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19 Dez 2005

Socialismo Tardio

Escrito por 
Lula e o PT bem que tentaram, mas tudo indica que fracassaram, para nossa sorte. Infelizmente, parece que seus pares na Venezuela e na Bolívia obtiveram bem mais sucesso em sua empreitada de destruição.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida a respeito, os eventos das últimas semanas na Venezuela e o que se prenuncia na Bolívia são sinais claros de que o socialismo não apenas não morreu com a queda do Muro de Berlim, mas encontrou abrigo na América Latina. Com décadas de defasagem em relação à Europa, nosso sofrido sub-continente parece disposto a dar uma chance à uma ideologia que não apenas mostrou-se um fracasso completo onde quer que tenha sido adotada, como também cobrou um pesado preço em vidas humanas.

Na Venezuela, uma eleição claramente manipulada deu aos seguidores de Hugo Chávez o controle completo do parlamento. O que se pretende fazer já está claro: mudar a Constituição para dar mais poderes a Chávez para levar adiante a parte mais radical da sua “Revolução Bolivariana”, e permitir que o coronel se candidate para um terceiro mandato. E qual é o objetivo da tal revolução? Implantar na Venezuela o “socialismo do século 21”, nas palavras do próprio Chávez. Então, não sou eu que acuso aqui Chávez de ser socialista; ele próprio admite com orgulho que é, e que seu objetivo é transformar a Venezuela em uma nova Cuba.

Muito se criticou, na imprensa brasileira e internacional, a oposição venezuelana por ter decidido boicotar as eleições. Essas críticas me parecem infundadas, e vem de gente que não parece ter entendido a dinâmica do que acontece na Venezuela. Presos à idéia de que os formalismos da democracia são a essência da mesma, esses analistas não percebem que participar de eleições em um ambiente em que não existem condições institucionais e concretas de alternância de poder é endossar uma farsa. Chávez ia ganhar de qualquer forma, pelo simples fato de que a expressão da oposição é severamente censurada e patrulhada pelos seguidores do coronel. Ser oposicionista na Venezuela de hoje é não apenas um ato de coragem moral enorme, mas também uma atividade que envolve risco concreto de vida. Chávez subverteu os mecanismos da democracia formal para criar, na prática, um regime de partido único.

Ora, alguém realmente acha que a oposição venezuelana não entende o que estava fazendo ao decidir pelo boicote? Ciente da armadilha montada por Chávez e da sua incapacidade de oferecer algum tipo de resistência real no campo político, ela decidiu denunciar a farsa ao mundo. Boicotar eleições não é algo que se faça de forma leviana; é, principalmente, o ato final de protesto e denúncia de um oposição desiludida com o processo político convencional e barrada, por todos os meios, de chegar ao poder. Éra a última cartada que restava à oposição venezuelana para mostrar ao mundo que a Revolução Bolivariana significa, antes de mais nada, a implantação de uma ditadura. Funcionou: além da condenação por observadores da União Européia e dos EUA aos processos eleitorais venezuelanos, o altíssimo índice de abstenção – rondando os 75% – mostra que os próprios venezuelanos não compraram a farsa. Apenas os bate-paus de Chávez foram votar; a maioria silenciosa disse “não” ao engodo chavista. Infelizmente, isso não será suficiente para reverter o processo em curso.

O aprofundamento do processo de implantação do socialismo na Venezuela já começou bem antes das eleições; e como seria de se esperar, o tal “socialismo do século 21” é muito, mas muitíssimo parecido com o do século 20, com todas as suas contradições, demência econômica e totalitarismo. Várias empresas estrangeiras já tiveram propriedades e terras expropriadas pelo governo, extensos sistemas de doutrinação ideológica foram criados sob o pretexto de alfabetizar adultos, e o imenso poder econômico da estatal PDVSA foi colocado a serviço dos interesses do regime, financiando com a renda do petróleo todo tipo de ação populista e assistencialista de Chávez e lhe dando controle total sobre o setor mais fundamental da economia venezuelana. Seguindo lado a lado com a socialização da economia, controles cada vez mais rígidos sobre as liberdades de expressão e imprensa foram impostos; jornais que publicam críticas ao regime recebem multas milionárias, e jornalistas que denunciam as atrocidades crescentes tem sido presos, atacados, e ameaçados de morte. O judiciário perdeu sua independência, e agora funciona como mera correia de transmissão das vontades de Hugo Chávez. Um acordo firmado com Cuba no começo de 2005 permite à polícia secreta deste país prender e extraditar para a ilha-cárcere qualquer venezuelano que form considerado “inimigo” do regime de Fidel Castro; uma forma engenhosa que Chávez encontrou de livrar-se dos seus próprios adversários. Se alguém tinha dúvidas se a Venezuela caminha para uma ditadura, as eleições parlamentares recentes devem ser o suficiente para dirimir tais dúvidas: o país já é uma, em tudo menos no nome.

