio.

Bem, ao que tudo indica, é importar urânio in natura de Pindorama e exportar urânio enriquecido para Pindaíba Uai! Não diziam por aí que os “vis capitalistas americanos” importavam algodão do Seridó (RGN) e exportavam jeans para estudantes universitários brasileiros?! Mas o  fato é que, para os Estados Unidos, o Brasil tem exportado aviões e celulares, mas, para a China, grãos de soja e minério de ferro. “Mineral radioativo, sim, mas não para finalidades bélicas - garantirá o Ministério da Defesa -  porém  com fins estritamente pacíficos”. M’engana que eu gosto.

Recentemente, tal como o fez várias vezes Satam Hussein, nosso Ministério da Defesa, recusou a visita de inspetores da ONU a Resende (RJ), não que tivesse um progra-ma  top secret para a elaboração de armas atômicas como o da Serra do Cachimbo - do qual ninguém se lembra mais, a não ser este que escreve e poucos de boa memória – porém porque esses abelhudos podiam ficar espionando nossa avançada tecnologia nuclear. Já pensou se a moda pega? Hugo Chávez deve estar doidão para fazer uma bombinha de uns 40 megatons.
Ainda não me foi dado o prazer de compreender a norteante racionalidade dos diri-gentes da pátria – nem a paisana nem a fardada.  É conhecido o fato de que as forças armadas têm dispensado recrutas por carecer de verba para preparar o rancho da rapaziada – e tenho razões para crer que tal alegação de extrema penúria é mesmo procedente. “La vendetta è un piato che se mangia freddo”.De vez em quando um quartel é assaltado por membros do narcotráfico, que surrupiam armas e explosivos com muito menos dificuldade do que a que encontrariam, caso decidissem assaltar um banco.

Na minha não entra, mas será que entra na sua cabeça que quem não tem dinheiro  para comprar comida, nem para preservar seu patrimônio de armamento convencional, pretenda ingressar no clube atômico e possuir foguetes de lançamentos de satélites como aquele que em recentes tempos torrou em solo como café na Base de Alcântara com 23 vítimas civis?! Todo governo tem o povo que merece e vice-versa: foram feitos um para o outro.  De fato, o cidadão mora  de aluguel e só compra no crediário a juros cavalares, mas se recusa a andar de outra coisa que não seja terninhos Armani e gravatinhas de pura seda chinesa, dentro de um táxi  com ar condicionado. Ônibus, metrô e assemelhados são veícu-los  para o Zé povinho.

Quanto ao apoio de Lulinha Paz e Amor à opressão chinesa  no Tibete, isto não é de causar espécie, pois ele sempre deu apoio velado ao desrespeito dos direitos humanos em Cuba e nunca se recusou a fumar um charutão com El Coma Andante. Se bem que Fidel Castro declarou para quem quisesse e quem não quisesse ouvir: “En Cuba no hay prisione-ros politicos: hay inimigos de la Revolución”. E no Brasil também não há prisioneiros políticos: há amigos de la  Revolución, que já foram prisioneiros políticos antes do alvore-recer da Nova República e da Constituição-Cidadã de Ulysses no País das Maravilhas. Dolorosa é a constatação de que ambas já nasceram sofrendo do terrível mal da gota serena. Arre égua!

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:27
Mario Guerreiro

Mario Antonio de Lacerda Guerreiro nasceu no Rio de Janeiro em 1944. Doutorou-se em Filosofia pela UFRJ em 1983. É Professor Adjunto IV do Depto. de Filosofia da UFRJ. Ex-Pesquisador do CNPq. Ex-Membro do ILTC [Instituto de Lógica, Filosofia e Teoria da Ciência], da SBEC [Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos].Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da Universidade. Autor de Problemas de Filosofia da Linguagem (EDUFF, Niterói, 1985); O Dizível e O Indizível (Papirus, Campinas, 1989); Ética Mínima Para Homens Práticos (Instituto Liberal, Rio de Janeiro, 1995). O Problema da Ficção na Filosofia Analítica (Editora UEL, Londrina, 1999). Ceticismo ou Senso Comum? (EDIPUCRS, Porto Alegre, 1999). Deus Existe? Uma Investigação Filosófica. (Editora UEL, Londrina, 2000). Liberdade ou Igualdade (Porto Alegre, EDIOUCRS, 2002).

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