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25 Jan 2006

O Irã Convida a Dança

Escrito por 
Fico observando algumas manifestações pró e anti-Irã na internet e não consigo concordar com elas. Para mim, a possibilidade do Irã desenvolver a energia nuclear para fins pacíficos está fora de questão: ele deve faze-lo.

Fico observando algumas manifestações pró e anti-Irã na internet e não consigo concordar com elas. Para mim, a possibilidade do Irã desenvolver a energia nuclear para fins pacíficos está fora de questão: ele deve faze-lo. Mas, não é isto que está em questão. Não se pode dar ao luxo de ser ingênuo: Ahmadinejad, presidente iraniano, declarou em alto e bom som que “Israel deve ser varrida do mapa”. Então, quaisquer que sejam seus objetivos secundários quanto a esta poderosa fonte energética, ela deve ser impedida.

Muitos argumentam que é injusto por que os EUA e seus aliados têm potencial nuclear. É verdade, mas a geopolítica não dá espaço para debates morais. Quem pensa que há uma “razão justa” no sentido de equilíbrio do poder se engana. É necessário estabilizar a região e, antes que uma intervenção em um país de mais de 50 milhões de pessoas seja necessária, pressões internacionais, embargo econômico como o feito contra Cuba, tudo que não necessite de mais operações militares deve ser tentado.

Já ouvi dizerem que “a fala do presidente iraniano não deve ser tomada literalmente”. Isto não é argumento válido para um povo como o judeu que viu 6 milhões dos seus serem assassinados. E, se os EUA se incumbem de uma missão de trazer a paz (armada ou não) para a região, ela deve ser tentada.

Não, não endosso as opiniões antidemocráticas de Jeffrey Nyquist. O presidente iraniano mesmo foi quem disse que “não fizemos uma revolução para defender a democracia”. É através dela que a paz no Irã deve ser atingida no longo prazo. Como isto será feito ainda é uma incógnita, pois a simples pressão militar não deve ser um fim em si, mas uma das estratégias.

O histórico de Ahmadinejad é suficiente para condena-lo. Participou da invasão da embaixada americana em que foram seqüestrados 52 americanos. Sua política e intensões são claramente beligerantes. Assim, para se entender o que passa no país é preciso ir além da religião, é necessário entender o contexto político do país.

Quando era prefeito de Teerã, Ahmadinejad não conseguia nenhuma audiência com moderado presidente Khatami devido a sua verve anti-reformista.

Sua estratégia populista encontra coro na própria cultura de massa iraniana em que o antiamericanismo é manifestação latente e corriqueira.

ira.jpg

Foto: Osvaldo Coelho. Quantas manifestações serão necessárias para que a classe de intelectuais ocidentais saiba o que pretende Ahmadinejad e os terceiro-mundistas persas?

Caros leitores, se vocês estão na presidência de um país com mais de 50 milhões de pessoas, mas seu cargo tem posição e poder menores que de um nefasto líder religioso, qual a alternativa para supera-lo se não com o apoio das massas? E como faze-lo em um apelo que seja, conjunturalmente, mais forte que temer a Alá, senão amaldiçoar “algum Satã”?

O Sr. Ahmadinejad pode não ter gastado nenhum dinheiro em sua campanha eleitoral, mas ganhou apoio dos conservadores em suas mesquitas. Ele sabe como jogar o baixo clero de seu país contra o poder dos aiatolás. E tem obtido sucesso em sua empreitada. Obviamente, isto é uma forma alternativa de se obter apoio e poder. Se não se conta com a “perversão do dinheiro”, uma vez considerado incorruptível se diferenciando assim de um Saddam Hussein, apela para uma mal cheirosa mistura de religião e política. Claro que isto para uma teocracia não consiste em erro, no entanto não deixa de ser uma confusão entre poder publico e interesse privado que sempre corrobora para a aniquilação do direito individual.