O caso mais simbólico aconteceu poucos dias atrás: um sindicalista que se opunha à Chávez foi preso sob acusação de tentar subverter o regime. É apenas uma questão de tempo para que o direito de greve seja extinto na Venezuela.

Diante do assalto óbvio à democracia e à liberdade na Venezuela, o que diz a esquerda brasileira? Uma parte recolhe-se ao silêncio obsequioso (o mesmo que mantém em relação a Lula, diga-se de passagem), chocada com a óbvia contradição entre o discurso humanista e progressista que defende e as práticas brutais de quem foi durante anos tratado por ela como um símbolo do propalado “socialismo democrático” (sem entender, claro, que socialismo e democracia são conceitos antagônicos e irreconciliáveis). Outra parte faz de conta que não vê o que acontece e acusa os críticos de Chávez de golpistas, agentes dos interesses do imperialismo ianque, reacionários, e brande aos quatro ventos que o porcumentário “A Revolução Não Será Televisionada” é “A” verdade dos fatos (um comportamento que ecoa, curiosamente, o comportamento que essa mesma esquerda tem em relação aos escândalos do governo Lula: tenta-se ignorar a realidade brutal da corrupção e transformar as denúncias e investigações em “golpismo das elites”, como se tudo fosse motivado por luta política e não pelo deseja sincero de uma parcela expressiva da sociedade em descobrir a verdade e punir os crimes, não importa a orientação ideológica dos criminosos). Em nenhum caso, vê-se a esquerda posicionando-se firmemente a favor daquilo que ela diz defender: democracia, direitos humanos, justiça, tolerância, etc. Pergunto-me: se Chávez fizesse isso tudo mas fosse um político conservador, aliado aos EUA e amigo de George W. Bush, a esquerda silenciaria da mesma forma ou atacaria os abusos do regime com vigor e zelo quase que fanáticos? Basta observar como a esquerda latino-americana trata Álvaro Uribe, o presidente conservador da Colômbia (e que, nem de longe, pode ser considerado líder de um regime ditatorial), rotineiramente tratado como “fascista” e “traidor”, e as loas à Hugo Chávez que podem ser encontradas em órgãos como o Vermelho.Org, para imaginar como seria.

Na Bolívia, o mesmo filme está prestes a entrar em cartaz, embora o processo lá esteja em um estágio menos avançado. Evo Moralez, o líder cocaleiro que é favorito na disputa pela presidência, já declarou aos quatro ventos suas simpatias por Hugo Chávez e seu regime, e seu desejo de seguir os passos da Revolução Bolivariana. E tal como na Venezuela a classe política tradicional, atolada na corrupção e no patrimonialismo arcaico, é incapaz de oferecer uma alternativa ao radicalismo socialista que quer tentar na América Latina as fórmulas que só levaram, em todo o mundo, ao aprofundamento da miséria e ao totalitarismo. E mesmo diante de todos os sinais, a esquerda brasileira continua mesmerizada com coronéis e cocaleiros, e lamentando que Lula não tenha tido sucesso em seguir os passos de seus amigos Fidel e Chávez. E depois, claro, “reacionário” é quem denuncia que a realidade permanente da esquerda é o flerte com o totalitarismo no exterior e o discurso da democracia internamente, mas com o objetivo de subvertê-la e destruí-la por dentro.

Lula e o PT bem que tentaram, mas tudo indica que fracassaram, para nossa sorte. Infelizmente, parece que seus pares na Venezuela e na Bolívia obtiveram bem mais sucesso em sua empreitada de destruição.

