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24 Fev 2006

Da Hipocrisia da Santidade

Escrito por 
Em meio a colossal degenerescência moral que vem assolando a cena pública de nosso país, ainda há aqueles que se dão ao trabalho de atirar mais algumas pedras no infeliz transeunte que mal e mal sabe o seu nome.

Coitado do “Zé povinho”. Em meio a colossal degenerescência moral que vem assolando a cena pública de nosso país, ainda há aqueles que se dão ao trabalho de atirar mais algumas pedras no infeliz transeunte que mal e mal sabe o seu nome como, se este fosse, o único comerciante de votos em atividade em nossa nação.

Já é conhecido de todos nós as inúmeras histórias absurdas, algumas que chegam a beirar o universo surreal da demência demasiadamente humana, que preenchiam e, de certo modo, ainda preenche o cenário político nacional como: a troca de um voto por uma dentadura, por um par de sapatos, por uma cesta básica, por um cobertor, por um casaco, por alguns trocados, etc. São indivíduos que pelo fato de estarem vivendo a margem das condições básicas para o exercício da cidadania que, por esse mesmo motivo, apresentam-se incapacitados de reconhecer na sua participação em um pleito eleitoral a devida importância, imperial, diga-se de passagem, que seu voto tem para uma positiva transmutação da ordem social e política. Não encontram nele, no voto, o significado áureo deste gesto, por isso, trocam-no por qualquer bem que esses estejam necessitando, de modo similar aos silvícolas ameríndios do início da dominação lusitana que, por não valorarem a madeira do pau-brasil, a trocavam por qualquer bugiganga que os portugueses lhes ofertassem acreditando que, estariam ainda a fazer um bom negócio. Essas pessoas que realizam esse tipo de ato, não o fazem por pura maldade e muito menos por estupidez congênita ou simplesmente por serem alienadas, como muitos preferem chamar. O fazem porque a sociedade lhes arrombou a dignidade desde o berço. O fazem porque eles mesmos se vêem excluídos do processo político e, quando lhes chega um senhor ou senhora de boa lábia (mas péssima índole) lhes falar e lhes ofertar benesses materiais, esses, acabam aceitando de bom grado, visto o fato de praticamente nunca serem agraciados pela vida na selva de pedra.

De mais a mais, mesmo compactuando com esse tipo de prática, os desvalidos da sociedade não participam deste troca-troca eleitoreiro de maneira passiva e apática. Jogam o jogo de acordo com as regras dadas e, deste modo, procuram tirar alguma vantagem da pérfida situação, devido o fato de não haver nota fiscal e muito menos recibo desta prática comercial escusa além da coação moral dos meliantes candidatos a augustos representantes do “povo”. Apenas a título de ilustração, fazemos saber que, em certa vez, em uma entrevista que estávamos desenvolvendo com alguns trabalhadores rurais, acabamos por tropicar no assunto política e eleições. Um deles de maneira espontânea e bem humorada disse-nos: “Olha moço, eu vou te dizer uma coisa. Eu não só vendi o meu voto pra toda essa corja, como “trabalhei” pra quase todos eles. Pelo menos foi o que eu disse pra eles.

Olha, naqueles dias de campanha eu ia direto pro alagado e sempre estava com o tanque do meu carro vomitando de tanta gasolina que eles me davam. Só que eu não votei pra nenhum destes caiporas e nem devia, não é mesmo”? Podemos dizer que neste caso como em muitos outros similares que se encenam em todo o território nacional, o adágio popular cabe como uma luva quando afirma que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Como também, cai como uma luva as lições do sociólogo Michel de Certeau, quando esse afirma que todo ato de consumo, como todo ato humano, não é um ato passivo, mas sim, criativo. Por mais que a sociedade acabe criando mecanismos de controle, padrões estéticos e de comportamento, as pessoas não os assimilam de maneira passiva, dizendo amém ao que lhes é imposto e deixando-se sujeitar por inteiro as inúmeras formas de dominação. As pessoas as assimilam, porém à sua maneira e, de certo modo, dão o seu pitáco nas regras. Elas se apropriam ou se reapropriam dos bens, regras, produtos e de tudo o mais que lhes é imposto e as utilizam ao seu modo e mesmo que de modo microscópico, procurando sempre obter uma posição vantajosa em relação ao seu opressor, fazendo o jogo do dominador para assim diminuir a sua dominação. Trocando em moela: sociologicamente essa postura adotada pelos populares é explicável e moralmente compreensível, o que não significa que seja aceitável.