O Sr. Ahmadinejad ainda insiste numa batida tática populista que sempre rende votos de norte a sul, leste a oeste: a de que vai acabar com as desigualdades sociais internas e redistribuir a riqueza. Isto pode não dizer nada para um país que depende, essencialmente, do petróleo e que a industria petroquímica é a grande ganhadora com as situações de crise externa a não ser por palavras ao vento. Mas, diz muito para quem monopolizara os ganhos antes de distribui-los em migalhas para massas famélicas no interior e nas favelas e cortiços dos centros urbanos.

E é claro que ter uma “vida simples” não atesta nada em favor de alguém que, moralmente, pretende riscar um país do mapa!

Como qualquer país, o Irã teria direito soberano sim ao desenvolvimento de energia atômica, mas não ao de ameaçar outro e qualquer país. Quanto a Israel ter armas atômicas, nada mais justo. O Estado de Israel é constantemente ameaçado por seus vizinhos que rejeitam a existência do único país democrático na região. Sei muito bem que estou endossando uma política externa calcada na desigualdade bélica. Não sou ingênuo nem lanço mão de sofismas para assegurar o que defendo, pois tenho consciência da assimetria. Mas, não há outro jeito quando um dos lados tem claras intensões de atacar. Se descobrirem alguma mágica, por favor me digam.

Para se analisar esta conjuntura se faz necessário ir além dos estritos termos do estado-nação. Dentro do próprio EUA há forças antijudaicas e anti-Israel. Nesse contexto, não resta outra saída ao Estado de Israel se preservar de qualquer forma possível, inclusive com tal arsenal. Mas, o que quer o presidente iraniano é algo mais: a perpetuação da Revolução Islâmica além fronteiras e o ressucitamento do pan-arabismo de Nasser na versão de um pan-islamismo xiita capitaneado pelos persas.[1]

Assim como Gamal Nasser ou Sadam Hussein, Ahmadinejad não é exatamente, um exemplo de líder religioso. Tal como seus pares, um chefe de estado que manipula o sentimento e frustração islâmica decorrentes do sucesso do Ocidente. Seu “reformismo” consiste em uma concentração de poder maior no estado persa.

“Direitos” todos nós temos, mas com conseqüências. O que vale para a esfera individual, vale para o Irã como nação se continuar a desenvolver seu arsenal atômico:

Ou muda sua política deixando de ameaçar Israel e de tecer amarras contra o livre-comércio regional, como quando fechou o Estreito de Ormuz em 1979;

 

Ou sofre as conseqüências de um incremento da pressão externa devido aos seus planos beligerantes.

 

Se as “afirmações de Ahmadinejad não podem ser tomadas literalmente” cabe a um místico e vidente explicitá-las, então? Esta parapsicologia não faz parte das relações internacionais e da geopolítica. O que quer que diga um chefe de estado é tomado literalmente, sim, goste ou não goste.

Pode se alegar que a comunidade internacional não tem o direito de interferir na política interna iraniana, então Ahmadinejad tampouco tem o direito o Irã de interferir em assuntos internos dos israelistas, como a questão palestina.

Muitos ainda defendem o presidente iraniano devido a sua legitimidade. Isto não se questiona. Mas, se questiona o caráter de sua democracia. A única democracia que existe é a representativa. “Democracia de massas” ou “democracia popular” como gostam de chamar os socialistas, não passa de eufemismo para totalitários. Mesmo que esteja em germe, a perpetuação da revolução islâmica trará uma maior concentração de poder para Ahmadinejad. Aliás, neste item, estão de acordo não somente “esquerdistas”, mas também uma certa “direita” que zomba do sucesso da nascente democracia iraquiana. No fundo não há tanta distinção assim entre “esquerda” e “direita”... a verdadeira diferença se encontra entre liberais/democráticos e totalitários/autoritários.

Para quem os processos eleitorais “são contaminados pelo poder econômico” e a “liberdade não passa de ficção”, é necessário perguntar qual a liberdade que existe em uma ditadura do proletariado, bem como que “pureza” ou “neutralidade” existe em uma teocracia que contamine a política?

Ahmadinejad é visto como alguém que “sepultou os desígnios da plutocracia iraniana”, mas tenta substituí-la por uma nova teocracia que crê em desígnio divino, por certo. Tampouco a Revolução Islâmica ampliou “horizontes sociais”. Outrossim, “ampliou” o preço do barril de petróleo, que após ter chegado aos 70 dólares em 1979.

