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26 Mai 2004

Campeonato Sinistro

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Por mais discursos progressistas (quero dizer, irresponsáveis) que os políticos façam para se eleger, uma vez no poder não lhes restará outra alternativa que não se pautar dentro dos limites da racionalidade.

Para aqueles que conseguem distinguir bem as cores do espectro político, em nada surpreende o discurso de José Serra ao se dizer à esquerda do PT e que fará uma política esquerdista uma vez eleito para a prefeitura de São Paulo. Disse isso aludindo a um possível posicionamento do governo Lula, supostamente à direita.

Uma coisa é o discurso, outra coisa a ação. Há uma crença generalizada em nossa classe política de que apenas o discurso esquerdista – estatizante e distributivista – é que consegue eleger políticos. Tanto é verdade que apenas candidatos caricaturais assumem posições consideradas de direita, a la Enéas. E, dentre esses, não conheço um só que professe as idéias liberais. Direita, no Brasil, confunde-se com o patrimonialismo e o nacionalismo mais primários, o que é falso.

Acontece que a realidade impõe limites. Durante muitos anos os políticos nacionais puderam fazer tábula rasa da coisa pública, emitindo moeda, aumentando a dívida pública e declarando eventuais moratórias internacionais, tudo em nome do social. Penso que esse modo populista de gerir a coisa pública esgotou-se, entrando na agenda, para valer, a responsabilidade fiscal dos dirigentes. Por mais discursos progressistas (quero dizer, irresponsáveis) que os políticos façam para se eleger, uma vez no poder não lhes restará outra alternativa que não se pautar dentro dos limites da racionalidade.

Simplesmente o eleitorado não tolera mais inflação fora de controle e os acordos internacionais impedem formalmente aventuras com a moeda e o câmbio.

Os esquerdistas na oposição chamam a ação política responsável de direitista, mesmo sabendo que não é e mesmo sabendo que, se eleitos, nada farão de diferente, ainda que não abdiquem de suas crenças políticas. O exemplo mais categórico do que eu estou querendo dizer é o recente fechamento de questão do Partido dos Trabalhadores no que se refere à fixação do novo salário mínimo. Essa decisão simplesmente apaga tudo que o partido e os seus membros disseram sobre o assunto desde a sua fundação. A realidade da escassez se impõe, a despeito da vontade política.

Em resumo, Serra faz o discurso que se espera de alguém que se diz progressista, mas nada fará, uma vez no poder, que contrarie o bom senso. Ter clareza disso é importante porque se evita o relativismo de alguns comentaristas, que julgam que tanto faz eleger Serra ou Marta para a prefeitura de São Paulo. Considero isso um grave equívoco. Serra e o PSDB são social-democratas clássicos, tendo um projeto de poder e um projeto de Estado conhecidos. Praticam suas idéias esquerdistas dentro da ordem, ou seja, respeitando as instituições do mercado, sem que haja, naquele partido, alguma ala declaradamente revolucionária.

O mesmo não pode se dito do PT. Bem sabemos que esse partido é uma frente que contém em seu interior uma numerosa minoria claramente marxista-leninista. Essa ala, se puder, chegará ao poder pela força, vez que não tem nenhum compromisso com os valores democráticos. Dessa forma, fortalecer o PT significa também fortalecer a sua ala revolucionária. Não preciso sublinhar o perigo histórico que uma situação assim representa para o Brasil. Onde esses aventureiros se instalaram no poder os mortos foram contados aos milhões.

Em conclusão, podemos dizer que derrotar Marta Suplicy em São Paulo é uma necessidade que se impõe para os verdadeiros democratas. Não é apenas a prefeitura que está em jogo, é já a sucessão presidencial que está sendo decidida. Isso para não falar da sucessão do governo do Estado. Então é preciso pensar estrategicamente, isto é, não permitir, em hipótese alguma, que os radicais fiquem ainda mais fortes do que estão. Por isso é preciso escapar do falso relativismo. É evidente que o candidato Serra é muito superior à candidata do PT e é a única força, na atual conjuntura, capaz de pôr freio à escalada dos radicais ao poder.

Última modificação em Quarta, 30 Outubro 2013 21:29
José Nivaldo Cordeiro

José Nivaldo Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas na FGV-SP. Cristão, liberal e democrata, acredita que o papel do Estado deve se cingir a garantia da ordem pública. Professa a idéia de que a liberdade, a riqueza e a prosperidade devem ser conquistadas mediante esforço pessoal, afastando coletivismos e a intervenção estatal nas vidas dos cidadãos.

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