Se alguém ainda tinha alguma dúvida a respeito, os eventos das últimas semanas na Venezuela e o que se prenuncia na Bolívia são sinais claros de que o socialismo não apenas não morreu com a queda do Muro de Berlim, mas encontrou abrigo na América Latina. Com décadas de defasagem em relação à Europa, nosso sofrido sub-continente parece disposto a dar uma chance à uma ideologia que não apenas mostrou-se um fracasso completo onde quer que tenha sido adotada, como também cobrou um pesado preço em vidas humanas.

Na Venezuela, uma eleição claramente manipulada deu aos seguidores de Hugo Chávez o controle completo do parlamento. O que se pretende fazer já está claro: mudar a Constituição para dar mais poderes a Chávez para levar adiante a parte mais radical da sua “Revolução Bolivariana”, e permitir que o coronel se candidate para um terceiro mandato. E qual é o objetivo da tal revolução? Implantar na Venezuela o “socialismo do século 21”, nas palavras do próprio Chávez. Então, não sou eu que acuso aqui Chávez de ser socialista; ele próprio admite com orgulho que é, e que seu objetivo é transformar a Venezuela em uma nova Cuba.

Muito se criticou, na imprensa brasileira e internacional, a oposição venezuelana por ter decidido boicotar as eleições. Essas críticas me parecem infundadas, e vem de gente que não parece ter entendido a dinâmica do que acontece na Venezuela. Presos à idéia de que os formalismos da democracia são a essência da mesma, esses analistas não percebem que participar de eleições em um ambiente em que não existem condições institucionais e concretas de alternância de poder é endossar uma farsa. Chávez ia ganhar de qualquer forma, pelo simples fato de que a expressão da oposição é severamente censurada e patrulhada pelos seguidores do coronel. Ser oposicionista na Venezuela de hoje é não apenas um ato de coragem moral enorme, mas também uma atividade que envolve risco concreto de vida. Chávez subverteu os mecanismos da democracia formal para criar, na prática, um regime de partido único.

Ora, alguém realmente acha que a oposição venezuelana não entende o que estava fazendo ao decidir pelo boicote? Ciente da armadilha montada por Chávez e da sua incapacidade de oferecer algum tipo de resistência real no campo político, ela decidiu denunciar a farsa ao mundo. Boicotar eleições não é algo que se faça de forma leviana; é, principalmente, o ato final de protesto e denúncia de um oposição desiludida com o processo político convencional e barrada, por todos os meios, de chegar ao poder. Éra a última cartada que restava à oposição venezuelana para mostrar ao mundo que a Revolução Bolivariana significa, antes de mais nada, a implantação de uma ditadura. Funcionou: além da condenação por observadores da União Européia e dos EUA aos processos eleitorais venezuelanos, o altíssimo índice de abstenção – rondando os 75% – mostra que os próprios venezuelanos não compraram a farsa. Apenas os bate-paus de Chávez foram votar; a maioria silenciosa disse “não” ao engodo chavista. Infelizmente, isso não será suficiente para reverter o processo em curso.

O aprofundamento do processo de implantação do socialismo na Venezuela já começou bem antes das eleições; e como seria de se esperar, o tal “socialismo do século 21” é muito, mas muitíssimo parecido com o do século 20, com todas as suas contradições, demência econômica e totalitarismo. Várias empresas estrangeiras já tiveram propriedades e terras expropriadas pelo governo, extensos sistemas de doutrinação ideológica foram criados sob o pretexto de alfabetizar adultos, e o imenso poder econômico da estatal PDVSA foi colocado a serviço dos interesses do regime, financiando com a renda do petróleo todo tipo de ação populista e assistencialista de Chávez e lhe dando controle total sobre o setor mais fundamental da economia venezuelana. Seguindo lado a lado com a socialização da economia, controles cada vez mais rígidos sobre as liberdades de expressão e imprensa foram impostos; jornais que publicam críticas ao regime recebem multas milionárias, e jornalistas que denunciam as atrocidades crescentes tem sido presos, atacados, e ameaçados de morte. O judiciário perdeu sua independência, e agora funciona como mera correia de transmissão das vontades de Hugo Chávez. Um acordo firmado com Cuba no começo de 2005 permite à polícia secreta deste país prender e extraditar para a ilha-cárcere qualquer venezuelano que form considerado “inimigo” do regime de Fidel Castro; uma forma engenhosa que Chávez encontrou de livrar-se dos seus próprios adversários. Se alguém tinha dúvidas se a Venezuela caminha para uma ditadura, as eleições parlamentares recentes devem ser o suficiente para dirimir tais dúvidas: o país já é uma, em tudo menos no nome.