Para os místicos opositores, tudo isto implica em uma estratégia de “desinformação ideológica e terror psicológico”... sim, como a elucidação religiosa dos aiatolás pode, prontamente, permitir. Inclusive com a publicação do Livro Verde de Khomeini que orienta o povo na posição de defecar, entre outras utilidades sociais ampliadas pela revolução.[2] Isto é típico de uma mente totalitária que tenta sufocar todos os poros de manifestação social, como quando Khomeini proibiu a música ocidental no país. Expediente também defendido pelo atual presidente.[3]

Quanto a psicologia, isto significa que é imanente ao indivíduo. Portanto, qualquer “terror” neste sentido ocorre em qualquer país. O prefixo sócio, é que deveria ser aplicado, mas como não há comprovação factual do mesmo, apela-se para uma variante de misticismo ao se falar em “psicologia de massas”.

A “fé inquebrantável na revolução islâmica” pode ser provada quando jovens (aos milhares) saíram nas ruas protestando contra o uso obrigatório do véu. Mas, esta deve ser outra “campanha de desinformação ocidental”, assim como os mesmos iranianos clamavam por abertura e democracia mais que plebiscitária. Assim como protestavam contra o poder do aiatolá ser maior que o presidente eleito.

Ainda há a alegação de Ahmadinejad não é anti-semita, mas anti-sionista, pois recebe a visita de judeus anti-Israel. Se parece “perfeitamente lógico” receber apenas judeus anti-sionistas, então é claro que não existe democracia no Irã, democracia tem que admitir dissidências. Analogamente não é Bush que tem que admitir opositores em seu país, mas o sistema político americano que permite a contestação e as mais duras críticas, inclusive a sua política externa, como bem se sabe.

Alegar que a essência da política que se “radica na disjuntiva amigo/inimigo” é para quem debate e confronta dentro da legalidade, não para quem, de posse de explosivos, mata civis em seu espaço público. Ou, no caso em questão, constrói um arsenal atômico para dizer, “não literalmente” segundo alguns, que varrerá Israel do mapa. Aí, não há democracia neste ou noutro mundo que permita tal isonomia de tratamento aos inimigos. O Irã convida o Ocidente para a valsa. Só não poderá reclamar se a dança for demais para seus pés de barro...

 


[1] Tal posição não é privilégio dos persas, os turcos também têm uma visão expansionista ancorada em uma espécia de “integracionismo do estado-nação”. Para se compreender o Oriente Médio é necessário dissecar suas rivalidades internas e, realisticamente, joga-las umas contra as outras. [retorna]

 

[2] “Da maneira de urinar e defecar.” O Livro Verde dos Princípios Políticos, Filosóficos, Sociais e Religiosos do Aiatolá Khomeini. Rio de Janeiro, Record, 1979. 3a edição. Pp. 37-40. [retorna]

 

[3] Kaplan em seu Os Confins da Terra (Bertrand Brasil, 1998) também notou quão engraçada e sintomática pode ser a visão terceiro-mundista sobre as sociedades ocidentais: “Vahid nada tinha de revolucionário a meu ver. Usava barba de altura normal, e não a sombra de três dias, e vestia camisa de caubói e calça de brim azul. Essa calça, o jeans, é muito popular na República Islâmica, mas a gravata é malvista por ser considerada peça do imperialismo ocidental. (No guia Lonely Planet, St Vicent aconselha, acertadamente como verifiquei, a levar calças jeans mas não gravata, sugestão que segui, apesar de ter agendadas entrevistas oficiais.) A proibição de gravata devia logicamente estender-se aos jeans. Mas, como no Irã islâmico, onde o álcool é proibido porém tolerado, vigora o senso prático. O jeans é funcional para os pobres e a classe média. A gravata não é” (pp. 280-281). Não se trata de um aspecto meramente pitoresco, mas de como informações são processadas e absorvidos por quem endossa as políticas de estado, a população. E esta é guiada antes por uma simbologia de cunho político do que por propostas e métodos concretos e concatenados. E esta dualidade pode se tornar mais tensionante, na medida que a cultura pop ocidental mais aflui entre jovens muçulmanos. [retorna]

Fico observando algumas manifestações pró e anti-Irã na internet e não consigo concordar com elas. Para mim, a possibilidade do Irã desenvolver a energia nuclear para fins pacíficos está fora de questão: ele deve faze-lo. Mas, não é isto que está em questão. Não se pode dar ao luxo de ser ingênuo: Ahmadinejad, presidente iraniano, declarou em alto e bom som que “Israel deve ser varrida do mapa”. Então, quaisquer que sejam seus objetivos secundários quanto a esta poderosa fonte energética, ela deve ser impedida.