Por isso mesmo, o que nos impressiona não é a atitude destes desvalidados pela nossa realidade soturna. O que desgasta minhas entranhas com uma cólera abissal é vermos pessoas de classe média, pessoas que tem acesso a condições básicas para o exercício da cidadania, que dispõem de um grau de instrução relativamente bom e que, mesmo assim, trocam os seus votos por vantagens que eles, por serem caras de pau ou por sem-vergonhice pura afirmam de pés juntinhos que não é venda de voto não!

Alias, são eles os primeiros a encherem a boca para afirmar que a culpa de termos políticos corruptos é do tal do “povo” que vende os seu voto por ninharias. Talvez estejam afirmando que o “povo” deveria fazer como eles: vender os seus votos por algo mais aquilatado como um bom emprego ou cargo para si ou para algum familiar seu, ou uma facilidade no ganho de uma licitação, etc. Mas nunca miudeza. Isso é coisa de pobre. Por fim, senhores bem instruídos que vivem jogando a sua dignidade e de seus descendentes na lata de lixo populista, não estou aqui para dizer-lhes que vocês estão errados, que vocês devem parar com a prática do tráfico de influência mesquinho que dá sustentação a seu parasitismo passivo. Não mesmo. Mas lhes digo, com direito a dedada na cara: parem, pelo amor de Deus, de simularem santidade perante os outros para acobertar a sua hipocrisia covarde que acoberta a sua cumplicidade passiva com os criminosos que de tempos em tempos se entrincheiram nas entras da maquinaria Estatal com esse falso moralismo ridículo que vocês adoram encenar.

Se quiser continuar a comercializar sua dignidade, o problema maior será daqueles que ainda não nasceram, não é mesmo? Mas, pelo menos, tenha a mesma vergonha na cara que o dito “Zé povinho” que vocês dizem ser o grande mal deste país e que, por incrível que possa lhes parecer, tem muito mais sangue nas veias do que baratas tontas como eu e você poderão, um dia, ser capazes de imaginar.

Coitado do “Zé povinho”. Em meio a colossal degenerescência moral que vem assolando a cena pública de nosso país, ainda há aqueles que se dão ao trabalho de atirar mais algumas pedras no infeliz transeunte que mal e mal sabe o seu nome como, se este fosse, o único comerciante de votos em atividade em nossa nação.

Já é conhecido de todos nós as inúmeras histórias absurdas, algumas que chegam a beirar o universo surreal da demência demasiadamente humana, que preenchiam e, de certo modo, ainda preenche o cenário político nacional como: a troca de um voto por uma dentadura, por um par de sapatos, por uma cesta básica, por um cobertor, por um casaco, por alguns trocados, etc. São indivíduos que pelo fato de estarem vivendo a margem das condições básicas para o exercício da cidadania que, por esse mesmo motivo, apresentam-se incapacitados de reconhecer na sua participação em um pleito eleitoral a devida importância, imperial, diga-se de passagem, que seu voto tem para uma positiva transmutação da ordem social e política. Não encontram nele, no voto, o significado áureo deste gesto, por isso, trocam-no por qualquer bem que esses estejam necessitando, de modo similar aos silvícolas ameríndios do início da dominação lusitana que, por não valorarem a madeira do pau-brasil, a trocavam por qualquer bugiganga que os portugueses lhes ofertassem acreditando que, estariam ainda a fazer um bom negócio. Essas pessoas que realizam esse tipo de ato, não o fazem por pura maldade e muito menos por estupidez congênita ou simplesmente por serem alienadas, como muitos preferem chamar. O fazem porque a sociedade lhes arrombou a dignidade desde o berço. O fazem porque eles mesmos se vêem excluídos do processo político e, quando lhes chega um senhor ou senhora de boa lábia (mas péssima índole) lhes falar e lhes ofertar benesses materiais, esses, acabam aceitando de bom grado, visto o fato de praticamente nunca serem agraciados pela vida na selva de pedra.

