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30 Mai 2004

Os Piores Cegos

Escrito por 

Não é o pessimismo nem, tampouco, qualquer teoria econômica liberal que nos levam a afirmar isto. É a inexorável verdade, enjoada, mas irrefutável, da aritmética contábil.

Embora os ditados populares resumam a sabedoria acumulada por sucessivas gerações, refletindo os usos, costumes e tradições que deveriam servir de amparo à verdadeira lei, algumas vezes precisam ser aperfeiçoados. Os piores cegos, contrariamente ao que estabelece o velho brocardo, não são os que não querem ver, mas os que acham que vêem mais do que os outros, os que se acham detentores do monopólio das boas intenções, da ética e dos objetivos ditos “sociais”. São os economistas heterodoxos - que geralmente não enxergam mais do que meio palmo diante de seus narizes -, advogados formados na tradição positiva do Direito, sociólogos e filósofos embebidos até os mais altos fios de cabelo (quando não são carecas, evidentemente) no líquido gosmento que mistura Hegel, Marx, Nietzsche e seus derivados pós e neos, jornalistas politicamente militantes, representantes de organizações não governamentais de esquerda, “movimentos sociais” e outros apêndices da denominada “sociedade civil organizada”.

Falam todos o mesmo dialeto, que é a linguagem do politicamente correto ou a das doninhas e, embora seus sotaques possam diferir entre si, saltando do economês ao juridiquês e passando pelo sociologês, o jornalistês e por outros cacoetes de comunicação próprios de cada profissão, constituem um grupo coeso - adrede arregimentado e treinado nos moldes de Antonio Gramsci - o  dos piores cegos.

Todos são “contra” os juros altos e vêem no Comitê de Política Monetária, no Presidente do Banco Central e no Ministro Palocci representantes de uma política “neoliberal conservadora”, imposta pela “potência hegemônica” para enriquecer banqueiros e empobrecer brasileiros, sem a menor piedade, sob o aval, evidentemente, do FMI e dos Estados Unidos, ou de qualquer outro país rico.  Todos – no fundo e na superfície! – criticam no governo petista exatamente aquilo que pode ser elogiado e elogiam o que deve ser criticado. São os viúvos da falecida União Soviética, que teimam, em pleno ano de 2004, em continuar flertando, em busca de um novo casamento, com qualquer governo, em qualquer canto do mundo, que se declare e aja como “de esquerda”.

Manifestam-se, muitas vezes agressivamente e usando a velhíssima tática de tentar desqualificar quem não pensa como eles (inclusive moralmente, afirmando, por exemplo, que os economistas favoráveis à atual política de metas de inflação o fazem por viverem às custas de seus ganhos nos mercados financeiros), “contra” os juros altos, o desemprego, a falta de crescimento, a pobreza, a fome, a miséria, em uma atitude risível, em tudo semelhante à daquele velho jornalista esportivo do passado, que escreveu sua crônica em uma segunda-feira manifestando-se “contra” a derrota de seu time de futebol no jogo realizado na véspera. Sim, pois, embora ninguém, em sã consciência, possa ser “a favor” daquelas mazelas, os piores cegos escrevem e falam como se apenas eles se preocupem com as mesmas. São, para dizermos clara e francamente, verdadeiros sepulcros caiados. Erram nos diagnósticos, tergiversam nos prognósticos, mas continuam pernósticos, porém mantêm sempre a aparência de “preocupados com o social” , o que os torna os fariseus dos tempos modernos.

Em anos de eleições – coisa, infelizmente, corriqueira no Brasil – o ambiente para a proliferação dos piores cegos torna-se particularmente favorável. Temos presenciado a um verdadeiro show oferecido por eles em jornais, na TV, em revistas, na academia e no rádio: propostas para o estabelecimento de “metas de crescimento do PIB” (sem darem sinal de saberem que a URSS morreu de inanição e corrupção há muitos anos), redução “na marra” da taxa SELIC (sem dizerem como o Estado passaria a enfrentar as suas necessidades de financiamento), “flexibilização” das metas de inflação (sem mostrarem qualquer lembrança do fato de que a hiperinflação brasileira, da segunda metade dos anos 80 até a primeira dos anos 90, foi a maior das causas do aumento da pobreza e da miséria), controles sobre os movimentos de capitais internacionais (revelando não saberem que um país não é um presídio), retorno a um regime de câmbio fixo ou quase fixo (sem exibirem a menor sintonia com o mundo moderno) e outros alvedrios plenos de impropriedades econômicas, bem como de demagógicas propriedades políticas e veleidades ideológicas.