Muitos argumentam que é injusto por que os EUA e seus aliados têm potencial nuclear. É verdade, mas a geopolítica não dá espaço para debates morais. Quem pensa que há uma “razão justa” no sentido de equilíbrio do poder se engana. É necessário estabilizar a região e, antes que uma intervenção em um país de mais de 50 milhões de pessoas seja necessária, pressões internacionais, embargo econômico como o feito contra Cuba, tudo que não necessite de mais operações militares deve ser tentado.

Já ouvi dizerem que “a fala do presidente iraniano não deve ser tomada literalmente”. Isto não é argumento válido para um povo como o judeu que viu 6 milhões dos seus serem assassinados. E, se os EUA se incumbem de uma missão de trazer a paz (armada ou não) para a região, ela deve ser tentada.

Não, não endosso as opiniões antidemocráticas de Jeffrey Nyquist. O presidente iraniano mesmo foi quem disse que “não fizemos uma revolução para defender a democracia”. É através dela que a paz no Irã deve ser atingida no longo prazo. Como isto será feito ainda é uma incógnita, pois a simples pressão militar não deve ser um fim em si, mas uma das estratégias.

O histórico de Ahmadinejad é suficiente para condena-lo. Participou da invasão da embaixada americana em que foram seqüestrados 52 americanos. Sua política e intensões são claramente beligerantes. Assim, para se entender o que passa no país é preciso ir além da religião, é necessário entender o contexto político do país.

Quando era prefeito de Teerã, Ahmadinejad não conseguia nenhuma audiência com moderado presidente Khatami devido a sua verve anti-reformista.

Sua estratégia populista encontra coro na própria cultura de massa iraniana em que o antiamericanismo é manifestação latente e corriqueira.

ira.jpg

Foto: Osvaldo Coelho. Quantas manifestações serão necessárias para que a classe de intelectuais ocidentais saiba o que pretende Ahmadinejad e os terceiro-mundistas persas?

Caros leitores, se vocês estão na presidência de um país com mais de 50 milhões de pessoas, mas seu cargo tem posição e poder menores que de um nefasto líder religioso, qual a alternativa para supera-lo se não com o apoio das massas? E como faze-lo em um apelo que seja, conjunturalmente, mais forte que temer a Alá, senão amaldiçoar “algum Satã”?

O Sr. Ahmadinejad pode não ter gastado nenhum dinheiro em sua campanha eleitoral, mas ganhou apoio dos conservadores em suas mesquitas. Ele sabe como jogar o baixo clero de seu país contra o poder dos aiatolás. E tem obtido sucesso em sua empreitada. Obviamente, isto é uma forma alternativa de se obter apoio e poder. Se não se conta com a “perversão do dinheiro”, uma vez considerado incorruptível se diferenciando assim de um Saddam Hussein, apela para uma mal cheirosa mistura de religião e política. Claro que isto para uma teocracia não consiste em erro, no entanto não deixa de ser uma confusão entre poder publico e interesse privado que sempre corrobora para a aniquilação do direito individual.

O Sr. Ahmadinejad ainda insiste numa batida tática populista que sempre rende votos de norte a sul, leste a oeste: a de que vai acabar com as desigualdades sociais internas e redistribuir a riqueza. Isto pode não dizer nada para um país que depende, essencialmente, do petróleo e que a industria petroquímica é a grande ganhadora com as situações de crise externa a não ser por palavras ao vento. Mas, diz muito para quem monopolizara os ganhos antes de distribui-los em migalhas para massas famélicas no interior e nas favelas e cortiços dos centros urbanos.