De mais a mais, mesmo compactuando com esse tipo de prática, os desvalidos da sociedade não participam deste troca-troca eleitoreiro de maneira passiva e apática. Jogam o jogo de acordo com as regras dadas e, deste modo, procuram tirar alguma vantagem da pérfida situação, devido o fato de não haver nota fiscal e muito menos recibo desta prática comercial escusa além da coação moral dos meliantes candidatos a augustos representantes do “povo”. Apenas a título de ilustração, fazemos saber que, em certa vez, em uma entrevista que estávamos desenvolvendo com alguns trabalhadores rurais, acabamos por tropicar no assunto política e eleições. Um deles de maneira espontânea e bem humorada disse-nos: “Olha moço, eu vou te dizer uma coisa. Eu não só vendi o meu voto pra toda essa corja, como “trabalhei” pra quase todos eles. Pelo menos foi o que eu disse pra eles.

Olha, naqueles dias de campanha eu ia direto pro alagado e sempre estava com o tanque do meu carro vomitando de tanta gasolina que eles me davam. Só que eu não votei pra nenhum destes caiporas e nem devia, não é mesmo”? Podemos dizer que neste caso como em muitos outros similares que se encenam em todo o território nacional, o adágio popular cabe como uma luva quando afirma que ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão. Como também, cai como uma luva as lições do sociólogo Michel de Certeau, quando esse afirma que todo ato de consumo, como todo ato humano, não é um ato passivo, mas sim, criativo. Por mais que a sociedade acabe criando mecanismos de controle, padrões estéticos e de comportamento, as pessoas não os assimilam de maneira passiva, dizendo amém ao que lhes é imposto e deixando-se sujeitar por inteiro as inúmeras formas de dominação. As pessoas as assimilam, porém à sua maneira e, de certo modo, dão o seu pitáco nas regras. Elas se apropriam ou se reapropriam dos bens, regras, produtos e de tudo o mais que lhes é imposto e as utilizam ao seu modo e mesmo que de modo microscópico, procurando sempre obter uma posição vantajosa em relação ao seu opressor, fazendo o jogo do dominador para assim diminuir a sua dominação. Trocando em moela: sociologicamente essa postura adotada pelos populares é explicável e moralmente compreensível, o que não significa que seja aceitável.

Por isso mesmo, o que nos impressiona não é a atitude destes desvalidados pela nossa realidade soturna. O que desgasta minhas entranhas com uma cólera abissal é vermos pessoas de classe média, pessoas que tem acesso a condições básicas para o exercício da cidadania, que dispõem de um grau de instrução relativamente bom e que, mesmo assim, trocam os seus votos por vantagens que eles, por serem caras de pau ou por sem-vergonhice pura afirmam de pés juntinhos que não é venda de voto não!

Alias, são eles os primeiros a encherem a boca para afirmar que a culpa de termos políticos corruptos é do tal do “povo” que vende os seu voto por ninharias. Talvez estejam afirmando que o “povo” deveria fazer como eles: vender os seus votos por algo mais aquilatado como um bom emprego ou cargo para si ou para algum familiar seu, ou uma facilidade no ganho de uma licitação, etc. Mas nunca miudeza. Isso é coisa de pobre. Por fim, senhores bem instruídos que vivem jogando a sua dignidade e de seus descendentes na lata de lixo populista, não estou aqui para dizer-lhes que vocês estão errados, que vocês devem parar com a prática do tráfico de influência mesquinho que dá sustentação a seu parasitismo passivo. Não mesmo. Mas lhes digo, com direito a dedada na cara: parem, pelo amor de Deus, de simularem santidade perante os outros para acobertar a sua hipocrisia covarde que acoberta a sua cumplicidade passiva com os criminosos que de tempos em tempos se entrincheiram nas entras da maquinaria Estatal com esse falso moralismo ridículo que vocês adoram encenar.

Se quiser continuar a comercializar sua dignidade, o problema maior será daqueles que ainda não nasceram, não é mesmo? Mas, pelo menos, tenha a mesma vergonha na cara que o dito “Zé povinho” que vocês dizem ser o grande mal deste país e que, por incrível que possa lhes parecer, tem muito mais sangue nas veias do que baratas tontas como eu e você poderão, um dia, ser capazes de imaginar.

Dartagnan Zanela

Professor e ensaísta. Autor dos livros Sofia Perennis, O Ponto Arquimédico, A Boa Luta, In Foro Conscientiae e Nas Mãos de Cronos – ensaios sociológicos.

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