Nas sociedades abertas – como a que se está tentando institucionalizar, a duras penas, no Brasil – qualquer um, obviamente, deve ter oportunidade de manifestar livremente suas idéias, sejam elas quais forem. Assim, qualquer cidadão tem todo o direito de ser socialista, mesmo estando mais do que comprovado ser o socialismo real – como nos mostra sobejamente a simples observação das experiências de todos os países que optaram por esse regime – uma estrada cujo único destino é o fracasso. Mas ninguém, mesmo nas sociedades livres, tem o direito de ser burro, ou de persistir na burrice e, ao mesmo tempo, querer impor aos demais a sua estultícia, como se fosse inteligência. Se a burrice, para seguirmos as orientações de seu ídolo Hegel, contém a inteligência, o melhor que se pode esperar desse silogismo é que o resultado seja algo meio-burro e meio inteligente, talvez um centauro às avessas, com corpo de um ser racional e cabeça de cavalo...

Em outras palavras, pode-se ser socialista, mas não se pode agredir, já não diremos a ciência econômica, que não tem nada de exata, mas a própria aritmética contábil, que não admite subterfúgios ideológicos. Se forem adotadas as medidas que sugerem, tais como a queda artificial das taxas de juros, ou o estabelecimento de metas de crescimento para a economia, ou a flexibilização das metas de inflação, ou os controles sobre os capitais externos e sobre a taxa de câmbio, os balanços das empresas e o próprio balanço de pagamentos do país reagirão sem piedade, já que, por definição, por tautologia, ativos e passivos têm que ser iguais. Parodiando São Paulo, podemos afirmar: “não pode o ativo dizer ao passivo: não te conheço”, ou a conta de reservas internacionais do Banco Central dizer à taxa de câmbio: “quem és tu, retira-te, não te chamei”, ou, ainda, o setor real da economia desfazer-se do setor financeiro, dizendo-lhe “vade retro, causador de desemprego e miséria”...

Admitamos que um Banco Central “progressista” ou “desenvolvimentista” reduza a taxa de juros, sem o correspondente amparo do regime fiscal: como o déficit nominal continuará a existir e como o governo não conseguirá mais financiá-lo no mercado de títulos, deverá necessariamente elevar a carga tributária, e/ou endividar-se no exterior e/ou emitir moeda, o que, respectivamente, matará de uma vez, por asfixia, o chamado “setor produtivo”, comprometerá nossas contas externas e trará de volta o velho e desdentado tigre da inflação. Se a opção for a de baixar a taxa SELIC com a flexibilização das metas de inflação, o governo estará, simplesmente, anunciando aos agentes econômicos que aceitará uma inflação maior e, como esses agentes não são passivos (como nos livros de inspiração keynesiana), a inflação estourará na mesma hora. Se a queda forçada da taxa de juros vier acompanhada por controles de capitais externos e por rigidez cambial, todo o esforço de expansão de exportações ficará comprometido, bem como a poupança necessária para financiar a economia do país. Por fim, se a baixa da SELIC ocorrer no bojo de todas essas outras infelizes medidas, veremos consagrada a opção pelo caos: forte inflação, desemprego, recessão e crise cambial.

Não é o pessimismo nem, tampouco, qualquer teoria econômica liberal que nos levam a afirmar isto. É a inexorável verdade, enjoada, mas irrefutável, da aritmética contábil.

Os piores cegos parecem desconhecer ou fingirem desconhecer o velho Frei Luca de Pacciolo, que criou, em seu Tratactus de Computis et Scripturis, publicado em 1494, o método das partidas dobradas, mostrando que à teoria contábil do débito e do crédito corresponde a teoria dos números positivos e negativos. Estão apenas 510 anos atrasados...

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 20:27
Ubiratan Iorio

UBIRATAN IORIO, Doutor em Economia EPGE/Fundação Getulio Vargas, 1984), Economista (UFRJ, 1969).Vice-Presidente do Centro Interdisciplinar de Ética e Economia Personalista (CIEEP), Diretor da Faculdade de Ciências Econômicas da UERJ(2000/2003), Vice-Diretor da FCE/UERJ (1996/1999), Professor Adjunto do Departamento de Análise Econômica da FCE/UERJ, Professor do Mestrado da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC, Professor dos Cursos Especiais (MBA) da Fundação Getulio Vargas e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Coordenador da Faculdade de Economia e Finanças do IBMEC (1995/1998), Pesquisador do IBMEC (1982/1994), Economista do IBRE/FGV (1973/1982), funcionário do Banco Central do Brasil (1966/1973). Livros publicados: "Economia e Liberdade: a Escola Austríaca e a Economia Brasileira" (Forense Universitária, Rio de Janeiro, 1997, 2ª ed.); "Uma Análise Econômica do Problema do Cheque sem Fundos no Brasil" (Banco Central/IBMEC, Brasília, 1985); "Macroeconomia e Política Macroeconômica" (IBMEC, Rio de Janeiro, 1984). Articulista de Economia do Jornal do Brasil (desde 2003), do jornal O DIA (1998/2001), cerca de duzentos artigos publicados em jornais e revistas. Consultor de diversas instituições.

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