E é claro que ter uma “vida simples” não atesta nada em favor de alguém que, moralmente, pretende riscar um país do mapa!

Como qualquer país, o Irã teria direito soberano sim ao desenvolvimento de energia atômica, mas não ao de ameaçar outro e qualquer país. Quanto a Israel ter armas atômicas, nada mais justo. O Estado de Israel é constantemente ameaçado por seus vizinhos que rejeitam a existência do único país democrático na região. Sei muito bem que estou endossando uma política externa calcada na desigualdade bélica. Não sou ingênuo nem lanço mão de sofismas para assegurar o que defendo, pois tenho consciência da assimetria. Mas, não há outro jeito quando um dos lados tem claras intensões de atacar. Se descobrirem alguma mágica, por favor me digam.

Para se analisar esta conjuntura se faz necessário ir além dos estritos termos do estado-nação. Dentro do próprio EUA há forças antijudaicas e anti-Israel. Nesse contexto, não resta outra saída ao Estado de Israel se preservar de qualquer forma possível, inclusive com tal arsenal. Mas, o que quer o presidente iraniano é algo mais: a perpetuação da Revolução Islâmica além fronteiras e o ressucitamento do pan-arabismo de Nasser na versão de um pan-islamismo xiita capitaneado pelos persas.[1]

Assim como Gamal Nasser ou Sadam Hussein, Ahmadinejad não é exatamente, um exemplo de líder religioso. Tal como seus pares, um chefe de estado que manipula o sentimento e frustração islâmica decorrentes do sucesso do Ocidente. Seu “reformismo” consiste em uma concentração de poder maior no estado persa.

“Direitos” todos nós temos, mas com conseqüências. O que vale para a esfera individual, vale para o Irã como nação se continuar a desenvolver seu arsenal atômico:

Ou muda sua política deixando de ameaçar Israel e de tecer amarras contra o livre-comércio regional, como quando fechou o Estreito de Ormuz em 1979;

 

Ou sofre as conseqüências de um incremento da pressão externa devido aos seus planos beligerantes.

 

Se as “afirmações de Ahmadinejad não podem ser tomadas literalmente” cabe a um místico e vidente explicitá-las, então? Esta parapsicologia não faz parte das relações internacionais e da geopolítica. O que quer que diga um chefe de estado é tomado literalmente, sim, goste ou não goste.

Pode se alegar que a comunidade internacional não tem o direito de interferir na política interna iraniana, então Ahmadinejad tampouco tem o direito o Irã de interferir em assuntos internos dos israelistas, como a questão palestina.

Muitos ainda defendem o presidente iraniano devido a sua legitimidade. Isto não se questiona. Mas, se questiona o caráter de sua democracia. A única democracia que existe é a representativa. “Democracia de massas” ou “democracia popular” como gostam de chamar os socialistas, não passa de eufemismo para totalitários. Mesmo que esteja em germe, a perpetuação da revolução islâmica trará uma maior concentração de poder para Ahmadinejad. Aliás, neste item, estão de acordo não somente “esquerdistas”, mas também uma certa “direita” que zomba do sucesso da nascente democracia iraquiana. No fundo não há tanta distinção assim entre “esquerda” e “direita”... a verdadeira diferença se encontra entre liberais/democráticos e totalitários/autoritários.

Para quem os processos eleitorais “são contaminados pelo poder econômico” e a “liberdade não passa de ficção”, é necessário perguntar qual a liberdade que existe em uma ditadura do proletariado, bem como que “pureza” ou “neutralidade” existe em uma teocracia que contamine a política?

Ahmadinejad é visto como alguém que “sepultou os desígnios da plutocracia iraniana”, mas tenta substituí-la por uma nova teocracia que crê em desígnio divino, por certo. Tampouco a Revolução Islâmica ampliou “horizontes sociais”. Outrossim, “ampliou” o preço do barril de petróleo, que após ter chegado aos 70 dólares em 1979.