O caso mais simbólico aconteceu poucos dias atrás: um sindicalista que se opunha à Chávez foi preso sob acusação de tentar subverter o regime. É apenas uma questão de tempo para que o direito de greve seja extinto na Venezuela.

Diante do assalto óbvio à democracia e à liberdade na Venezuela, o que diz a esquerda brasileira? Uma parte recolhe-se ao silêncio obsequioso (o mesmo que mantém em relação a Lula, diga-se de passagem), chocada com a óbvia contradição entre o discurso humanista e progressista que defende e as práticas brutais de quem foi durante anos tratado por ela como um símbolo do propalado “socialismo democrático” (sem entender, claro, que socialismo e democracia são conceitos antagônicos e irreconciliáveis). Outra parte faz de conta que não vê o que acontece e acusa os críticos de Chávez de golpistas, agentes dos interesses do imperialismo ianque, reacionários, e brande aos quatro ventos que o porcumentário “A Revolução Não Será Televisionada” é “A” verdade dos fatos (um comportamento que ecoa, curiosamente, o comportamento que essa mesma esquerda tem em relação aos escândalos do governo Lula: tenta-se ignorar a realidade brutal da corrupção e transformar as denúncias e investigações em “golpismo das elites”, como se tudo fosse motivado por luta política e não pelo deseja sincero de uma parcela expressiva da sociedade em descobrir a verdade e punir os crimes, não importa a orientação ideológica dos criminosos). Em nenhum caso, vê-se a esquerda posicionando-se firmemente a favor daquilo que ela diz defender: democracia, direitos humanos, justiça, tolerância, etc. Pergunto-me: se Chávez fizesse isso tudo mas fosse um político conservador, aliado aos EUA e amigo de George W. Bush, a esquerda silenciaria da mesma forma ou atacaria os abusos do regime com vigor e zelo quase que fanáticos? Basta observar como a esquerda latino-americana trata Álvaro Uribe, o presidente conservador da Colômbia (e que, nem de longe, pode ser considerado líder de um regime ditatorial), rotineiramente tratado como “fascista” e “traidor”, e as loas à Hugo Chávez que podem ser encontradas em órgãos como o Vermelho.Org, para imaginar como seria.

Na Bolívia, o mesmo filme está prestes a entrar em cartaz, embora o processo lá esteja em um estágio menos avançado. Evo Moralez, o líder cocaleiro que é favorito na disputa pela presidência, já declarou aos quatro ventos suas simpatias por Hugo Chávez e seu regime, e seu desejo de seguir os passos da Revolução Bolivariana. E tal como na Venezuela a classe política tradicional, atolada na corrupção e no patrimonialismo arcaico, é incapaz de oferecer uma alternativa ao radicalismo socialista que quer tentar na América Latina as fórmulas que só levaram, em todo o mundo, ao aprofundamento da miséria e ao totalitarismo. E mesmo diante de todos os sinais, a esquerda brasileira continua mesmerizada com coronéis e cocaleiros, e lamentando que Lula não tenha tido sucesso em seguir os passos de seus amigos Fidel e Chávez. E depois, claro, “reacionário” é quem denuncia que a realidade permanente da esquerda é o flerte com o totalitarismo no exterior e o discurso da democracia internamente, mas com o objetivo de subvertê-la e destruí-la por dentro.

Lula e o PT bem que tentaram, mas tudo indica que fracassaram, para nossa sorte. Infelizmente, parece que seus pares na Venezuela e na Bolívia obtiveram bem mais sucesso em sua empreitada de destruição.

Luiz Antonio Moraes Simi

Bacharel em Administração pela Universidade de São Paulo, tem sua experiência profissional concentrada nas áreas de finanças e controladoria. Atualmente reside em Munique, onde trabalha com projetos para a área de exportação de uma grande companhia alemã. Um seguidor do liberalismo clássico e da Escola Austríaca de Economia, acredita em livre mercado, liberdade individual, pluralismo político e direitos individuais inalienáveis. É colunista dos sites Capitólio.org e Liberdade Econômica, e mantém um blog, "Livre Pensamento", dedicado à discussão da doutrina liberal.

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