Para os místicos opositores, tudo isto implica em uma estratégia de “desinformação ideológica e terror psicológico”... sim, como a elucidação religiosa dos aiatolás pode, prontamente, permitir. Inclusive com a publicação do Livro Verde de Khomeini que orienta o povo na posição de defecar, entre outras utilidades sociais ampliadas pela revolução.[2] Isto é típico de uma mente totalitária que tenta sufocar todos os poros de manifestação social, como quando Khomeini proibiu a música ocidental no país. Expediente também defendido pelo atual presidente.[3]

Quanto a psicologia, isto significa que é imanente ao indivíduo. Portanto, qualquer “terror” neste sentido ocorre em qualquer país. O prefixo sócio, é que deveria ser aplicado, mas como não há comprovação factual do mesmo, apela-se para uma variante de misticismo ao se falar em “psicologia de massas”.

A “fé inquebrantável na revolução islâmica” pode ser provada quando jovens (aos milhares) saíram nas ruas protestando contra o uso obrigatório do véu. Mas, esta deve ser outra “campanha de desinformação ocidental”, assim como os mesmos iranianos clamavam por abertura e democracia mais que plebiscitária. Assim como protestavam contra o poder do aiatolá ser maior que o presidente eleito.

Ainda há a alegação de Ahmadinejad não é anti-semita, mas anti-sionista, pois recebe a visita de judeus anti-Israel. Se parece “perfeitamente lógico” receber apenas judeus anti-sionistas, então é claro que não existe democracia no Irã, democracia tem que admitir dissidências. Analogamente não é Bush que tem que admitir opositores em seu país, mas o sistema político americano que permite a contestação e as mais duras críticas, inclusive a sua política externa, como bem se sabe.

Alegar que a essência da política que se “radica na disjuntiva amigo/inimigo” é para quem debate e confronta dentro da legalidade, não para quem, de posse de explosivos, mata civis em seu espaço público. Ou, no caso em questão, constrói um arsenal atômico para dizer, “não literalmente” segundo alguns, que varrerá Israel do mapa. Aí, não há democracia neste ou noutro mundo que permita tal isonomia de tratamento aos inimigos. O Irã convida o Ocidente para a valsa. Só não poderá reclamar se a dança for demais para seus pés de barro...

 


[1] Tal posição não é privilégio dos persas, os turcos também têm uma visão expansionista ancorada em uma espécia de “integracionismo do estado-nação”. Para se compreender o Oriente Médio é necessário dissecar suas rivalidades internas e, realisticamente, joga-las umas contra as outras. [retorna]

 

[2] “Da maneira de urinar e defecar.” O Livro Verde dos Princípios Políticos, Filosóficos, Sociais e Religiosos do Aiatolá Khomeini. Rio de Janeiro, Record, 1979. 3a edição. Pp. 37-40. [retorna]

 

[3] Kaplan em seu Os Confins da Terra (Bertrand Brasil, 1998) também notou quão engraçada e sintomática pode ser a visão terceiro-mundista sobre as sociedades ocidentais: “Vahid nada tinha de revolucionário a meu ver. Usava barba de altura normal, e não a sombra de três dias, e vestia camisa de caubói e calça de brim azul. Essa calça, o jeans, é muito popular na República Islâmica, mas a gravata é malvista por ser considerada peça do imperialismo ocidental. (No guia Lonely Planet, St Vicent aconselha, acertadamente como verifiquei, a levar calças jeans mas não gravata, sugestão que segui, apesar de ter agendadas entrevistas oficiais.) A proibição de gravata devia logicamente estender-se aos jeans. Mas, como no Irã islâmico, onde o álcool é proibido porém tolerado, vigora o senso prático. O jeans é funcional para os pobres e a classe média. A gravata não é” (pp. 280-281). Não se trata de um aspecto meramente pitoresco, mas de como informações são processadas e absorvidos por quem endossa as políticas de estado, a população. E esta é guiada antes por uma simbologia de cunho político do que por propostas e métodos concretos e concatenados. E esta dualidade pode se tornar mais tensionante, na medida que a cultura pop ocidental mais aflui entre jovens muçulmanos. [retorna]

Anselmo Heidrich

Professor de Geografia no Ensino Médio e Pré-Vestibular em S. Paulo. Formado pela UFRGS em 1987.

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